A bomba "Little Boy" explodiu às 8h16min02s, a 6 de agosto de 1945, hora de Hiroshima. Quarenta e três segundos após ter sido lançada do Enola Gay, a 580 metros acima do pátio do Hospital Shima, a 168 metros a sudoeste do alvo, a ponte Aioi, com uma potência equivalente a 12.500 toneladas de TNT.
"Assim que olhei para o céu, houve um clarão de luz branca e o verde das plantas, sob aquela luz, parecia da cor de folhas secas" - Menina de cinco anos que vivia nos subúrbios.
"Logo depois da voz da nossa professora, dizendo 'Ah, ali está um B!' [B-29], nos fazer olhar para o céu, sentimos um relâmpago tremendo. Num instante, ficamos cegos e tudo se transformou num frenesim de delírio" - Uma jovem estudante universitária.
"Como o calor do clarão chega num intervalo de tempo tão curto, não há tempo para que ocorra qualquer arrefecimento, e a temperatura da pele de uma pessoa pode subir [+50 ºC]... no primeiro milissegundo a uma distância de [3,7 km]." – Estudo do projecto Manhattan (o projecto de desenvolvimento da bomba atómica).
"A temperatura no local da explosão... atingiu os [3000 ºC]... e foram encontradas lesões térmicas primárias provocadas pela bomba atómica... naqueles expostos até [3,2 km] do hipocentro... As queimaduras primárias são lesões de natureza especial e não são comuns no dia-a-dia." - Estudo japonês sobre o bombardeamento de Hiroshima, 1976.
"Não acredito que alguém alguma vez tenha esperado ver uma cena como aquela. Onde dois minutos antes víamos uma cidade clara, agora já não a conseguíamos ver. Podíamos ver fumo e incêndios a subir pelas encostas das montanhas." - Robert Lewis, tripulante do B-29 Enola Gay.
"Se quiser descrevê-la com algo familiar, seria como uma panela de óleo preto a ferver..." - Van Kirk, tripulante do B-29 Enola Gay.
“Perguntei ao Dr. Koyama quais tinham sido as suas observações em doentes com lesões oculares. ‘Aqueles que viram o avião ficaram com a superfície ocular queimada’, respondeu. ‘O clarão aparentemente atravessou as pupilas e deixou uma área cega na porção central do campo visual. A maioria das queimaduras na superfície ocular são de terceiro grau, pelo que a cicatrização é impossível.’" - Relatório do Dr. Hachiya.
A luz não queimou aqueles que estavam protegidos dentro dos edifícios, mas a onda de choque da explosão encontrou-os:
"Aquele rapaz estava num quarto à beira do rio, a olhar para o rio quando a explosão aconteceu, e nesse instante, quando a casa desabou, foi atirado do último quarto para o outro lado da rua, para a margem do rio, e caiu na rua abaixo. Durante esse percurso, atravessou algumas janelas da casa e o seu corpo ficou cheio de todos os vidros que conseguiu reter. É por isso que estava completamente coberto de sangue."
"A aparência das pessoas era... bem, todas tinham a pele enegrecida por queimaduras... Não tinham cabelo porque o cabelo estava queimado, e à primeira vista não dava para saber se as estávamos a ver de frente ou de costas... Mantinham os braços [à frente do corpo]... e a pele — não só das mãos, mas também do rosto e do corpo — pendia... Se tivesse havido apenas uma ou duas pessoas assim... talvez eu não tivesse tido uma impressão tão forte. Mas onde quer que eu andasse, encontrava essas pessoas... Muitas delas morreram na estrada — Ainda as consigo visualizar na minha mente — como fantasmas ambulantes... Não pareciam pessoas deste mundo... Tinham uma forma muito peculiar de andar — muito devagar... Eu próprio era uma delas."
Ficamos por aqui nos relatos dos sobreviventes. A descrição do horror e do sofrimento das vítimas, em larga maioria civil, está registada em inúmeros relatos e imagens, e, em particular, no Museu Memorial da Paz de Hiroshima.
Dos 255.000 habitantes de Hiroshima à data do ataque, 70.000 foram mortos na explosão ou pouco depois. Até ao fim desse ano o número total de mortos ascenderá a 140.000 (55 % da população inicial) fruto dos ferimentos e do desenvolvimento da então desconhecida “doença das radiações”. A estes há que juntar as vítimas do ataque a Nagasaki, três dias depois (no mesmo dia em que as tropas soviéticas invadiram a Manchuria e as ilhas Sacalina), do qual resultaram cerca de 74.000 mortos.
Pela primeira vez na história do homem tinha sido usada a arma atómica, num bombardeamento indiscriminado de civis. Tratou-se de mais um crime do exército Americano e uma das páginas mais negras da 2.ª Guerra Mundial.
in jornal "Avante"- 6/8/2026
Deus caritas est!
ResponderEliminarAmén!
EliminarObservação: Uma criança de 5 anos não se expressa com essa maturidade. Fiz uma breve pesquisa. Ikuko fez essa descrição quando tinha 10 ou 11 anos.
ResponderEliminarMuitas décadas já passaram, que, perante a fragilidade da paz neste momento, não contam muito.
5 anos, 10 ou 11, continua a ser uma criança...
Eliminare conta muito
o seu testemunho
Quanto às décadas passadas ela geraram a oportunidade de se desenvolver uma tecnologia igualmente mortífera...
E... continuam a ser os EUA a estar na berlinda
E quem foi que mandou a bombinha... quem foi???
ResponderEliminarE agora, só eles e os amigos deles é que podem fabricar "fogo de artifício".
A pergunta
Eliminarnão é gratuita
nem a resposta
Pois, mesmo que todos saibam
é urgente manter tal memória
Foi um horror, mas a Humanidade não aprende!
ResponderEliminarAbraço
E... não sei se deste conta... ninguém (jornais e televiSõeS) falou desta data, nem de taiS horrores...
EliminarAbraço entristecido
Marie Luise Kaschnitz utiliza esta composição para expor a "banalidade do mal".
ResponderEliminarO que lançou a morte sobre Hiroxima
Entrou no convento, toca ali os sinos.
O que lançou a morte sobre Hiroxima
Saltou de uma cadeira para a corda, enforcou-se.
O que lançou a morte sobre Hiroxima
Caiu na loucura, afasta fantasmas
Cem mil, que o atacam todas as noites
Ressuscitados do pó para ele.
Nada disto é verdade.
Ainda há pouco tempo o vi
No jardim da sua casa, nos arredores da cidade.
Como ainda eram jovens e as rosas frágeis.
Isso não cresce tão deprimido que alguém pode se esconder
Na floresta do esquecimento. Bem visível estava
A despida casa de província, a jovem mulher
Que estava ao seu lado num vestido floral,
A menina pela mão,
O rapaz que estava sentado nas suas costas
E brandia o chicote acima da sua cabeça.
Muito bem reconhecível estava ele próprio,
De gatas no relvado, o rosto
Contorcido de arroz, porque o fotógrafo
Estava atrás da sebe, o olho do mundo.
Aviso-te 📌 Rogério, para não resmungares com este meu comentário‼️
Compreendo os traumas...
ResponderEliminarQuanto a resmungar..
Nem pensar!
E... a leitura do Avante é um mero cuidado para que não apaguem a memória e entendam os tempos que vamos vivendo