06 agosto, 2026

A BOMBA SOBRE HIROXIMA MATOU, MATOU, MATOU (EXACTAMENTE NO ANO EM QUE EU VIM AO MUNDO)


 A bomba "Little Boy" ex­plodiu às 8h16­min02s, a 6 de agosto de 1945, hora de Hi­roshima. Qua­renta e três se­gundos após ter sido lan­çada do Enola Gay, a 580 me­tros acima do pátio do Hos­pital Shima, a 168 me­tros a su­do­este do alvo, a ponte Aioi, com uma po­tência equi­va­lente a 12.500 to­ne­ladas de TNT.

"Assim que olhei para o céu, houve um clarão de luz branca e o verde das plantas, sob aquela luz, pa­recia da cor de fo­lhas secas" - Me­nina de cinco anos que vivia nos su­búr­bios.

"Logo de­pois da voz da nossa pro­fes­sora, di­zendo 'Ah, ali está um B!' [B-29], nos fazer olhar para o céu, sen­timos um re­lâm­pago tre­mendo. Num ins­tante, fi­camos cegos e tudo se trans­formou num fre­nesim de de­lírio" - Uma jovem es­tu­dante uni­ver­si­tária.

"Como o calor do clarão chega num in­ter­valo de tempo tão curto, não há tempo para que ocorra qual­quer ar­re­fe­ci­mento, e a tem­pe­ra­tura da pele de uma pessoa pode subir [+50 ºC]... no pri­meiro mi­lis­se­gundo a uma dis­tância de [3,7 km]." – Es­tudo do pro­jecto Ma­nhattan (o pro­jecto de de­sen­vol­vi­mento da bomba ató­mica).

"A tem­pe­ra­tura no local da ex­plosão... atingiu os [3000 ºC]... e foram en­con­tradas le­sões tér­micas pri­má­rias pro­vo­cadas pela bomba ató­mica... na­queles ex­postos até [3,2 km] do hi­po­centro... As quei­ma­duras pri­má­rias são le­sões de na­tu­reza es­pe­cial e não são co­muns no dia-a-dia." - Es­tudo ja­ponês sobre o bom­bar­de­a­mento de Hi­roshima, 1976.

"Não acre­dito que al­guém al­guma vez tenha es­pe­rado ver uma cena como aquela. Onde dois mi­nutos antes víamos uma ci­dade clara, agora já não a con­se­guíamos ver. Po­díamos ver fumo e in­cên­dios a subir pelas en­costas das mon­ta­nhas." - Ro­bert Lewis, tri­pu­lante do B-29 Enola Gay.

"Se quiser des­crevê-la com algo fa­mi­liar, seria como uma pa­nela de óleo preto a ferver..." - Van Kirk, tri­pu­lante do B-29 Enola Gay.

Per­guntei ao Dr. Koyama quais ti­nham sido as suas ob­ser­va­ções em do­entes com le­sões ocu­lares. ‘Aqueles que viram o avião fi­caram com a su­per­fície ocular quei­mada’, res­pondeu. ‘O clarão apa­ren­te­mente atra­vessou as pu­pilas e deixou uma área cega na porção cen­tral do campo vi­sual. A mai­oria das quei­ma­duras na su­per­fície ocular são de ter­ceiro grau, pelo que a ci­ca­tri­zação é im­pos­sível.’" - Re­la­tório do Dr. Ha­chiya.

A luz não queimou aqueles que es­tavam pro­te­gidos dentro dos edi­fí­cios, mas a onda de choque da ex­plosão en­con­trou-os:

"Aquele rapaz es­tava num quarto à beira do rio, a olhar para o rio quando a ex­plosão acon­teceu, e nesse ins­tante, quando a casa de­sabou, foi ati­rado do úl­timo quarto para o outro lado da rua, para a margem do rio, e caiu na rua abaixo. Du­rante esse per­curso, atra­vessou al­gumas ja­nelas da casa e o seu corpo ficou cheio de todos os vi­dros que con­se­guiu reter. É por isso que es­tava com­ple­ta­mente co­berto de sangue."

"A apa­rência das pes­soas era... bem, todas ti­nham a pele ene­gre­cida por quei­ma­duras... Não ti­nham ca­belo porque o ca­belo es­tava quei­mado, e à pri­meira vista não dava para saber se as es­tá­vamos a ver de frente ou de costas... Man­ti­nham os braços [à frente do corpo]... e a pele — não só das mãos, mas também do rosto e do corpo — pendia... Se ti­vesse ha­vido apenas uma ou duas pes­soas assim... talvez eu não ti­vesse tido uma im­pressão tão forte. Mas onde quer que eu an­dasse, en­con­trava essas pes­soas... Muitas delas mor­reram na es­trada — Ainda as con­sigo vi­su­a­lizar na minha mente — como fan­tasmas am­bu­lantes... Não pa­re­ciam pes­soas deste mundo... Ti­nham uma forma muito pe­cu­liar de andar — muito de­vagar... Eu pró­prio era uma delas."

Fi­camos por aqui nos re­latos dos so­bre­vi­ventes. A des­crição do horror e do so­fri­mento das ví­timas, em larga mai­oria civil, está re­gis­tada em inú­meros re­latos e ima­gens, e, em par­ti­cular, no Museu Me­mo­rial da Paz de Hi­roshima.

Dos 255.000 ha­bi­tantes de Hi­roshima à data do ataque, 70.000 foram mortos na ex­plosão ou pouco de­pois. Até ao fim desse ano o nú­mero total de mortos as­cen­derá a 140.000 (55 % da po­pu­lação ini­cial) fruto dos fe­ri­mentos e do de­sen­vol­vi­mento da então des­co­nhe­cida “do­ença das ra­di­a­ções”. A estes há que juntar as ví­timas do ataque a Na­ga­saki, três dias de­pois (no mesmo dia em que as tropas so­vié­ticas in­va­diram a Man­churia e as ilhas Sa­ca­lina), do qual re­sul­taram cerca de 74.000 mortos.

Pela pri­meira vez na his­tória do homem tinha sido usada a arma ató­mica, num bom­bar­de­a­mento in­dis­cri­mi­nado de civis. Tratou-se de mais um crime do exér­cito Ame­ri­cano e uma das pá­ginas mais ne­gras da 2.ª Guerra Mun­dial.

(...)

 in jornal "Avante"- 6/8/2026

10 comentários:

  1. Observação: Uma criança de 5 anos não se expressa com essa maturidade. Fiz uma breve pesquisa. Ikuko fez essa descrição quando tinha 10 ou 11 anos.

    Muitas décadas já passaram, que, perante a fragilidade da paz neste momento, não contam muito.

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    1. 5 anos, 10 ou 11, continua a ser uma criança...
      e conta muito
      o seu testemunho

      Quanto às décadas passadas ela geraram a oportunidade de se desenvolver uma tecnologia igualmente mortífera...
      E... continuam a ser os EUA a estar na berlinda

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  2. E quem foi que mandou a bombinha... quem foi???
    E agora, só eles e os amigos deles é que podem fabricar "fogo de artifício".

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    1. A pergunta
      não é gratuita
      nem a resposta
      Pois, mesmo que todos saibam
      é urgente manter tal memória

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  3. Foi um horror, mas a Humanidade não aprende!

    Abraço

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    1. E... não sei se deste conta... ninguém (jornais e televiSõeS) falou desta data, nem de taiS horrores...

      Abraço entristecido

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  4. Marie Luise Kaschnitz utiliza esta composição para expor a "banalidade do mal".

    O que lançou a morte sobre Hiroxima

    Entrou no convento, toca ali os sinos.
    O que lançou a morte sobre Hiroxima
    Saltou de uma cadeira para a corda, enforcou-se.
    O que lançou a morte sobre Hiroxima
    Caiu na loucura, afasta fantasmas
    Cem mil, que o atacam todas as noites
    Ressuscitados do pó para ele.
    Nada disto é verdade.
    Ainda há pouco tempo o vi
    No jardim da sua casa, nos arredores da cidade.
    Como ainda eram jovens e as rosas frágeis.
    Isso não cresce tão deprimido que alguém pode se esconder
    Na floresta do esquecimento. Bem visível estava
    A despida casa de província, a jovem mulher
    Que estava ao seu lado num vestido floral,
    A menina pela mão,
    O rapaz que estava sentado nas suas costas
    E brandia o chicote acima da sua cabeça.
    Muito bem reconhecível estava ele próprio,
    De gatas no relvado, o rosto
    Contorcido de arroz, porque o fotógrafo
    Estava atrás da sebe, o olho do mundo.

    Aviso-te 📌 Rogério, para não resmungares com este meu comentário‼️

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  5. Compreendo os traumas...
    Quanto a resmungar..
    Nem pensar!
    E... a leitura do Avante é um mero cuidado para que não apaguem a memória e entendam os tempos que vamos vivendo

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