10 novembro, 2010

A consciência do tempo

Nunca utilizo palavras minhas sempre que descubro alguém que dizendo o mesmo que eu quero dizer o faz bem melhor do que eu. Por isso transcrevo partes do que o BB escreveu hoje na sua coluna de opinião, no Diário de Noticias:

"Há semanas que temos vindo a ser submetidos a um processo de intimidação mental e de asfixia social, que largamente ultrapassa os limites do suportável. O fantasma é o FMI, intermitente como todos os fantasmas, a ameaçar-nos de medos maiores do que os medos habituais no viver português (...) O bispo defendeu o espírito de entreajuda (...) São paliativos que nada solucionam e apenas evocam um conceito de caridadezinha, amiúde execrável. A Igreja tem de ser compelida, e até arrastada, pelo movimento das ideias, a encorajar o protesto generalizado e a indignação colectiva. Não deve quedar-se, através de murmúrios compassivos, pela solidariedade inócua com o sofrimento. O essencial está em causa. A boa vontade não chega. É outra expressão do quietismo, a forma mais sórdida de cumplicidade, e outro modo de disciplina férrea, com que as classes dominantes impõem as suas leis e regras. Reformar quê? Quando, na realidade, estamos a falar do demoníaco, contido numa ideologia que introduziu, como modelo de sociedade, a resignação e o aviltamento progressivo da condição humana. O campo da nossa batalha não é a procura do eterno: é a consciência do nosso tempo."

09 novembro, 2010

Chico Buarque premiado, dando-me conselhos, lendo-me um bocado...

Dos quatro livros que Chico Buarque escreveu, dois recomendo eu. O último, o agora premiado, deu para ele conceder uma entrevista onde tenho coisas a aprender, como aprendiz de escritor com ambição. Acho até que nesta passagem ele me estaria a dar conselhos. Passo essa parte:

Escreveu este romance sequencialmente? Quando se sentou para escrever o livro começou do princípio ao fim?

Sim. Já tinha algumas coisas esboçadas aqui e ali. Pouca coisa. Quando eu julguei que tinha o livro, que tinha história boa, a história que me interessava à mão, comecei a escrever do princípio e fui até ao fim. Evidentemente, uma outra vez, mas pouco, retornei a trechos anteriores por causa de acontecimentos que sucediam ali adiante. Fui obrigado a retocar algumas coisas mas isso foi muito pouco. Na verdade, ele foi acontecendo de cabo a rabo. Geralmente o que acontecia antes é que provocava [risos], é que tinha consequências ali adiante. Uma ou outra vez confesso que não. Alguma coisa que me interessava que acontecesse ali adiante, precisava que eu alterasse uma coisinha ou outra que já estava escrita. Mas de modo geral foi escrito do começo ao fim, na ordem que está no livro.

Sempre que recomeçava a escrita deste romance, lia o que já tinha escrito para trás. Lia alto, lia só para si?

Não cheguei a ler alto, não. Mas era como se lesse alto. Eu só me satisfazia com a escrita quando ela soava bem. Mas para soar bem, não preciso falar alto. Me soa bem um pouco como uma música dentro da cabeça. Quando digo música, digo música de propósito porque tem a ver. Acho que é evidente. Quem sabe que sou músico, que trabalho com música, ou mesmo talvez para quem não soubesse, daria para se perceber que esse autor mexe com música. É um autor que tem um ouvido musical. Agora eu, para pensar numa música, não preciso necessariamente de cantá-la. Dentro da minha cabeça tenho a melodia. E a melodia de cada frase do livro tinha que soar bem dentro da minha cabeça. Não me aconteceu de falar alto para ver se soava bem, não foi necessário. Há uma cadência, um ritmo dentro de cada frase que obedece a um critério musical. Isso já disse em relação a outros livros meus e é facto.
Isabel Coutinho entrevista Chico Buarque sobre "Leite Derramado"

O próprio autor lendo "Leite Derramado", depois de publicado

08 novembro, 2010

Formas "superiores" de condicionar a liberdade de imprensa...

A propósito do meu post "Os desafios pessoais de Dilma", onde me interrogava se Dilma sobreviverá ao poder da imprensa brasileira, recebi vários comentários. Destaco, o de Salete Catae: "Espero sinceramente que a Dilma faça um bom governo e que fortaleça ainda mais a democracia do meu país. Deixem a imprensa fazer o papel dela! Há coisas ruins sim(...)mas não quero ver acontecer com meu país o que anda acontecendo na Venezuela, onde o governo fecha os meios de comunicação por medo de posições contrárias ao dele ...".
Em Portugal, a imprensa faz o seu papel. Tem aqui um exemplo. Contudo, este exemplo não explica as coisas.
Não explica que o papel da imprensa é cada vez mais o que os poderes económicos determinam que seja. A petição aí ao lado, é chover no molhado (mas, pelo sim pelo não, pode lá ir assinar "Petição Pelo Pluralismo de Opinião"). Não querendo comentar realidades que não conheço, trago aqui uma inquietação sobre a ameaça que paira sobre um dos jornais europeus de reconhecida isenção. Faço meras transcrições de noticias. A análise é vossa, se estiverem para aí virados:

"O grupo espanhol Prisa, proprietário do El País e também da portuguesa TVI, quer aumentar a sua influência no grupo editorial do jornal francês Le Monde, em que tem uma participação de 15%. De acordo com a edição de ontem do matutino Libération, a Prisa está a negociar um aumento da sua participação para obter direito de veto na designação da estrutura directiva da Redacção."
Ver noticia completa no DN

"A disputa pelo controlo do diário parisiense "Le Monde" assumiu um notório cunho político com a intromissão de Nicolas Sarkozy que, uma vez mais, revela a visão manipuladora e controleira que muitos políticos têm da imprensa."
Ver notícia completa no Jornal de Negócios

Em ambas as noticias o que está em causa é a continuidade da nomeação do presidente da empresa e do director do jornal que são actualmente prerrogativas dos trabalhadores que detêm a maioria do capital na holding Le Monde Partenaires et Associés, senhora de 60,40 % do capital da sociedade anónima Le Monde.

Outro prémio. Prémio em duplicado, compromisso redobrado...


Outro prémio. Prémio em duplicado, compromisso redobrado com a qualidade dos meus posts e dos comentários que vou deixando por aí. A minha querida amiga Ariel, do blogue cirandado, reforça assim a cadeia de afectos e reconhecimentos.
Agradeço-lhe e gostaria de voltar a premiar todos os que acompanho pois é incontestável que é a sua presença , os seus comentários , a sua participação, a seiva indispensável à manutenção deste espaço.
Assim, partilho mais este prémio convosco .