06 dezembro, 2010

Caminhos do Meu Navegar, agora noutro lugar...

Três razões me levaram a mudar a escrita do meu livro virtual para outro lugar:

- Este espaço precisa de retornar aos objectivos para que foi criado, dentro dos principios que enunciei para aquilo que considero acção cívica

- O livro carece de informação adicional e que não quero integrar no texto. Este espaço já não tem condições para alojar mais informações

- Algumas passagens do "... Meu Navegar" poderão suscitar interesse de professores e outros educadores pelo que achei dever isolar o texto do livro de outros conteúdos menos apropriados

PASSAR A LER O MEU LIVRO NO MEU NOVO BLOGUE "CAMINHOS DO MEU NAVEGAR"

05 dezembro, 2010

Homilias dominicais (citando Saramago) - 18



Se virem, no vosso espaço, uma passarola mesmo que estilizada, que tal não vos embarasse. Ela é verdadeira. É ela que me leva onde o sonho perseguido merece ser levado. Mesmo que as palavras que vos deixo possam soar amargas escutem-nas pois elas se inspiram na esperança e nas reflexões de um homem bom...

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HOMILIA DE HOJE

A pior das mortes - Um país como Portugal, e não é o único nesta situação, que não tem uma ideia própria de futuro para toda a colectividade, vive numa situação de total dependência. Não temos mais ideias para além das que nos dizem que devemos ter. A União Europeia dita-nos o que devemos fazer em todas as ordens da vida. Encaminhamo-nos para a pior das mortes: a morte por falta de vontade, por abdicação. Esta renúncia é também a morte da cultura. Por isso creio que um país morto, como Portugal, não pode fazer uma cultura viva.
“José Saramago: ‘El mundo se está quedando ciego”, La Verdad, Murcia, 15 de Março de 1994

Globalizar o pão - Se amanhã me disserem que vão globalizar o pão não encontrareis globalizador mais entusiasta que eu. E se me disserem – e fazem-no – que vão globalizar tudo quanto milhares de milhões de seres humanos estão necessitando para viver dignamente, então asseguro-vos que me vereis convertido num seu fanático. Mas a globalização está a acrescentar miséria à miséria, fome à fome, exploração à exploração.
José Saramago, “Soy un relativista”, Vistazo, Guayaquil, 19 de Fevereiro de 2004

03 dezembro, 2010

Caminhos do Meu Navegar (6)

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Cap II - Por terras de Angola (cont.)

Um curandeiro eficaz


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21 – Um lugar para cada coisa, cada coisa em seu lugar – Amanhecera com o sol anémico do dia anterior. Encaminhei-me para a enfermaria. A companhia dos veteranos tinha partido com o raiar da primeira claridade do dia e era muito cedo. Resolvi ir fazer os meus arrumos nas prateleiras da farmácia e pôr as coisas a meu gosto no posto médico, onde existia uma maca, um armário clínico, um quadro de ardósia, umas quantas cadeiras e a secretária. Tudo num branco já amarelado pela “patina” do tempo. Tinha pouco para arrumar e parecia ridículo procurar flores para enfeitar o ambiente. Lá fora não havia flores e estas são são recomendáveis para um ambiente que se pretende asséptico. Limitei-me a afixar nas paredes algumas páginas de um atlas do corpo humano que tinha comprado em Lisboa do qual escolhi páginas sobre procedimentos básicos de primeiros socorros, cuidados a ter para prevenir as infecções hospitalares, reposição de luxações, garrotes e outras que, por bem ilustradas, cumpriam com o objectivo de decorar e fornecer informação adequada e eventualmente de consulta útil. Arrumei respeitosamente o estetoscópio em cima da secretária ao lado de um calendário do ano passado e por cima do livro com os dizeres “Registo diário de doentes”. Só então reparei no livro, que abri. Tinha, por linha escrita à mão, a data, o nome, indicações que pareciam indecifráveis, dizeres de diagnóstico e por fim a medicação prescrita. Foram necessários vários minutos não para reconhecer o livro, pois ele é igual a todos os que tinha visto nos hospitais militares, mas para interiorizar que a partir dessa manhã seria eu o responsável pelo seu uso. O Meu Contrário, bem acordado, dizia-me perante o silêncio da Minha Alma estremunhada: “Rogério, não te preocupes demasiado pois tens na mão o receituário, basta que acertes no diagnóstico”. Tremi, para logo Minha Alma me sossegar: “Lembra-te do que o outro te disse, pede evacuação a qualquer caso mais complicado”. Depois de ter percebido a lógica da arrumação dos medicamentos fui-me ao armário clínico e continuei a tarefa agora do material de pequena cirurgia imaginando o seu uso e a minha falta de aptidão para o acto…
22 – “Furrié dotor, esminino tem muntu quente nus cabeça e dói os corpo todo” – Estava a separar as lâminas dos bisturis, as boas das que me pareciam ser de não usar, quando o António, um dos pretos contratados como guia e tradutor, assomou à porta interrompendo “Furrié dotor dá co lecensa?” mas não a esperou e foi dizendo com ar aparentemente desesperado “Furrié dotor, esminino tem muntu quente nus cabeça e dói us corpo todo”. Enquanto dizia estas cantantes palavras, uma mulher de olhos tímidos e cara de sofrimento alheio , sendo que tal alheio lhe preenchia o colo. Era um menino com a cara de todos os meninos só que com os olhos mortiços e a respiração muito entrecortada. Seu peito arfava. Minha Alma afastou-se deste grupo e Meu Contrário disse-me com voz que me deu confiança: “Rogério, tu sabes tratar desta criança. Basta que te lembres do que a Teresa fez à tua João naquela valente constipação”. Estava convencido que esta situação era mais grave mas o Meu Contrário tinha acabado de depositar em mim grande confiança. Disse ao António para perguntar à mulher há quanto tempo estava a criança assim, se tinha vomitado, se tinha diarreia ou arrepios de frio enquanto eu próprio ia colocando o termómetro e fazendo todos os possíveis para mostrar segurança na voz e nos gestos. “Furrié dotor, mulher diz que filho num ter vómitadu nem nadas dissu, o qui tem mesmo é munta fevre e dor nus corpo todo. Diz tamem que num tem cágádu”. Vi a febre bem elevada e sempre dando mostras de segurança, parti um LM (*) em quatro. Enchi de anti-tussico meio de um outro frasco. Expliquei as tomas. De seguida passei uma compressa pela torneira e estendi a compressa molhada indicando a testa do miúdo, gesto que a mãe compreendeu. Pedi ao António para explicar à mulher que quando chegasse à sanzala repetisse esses pachos de água fria e à noite também. Dispensei recomendação para o agasalhar bem pois vinha bem enroupado. “Volta depois de amanhã” disse como despedida, que foi compreendida com a ajuda do António, admirado por tal pedido, pois era normal fazer-se àquela gente. A mulher ergueu-se mas entretanto, lembrando-me do que faltava, fiz-lhe um gesto de espera. Peguei numa pequena colher e entrei no espaço onde estavam os medicamentos, procurando qualquer coisa que servisse para libertar aquele miúdo sabe-se lá se de lombrigas ou ténias. Levei um tempo infinito na procura mas fui bem sucedido. Dei-lhe uma única colher, mal cheia… E pelo seu ar percebi que seria doce como doce era o seu olhar… Fora estava um velho que esperava. Tratei-o da coceira sarnosa já não me recordo com que unguento…
23 – “apto para todo o serviço” – Tinha de memória palavras que não sabia serem as exactas, como resultado da minha inspecção prévia ao ingresso no serviço militar: “Apto para todo o serviço”. Seria? Olhei para o estetoscópio e percorri as imagens que havia colocado na parede. Tomei uma decisão: ultrapassar-me. Foi assim que fiquei por ali a estudar o registo de doentes para perceber o que fora ministrado de forma igual para diagnósticos diferentes e dessa arrevesada maneira tentar entender o campo de aplicação de cada fármaco. Li e reli horas a fio, com a Minha Alma quieta e o Meu Contrário calado. Ambos estavam do meu lado…
24 – “só apareceu o António” – No dia seguinte, lá fui para a minha tarefa de curandeiro mal formado. Esperei por quem aparecesse. O cabo maqueiro também apareceu e ficou por ali limpado o pó, varrendo o chão e fervendo seringas e agulhas. O tempo passava e ninguém chegava. Por fim chegou um sorridente António. “Furrié, esmino já brinca um bucado. Cagou tanto bicho que mulhé chamou todo o kimbo pra vê”. Sorri também, contei ao cabo o sucedido na véspera e fui emendar o registo. Risquei “pneumonia” e escrevi “constipação”, sem estar bem certo do termo mais adequado ou se a emenda se justificava...
CONTINUA 2ª FEIRA
(*) LM, Laboratório Militar, todos os medicamentos fabricados neste laboratório tinham a marca LM. Neste caso, tratava-se de um sucedâneo da Aspirina.

01 dezembro, 2010

Caminhos do Meu Navegar - (5)

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Cap II - Por terras de Angola (cont.)

Tantos dias sem Maria do Sol, nem Senhora do Mar




16 – Uma grande confusão – Passada a euforia da chegada, passou-se a outra euforia, a do render da guarda com a rotação das companhias, onde a minha companhia (maçaricos) substituía a que lá estava (velhinhos). As duas unidades militares, a minha acabada de chegar e a que ali estava, prestes a partir, duplicavam a população do aquartelamento dimensionado em cozinha, refeitório, casernas e latrinas, para cerca de 130 homens e ali se alojaram, durante cerca de 5 dias quase o dobro e as suas almas. Se a razão de cada um ocupasse lugar seriam ainda mais, mas a consciência deles e a minha não estiveram presentes nesses dias de espólio de coisas e de emoções. Aos soldados, cujas competências não se esperava ser de utilização necessária, nada mais restava do que cumprir a escala de sentinela, ir buscar água a uma nascente tão perto que dispensava escolta e outras pequenas tarefas. As almas dos que iam regressar ao “puto”, tinham por ocupação permanente fazer longas descrições do que ali passaram, contar piadas e desenrolar todo o anedotário acumulado ao longo de quase dois anos. As almas que iam ficar ouviam. Umas faziam-no interessadamente, outras não escutavam o quer que fosse, mas postavam-se embriagadas ou apenas embevecidas pela felicidade daqueles, tantos, que iriam poder regressar com vida…
17 – Colocados num corredor de infiltração. Na frente de guerra, não – O nosso comando (capitão, sargentos e alferes) recebia do outro todos os pormenores de carácter militar e operacional a que estiveram sujeitos. Terão descrito como a guerrilha tinha evoluído na zona, agora apaziguada e como vinha o efectivo militar a ser solicitado para outras zonas onde a guerrilha tinha crescido em ataques e flagelações. E porque os segredos militares, se existiam era para serem contados, depressa todos souberam que, na zona, os guerrilheiros limitavam-se a aliciar as populações e a atravessar a fronteira de Angola para o Congo e do Congo para ela, na faixa que ia de não sei onde até Maquela, ou até mesmo para além dela… A guerrilha não iria chatear mesmo que nós chateássemos a guerrilha, pois uma coisa era para eles importante: manter um corredor de passagem para abastecimento, munições e reforço das suas hostes. Ali não corriamos grande perigo...
18 – Matámos os últimos daquela espécie? – O furriel vagomestre, encarregue de assegurar a alimentação do efectivo militar que ia ficar, pegou na listagem e conferiu os pratos, copos, tachos, talheres, panelas, cafeteiras. Tudo conforme. Seguiram-se os géneros: massa, arroz, feijão grão, batatas, atum, outros enlatados e muitas outras mercearias. Tudo conforme. Por fim os frescos e o vinho, medidos a olho. Parecia estar mais do que devia, sem sobrar, pois nessa noite seria reforçada a ceia e talvez até o jantar. Tudo parecia pronto e cumprido. Mas não. Faltava transmitir conhecimento das zonas e locais de caça à pacaça. Na madrugada do dia seguinte saíram dois unimogs com voluntários sorteados, pois os que se ofereciam para um primeiro safari eram bem mais do que o máximo autorizado e o sorteio veio resolver quem seriam os eleitos. Foram e regressaram 4 horas depois com dois animais e um acto heróico para contar. A maior pacaça tinha sido abatida com tiro à queima-roupa, depois de ferida, pelo alferes Sanches. Como todos os actos heróicos esta bravura fora cometida na mais ingénua ignorância, mas o feito correu por todas as sanzalas em redor e todos ficaram a admirar o feito. Mesmo aqueles pretos, e eram muitos, os que privados de eles próprios caçarem e de montarem as armadilhas para acederem periodicamente a uma refeição de carne, elogiavam o feito e passaram a ter-lhe um enorme respeito. Claro que o respeito se devia à frieza e ao uso da arma, não à forma em que se expressava a sua alma. Fica como memória que aqueles dois animais foram os únicos a deixarem-se abater. A região estava dizimada e nos locais indicados, mesmo as junto às linhas de água, não havia nada…
19 – Também eu rendi, com a Minha Alma por perto – De manhã, o furriel enfermeiro (velhinho) veio-me chamar, apressado em desenvencilhar-se de tudo o que tinha pesado sobre os seus ombros durante a comissão militar que terminaria dias depois. Segui-o até à enfermaria e pouco depois juntar-se-iam todos os cabos maqueiros, para ajudar na contagem de instrumentos e material de consumo, medicamentos, xaropes e soros. A contagem levou toda a manhã e parte da tarde. “Pronto, já está. Assina aí a guia!”. Assinei. E de pronto passou ele aos lamentos: “É pá, de inicio o médico vinha cá duas vezes por semana. Depois passou a vir só às 5ªs feiras e desde Março que não põe cá os pés” e depressa passou aos conselhos: “Mas tu não terás muito que fazer. Num caso mais bicudo evacuas para Maquela”. Abanei com a cabeça, inexpressivamente mas Minha Alma não se conteve: “Foi duro isto?” perguntou ela usando a minha fala. “Só será duro se quiseres. Se ligares a essa gente que aparece por aí “ disse referindo-se à população preta das sanzalas em redor “…e se lhe deres muita confiança, tens trabalho de sobra. Eu de inicio embarquei, mas depois cortei pela raiz pois estávamos convencidos que grande parte dos casos era pretexto para virem buscar remédios ao “tugas” e dá-los aos “turras”. Se queres um conselho, nunca dês doses para levar. Se for necessário, que venham aqui fazer as tomas…”. Voltei a abanar a cabeça. Minha Alma interrogava-se “Como caminhar 3 ou 6 quilómetros para cada lado apenas para uma colher de xarope, um comprimido ou uma pequena fricção?”…
20 – Tantos dias sem Maria do Sol nem Senhora do Mar – Terminada a rotação das companhias e formalizada a rendição, fez-se uma calma imensa. Também tensa. Tensa e fria. A estação do cacimbo determinava, para aquela região, um frio húmido e dias cinzentos com pequenos rasgos de um sol fraco, anémico. A ausência de chuva escondia-me a Senhora do Mar. Os fins de tarde não tiveram a luminosidade que tivera à nossa chegada. A Maria do Sol não aparecia a anunciar o sol do outro dia. Em redor, o arame farpado impunha a sua também fria e ambígua imposição. Serviria ele para impedir a invasão do inimigo ou evitar a fuga das nossas almas?