29 novembro, 2010

"Caminhos do Meu Navegar" (4)

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Cap II - Por terras de Angola

Afinal o destino estava para além de Maquela(*)




13 – Maquela do ZomboChegámos. A coluna militar atravessou lentamente a vila. A viagem durara pouco mais que 7 horas até ai chegar e dirigiu-se ao quartel, sede do batalhão, passando por entre sorrisos e acenos da população que apareceu nas ruas da vila. Minha Alma respondia, eu não. Pessoas brancas trajando civilmente e alguns militares distribuíam-se pelas entradas de edifícios cujo uso não residencial se percebia pela fachada e pelos anúncios pintados, uns nas frontarias outros em tabuletas improvisadas. Muitas mulheres pretas coloriam as ruas vestidas de cores garridas, parecendo terem sido postas ali com a missão de nos receber com uma alegria obrigada ou postiça. Minha Alma surpreendia-se, eu não. O casario de piso térreo e os arruamentos, cuja disposição não descortinei, engalanavam-se de verde em contraste com os tons levemente avermelhados da terra, lembrando a terra sena (ou terra de siena?), cor dominante das picadas que nos conduziram até lá. Palmeiras e mangueiras dispunham-se ordenadas para dar um ar mais gracioso àquela paisagem quase urbana. Minha Alma gabava aquela beleza meio inóspita, eu permanecia calado. Todos os nossos olhos, até os do Meu Contrário, pousaram no estabelecimento Socosol e logo a seguir, muito perto, no Bar Zombo, onde uma pequena multidão também acenou. Aí não resisti e fui acenando também à medida que me dava conta de que a verdadeira festa à nossa chegada pertencia à criançada. Às dezenas e meio vestidas, as crianças corriam ao lado da coluna, perante o ar meio receoso das mulheres, pois a proximidade das viaturas certamente as fazia temer pela sua segurança. O Meu Contrário, sempre tão racional, não sabia explicar como uma encenação assim podia incutir a tranquilidade que Minha Alma sentia. Nenhum de nós encontrou explicação para o sentimento de insegurança que Minha Alma detectou naquela gente. Os zombos pareciam mais receosos do que nós, recém-chegados. Talvez que nós, sem referencias prévias, estivéssemos à espera de sermos recebidos a tiro ou à catanada. Mas não. Apesar de um histórico de rebelião(*), os zombos mostravam-se pacíficos e, assim, não foi nada disso que aconteceu. Gostei de Maquela mas não iríamos ficar nela, para desespero da Minha Alma e a aparente indiferença do Meu Contrário…
14 – Mais pó da picada – Após uma curta paragem, a coluna prosseguiu viagem, agora já sem os carros civis que traziam mantimentos para toda a população. À saída de Maquela, uma placa indicava vários destinos em duas direcções. Seguimos a que referia a fronteira com o Congo, direitos à Kimbata. Poucos não sabiam que o destino final era a Fazenda Costa, a cerca de 35 km de Maquela, antiga roça de café, que a guerra se encarregara de transformar em acampamento militar. Era onde iríamos ficar. Pelo caminho, passámos por 3 sanzalas e muitos grupos de negros deslocando-se, recolhendo de um dia de trabalho nas lavras, seu único meio de sustento. À nossa aproximação embrenhavam-se capim dentro, prosseguindo a uns 15 ou 20 metros. Minha Alma interrogou-me mas só muitos dias depois, quando soube, lhe disse que era costume, em tempos idos, os veículos militares irromperem em sua direcção, passando por cima dos menos lestos e desprevenidos. Minha Alma nem queria acreditar. O Meu Contrário, não aceitou tal explicação e disse, ainda que pouco convictamente: “Fogem do pó da picada, não da maldade dos homens”…
15 – “Olha a nossa salvação!” – Passado um declive muito acentuado, a coluna subiu uma ravina pouco inclinada mas longa e avistou o aquartelamento. Logo a seguir, mais de uma centena se soldados vieram ao nosso encontro gritando coisas diversas. Fixei apenas uma exclamação: “Olha a nossa salvação!”. E éramos. Vínhamos render aquela gente e por isso estavam tão felizes. No céu, para onde olhei inadvertidamente, talvez para perceber de que lado estava Deus, se com a satisfação dos que iam regressar se com a tristeza dos que acabavam de chegar, apenas vi uma tonalidade avermelhada e calma do sol a partir. Era uma tonalidade tão bela que só poderia ser obra de mulher a afastar o sol no horizonte. Chamei àquela luminusidade serena, Maria do Sol e ela antes de a estrelada noite aparecer, pareceu-me ter dito “Rogério, amanhã ele voltará, para te alegrar a Alma”…
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(*) Este sub-capitulo é exclusivamente dedicado a contextualização geográfica do meu caminho pelo norte de Angola, os personagens passaram aqui para segundo plano. Retomarão já a seguir o papel que lhes reservei neste meu caminhar.

(**) Tivesse este livro preocupações históricas e eu não deixaria de citar o trabalho "Os Zombo na Tradição, na Colónia e na Independência", do Professor Doutor José Carlos de Oliveira, publicado na "Revista Militar" e a que podem aceder aqui: (I Parte); (II Parte); (III Parte)