03 dezembro, 2010

Caminhos do Meu Navegar (6)

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Cap II - Por terras de Angola (cont.)

Um curandeiro eficaz


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21 – Um lugar para cada coisa, cada coisa em seu lugar – Amanhecera com o sol anémico do dia anterior. Encaminhei-me para a enfermaria. A companhia dos veteranos tinha partido com o raiar da primeira claridade do dia e era muito cedo. Resolvi ir fazer os meus arrumos nas prateleiras da farmácia e pôr as coisas a meu gosto no posto médico, onde existia uma maca, um armário clínico, um quadro de ardósia, umas quantas cadeiras e a secretária. Tudo num branco já amarelado pela “patina” do tempo. Tinha pouco para arrumar e parecia ridículo procurar flores para enfeitar o ambiente. Lá fora não havia flores e estas são são recomendáveis para um ambiente que se pretende asséptico. Limitei-me a afixar nas paredes algumas páginas de um atlas do corpo humano que tinha comprado em Lisboa do qual escolhi páginas sobre procedimentos básicos de primeiros socorros, cuidados a ter para prevenir as infecções hospitalares, reposição de luxações, garrotes e outras que, por bem ilustradas, cumpriam com o objectivo de decorar e fornecer informação adequada e eventualmente de consulta útil. Arrumei respeitosamente o estetoscópio em cima da secretária ao lado de um calendário do ano passado e por cima do livro com os dizeres “Registo diário de doentes”. Só então reparei no livro, que abri. Tinha, por linha escrita à mão, a data, o nome, indicações que pareciam indecifráveis, dizeres de diagnóstico e por fim a medicação prescrita. Foram necessários vários minutos não para reconhecer o livro, pois ele é igual a todos os que tinha visto nos hospitais militares, mas para interiorizar que a partir dessa manhã seria eu o responsável pelo seu uso. O Meu Contrário, bem acordado, dizia-me perante o silêncio da Minha Alma estremunhada: “Rogério, não te preocupes demasiado pois tens na mão o receituário, basta que acertes no diagnóstico”. Tremi, para logo Minha Alma me sossegar: “Lembra-te do que o outro te disse, pede evacuação a qualquer caso mais complicado”. Depois de ter percebido a lógica da arrumação dos medicamentos fui-me ao armário clínico e continuei a tarefa agora do material de pequena cirurgia imaginando o seu uso e a minha falta de aptidão para o acto…
22 – “Furrié dotor, esminino tem muntu quente nus cabeça e dói os corpo todo” – Estava a separar as lâminas dos bisturis, as boas das que me pareciam ser de não usar, quando o António, um dos pretos contratados como guia e tradutor, assomou à porta interrompendo “Furrié dotor dá co lecensa?” mas não a esperou e foi dizendo com ar aparentemente desesperado “Furrié dotor, esminino tem muntu quente nus cabeça e dói us corpo todo”. Enquanto dizia estas cantantes palavras, uma mulher de olhos tímidos e cara de sofrimento alheio , sendo que tal alheio lhe preenchia o colo. Era um menino com a cara de todos os meninos só que com os olhos mortiços e a respiração muito entrecortada. Seu peito arfava. Minha Alma afastou-se deste grupo e Meu Contrário disse-me com voz que me deu confiança: “Rogério, tu sabes tratar desta criança. Basta que te lembres do que a Teresa fez à tua João naquela valente constipação”. Estava convencido que esta situação era mais grave mas o Meu Contrário tinha acabado de depositar em mim grande confiança. Disse ao António para perguntar à mulher há quanto tempo estava a criança assim, se tinha vomitado, se tinha diarreia ou arrepios de frio enquanto eu próprio ia colocando o termómetro e fazendo todos os possíveis para mostrar segurança na voz e nos gestos. “Furrié dotor, mulher diz que filho num ter vómitadu nem nadas dissu, o qui tem mesmo é munta fevre e dor nus corpo todo. Diz tamem que num tem cágádu”. Vi a febre bem elevada e sempre dando mostras de segurança, parti um LM (*) em quatro. Enchi de anti-tussico meio de um outro frasco. Expliquei as tomas. De seguida passei uma compressa pela torneira e estendi a compressa molhada indicando a testa do miúdo, gesto que a mãe compreendeu. Pedi ao António para explicar à mulher que quando chegasse à sanzala repetisse esses pachos de água fria e à noite também. Dispensei recomendação para o agasalhar bem pois vinha bem enroupado. “Volta depois de amanhã” disse como despedida, que foi compreendida com a ajuda do António, admirado por tal pedido, pois era normal fazer-se àquela gente. A mulher ergueu-se mas entretanto, lembrando-me do que faltava, fiz-lhe um gesto de espera. Peguei numa pequena colher e entrei no espaço onde estavam os medicamentos, procurando qualquer coisa que servisse para libertar aquele miúdo sabe-se lá se de lombrigas ou ténias. Levei um tempo infinito na procura mas fui bem sucedido. Dei-lhe uma única colher, mal cheia… E pelo seu ar percebi que seria doce como doce era o seu olhar… Fora estava um velho que esperava. Tratei-o da coceira sarnosa já não me recordo com que unguento…
23 – “apto para todo o serviço” – Tinha de memória palavras que não sabia serem as exactas, como resultado da minha inspecção prévia ao ingresso no serviço militar: “Apto para todo o serviço”. Seria? Olhei para o estetoscópio e percorri as imagens que havia colocado na parede. Tomei uma decisão: ultrapassar-me. Foi assim que fiquei por ali a estudar o registo de doentes para perceber o que fora ministrado de forma igual para diagnósticos diferentes e dessa arrevesada maneira tentar entender o campo de aplicação de cada fármaco. Li e reli horas a fio, com a Minha Alma quieta e o Meu Contrário calado. Ambos estavam do meu lado…
24 – “só apareceu o António” – No dia seguinte, lá fui para a minha tarefa de curandeiro mal formado. Esperei por quem aparecesse. O cabo maqueiro também apareceu e ficou por ali limpado o pó, varrendo o chão e fervendo seringas e agulhas. O tempo passava e ninguém chegava. Por fim chegou um sorridente António. “Furrié, esmino já brinca um bucado. Cagou tanto bicho que mulhé chamou todo o kimbo pra vê”. Sorri também, contei ao cabo o sucedido na véspera e fui emendar o registo. Risquei “pneumonia” e escrevi “constipação”, sem estar bem certo do termo mais adequado ou se a emenda se justificava...
CONTINUA 2ª FEIRA
(*) LM, Laboratório Militar, todos os medicamentos fabricados neste laboratório tinham a marca LM. Neste caso, tratava-se de um sucedâneo da Aspirina.