05 junho, 2013

Poesia (uma por dia) - 41

Tirado a quem deixei o recado de ter tirado
Ó Meus Irmãos Contrários…
Ó meus irmãos contrários que guardais nas vossas pupilas
A noite infusa e o seu horror
Onde vos deixei eu
Com vossas pesadas mãos no azeite preguiçoso
Dos vossos actos antigos
Com tão pouca esperança que’a morte tem razão
Ó meus irmãos perdidos
Eu vou para a vida tenho aparência de homem
Para provar que o mundo é feito à minha medida

E não estou só
Mil imagens de mim multiplicam a luz
Mil olhares semelhantes igualam a carne
É a ave é a criança é a rocha é a planície
Que se misturam a nós
O ouro desata a rir ao ver-se fora do abismo
A água o fogo despem-se por uma única estação
Já não há eclipse na fronte do universo.

Paul Eluard

03 junho, 2013

Os correios e as "barracadas" de alguns autarcas...


Apinhados à porta, fechada, do posto de Caxias os velhos carpiam mágoas. Alguns ficavam-se pelo lamento, outros pela indignação e, outros ainda, pela disposição para fazer nem sabiam bem o quê. O aviso, na porta, era claro quanto ao caricato do acto: a junta da freguesia que está condenada a desaparecer acordara uma solução que não sabe se vai poder cumprir. Por esse país fora, uma instituição que também é marca de soberania vai encolhendo, abandonando terreno. Terreno e despesa. Não apenas com a redução dos custos fixos como também dos variáveis. Isso mesmo, as chafaricas e as juntas para onde vai havendo transferência da missão, sabem mas preferem ignorar, o que se vai passar... e será assim:
Junta de Alvega contra alteração de contrato com os CTT (2012-07-05) -  O presidente da Junta de Freguesia de Alvega, Manuel Leitão (PS), aproveitou a reunião da Assembleia Municipal de Abrantes para dizer que não concorda com a intenção dos CTT em alterar o sistema remuneratório que tem protocolado com a sua autarquia, que gere o posto dos correios local. De acordo com o autarca, os CTT apresentaram, em Maio, uma redução mensal do valor a transferir na ordem dos 154 euros. “Pagamos a luz, a água, os serviços de limpeza e a funcionária pelo que não aceitamos a aplicação do novo sistema de remuneração”, disse Manuel Leitão que disso já deu conta, por escrito, aos CTT...
Há quem reclame alternativas para depois, na prática, as remeter para as urtigas...

02 junho, 2013

Geração sentada, conversando na esplanada - 33 (sobre a Europa)

(Ler conversa anterior) 
Para o rei era fundamental que toda a população, sem excepção, estivesse satisfeita.
Quando apareceu aquele estrangeiro extremamente feliz e com seis dedos em cada mão, o rei ordenou que os médicos do reino implantassem mais um dedo em cada um dos habitantes. E que os médicos fizessem o mesmo uns aos outros. Ninguém invejaria os seis dedos daquele estrangeiro. Assim se fez. Todos ficaram com seis dedos em cada mão.
No ano seguinte chegou outro estrangeiro - com um ar ainda mais feliz - que tinha sete dedos em cada mão.
O rei de novo ordenou que os médicos do reino implantassem mais um dedo em cada um dos habitantes. Assim foi feito.
No ano seguinte um estrangeiro com oito dedos por mão, que não parava de exibir a sua felicidade, provocou nova implantação geral: oitavo dedo.
No ano seguinte: um estrangeiro com nove dedos. E ainda mais feliz.
A mesma operação. Todos os do Reino ficaram com nove dedos em cada mão. Dezoito no total. Foi então que no ano seguinte chegou um estrangeiro com o rosto mais feliz que alguma vez fora visto por ali e com cinco dedos em cada mão. Depois de um momento de hesitação, o rei ordenou aos médicos que cortassem quatro dedos por mão a cada habitante.
Havia um problema, no entanto. Os nove dedos em cada mão dos cirurgiões já não conseguiam operar: os dedos atrapalhavam-se uns aos outros. Já não era possível: teriam de ficar todos com nove dedos em cada mão.
Como o rei não conseguiu dar à população os cinco dedos daquele estrangeiro feliz, rebentou uma revolta, e o rei foi deposto.
Talvez se veja hoje a Europa como aquilo que nos seduziu: primeiro com seis dedos, depois com sete, etc. Agora, há quem já só exija o regresso aos cinco dedos; de novo, por favor, os cinco dedos!
Mas como tal é difícil.
Gonçalo M. Tavares, no DN-Magazine

A esplanada fora invadida por gente a ela estranha. Ninguém conhecido. Ninguém que trocasse olhares cúmplices comigo, me cumprimentasse ou com quem pudesse facilmente meter conversa. Enchi-me de ousadia, desloquei-me à mesa mais próxima e perguntei a um casal que lia um jornal: "por acaso sabem me dizer exactamente o dia em que fomos comidos?" Atónitos com o insólito, não me responderam e regressaram à leitura, ignorando-me. Não tive a coragem de lhes perguntar o nome do rei...

01 junho, 2013

Redacções do Rogérito - 14 (este devia ser o Dia da Vizinha do Quarto Andar)

Tema: "O Dia Mundial da Criança"

Hoje vou escrever como deve ser e dizer que a dona Esmeralda deu-me toda a atenção por ser dia mundial da criança apesar de para ela esta data ser um embuste* mas por muito que lhe custe ela também segue o calendário o que já aconteceu o ano passado  e se alguém disso não estiver lembrado pode ir comprovar com uma redacção quase igual que ainda lá deve estar. 
A dona Esmeralda fez mais uma vez uma coisa muito boa e resolveu dedicar-me uma parte do dia para me dar alegria e falar-me com aquele preceito e jeito com que se fala a gente crescida e eu gosto que ela me fale assim pois quando se continua a falar para um miúdo como se fosse bebé acaba-se por se falar a adultos como se fossem miúdos e é isso que continua a acontecer lá na casa da vizinha do quarto andar ao matulão que já disse ter a idade do Ronaldo e que casou o ano passado mas que o continuam a tratar por Zézinho embora já espere um filho ainda que eu não lhe conheça a mulher pois consta que na minha ausência fez grande desavença e a dita fez nesse dia uma fita que alvoraçou o prédio todo a dizer que o Zézinho era dela mesmo se os dois não tivessem trabalho e que mais valia ir gritar para a rua que a luta continua do que viver às sopas da sogra e também a gritar que não queria o Banco Alimentar e que ela queria era trabalhar em vez de andar a pedinchar.
Cá para mim a haver um dia assim devia era ser dedicado à vizinha do quarto andar para ela ter todos os outros dias para poder pensar que isto tem de mudar e que as crianças deviam ter alegrias todos os dias.

(*) O Dia Mundial da Criança é oficialmente o dia 20 de Novembro, data que a ONU reconhece como Dia Universal das Crianças por ser a data em que foi aprovada a Declaração dos Direitos da Criança. Porém, a data efectiva de comemoração varia de país para país.