22 abril, 2018

Um conto ao Domingo - XII ("A Maior Flor do Mundo")

Ilustração de  Sílvia Mota Lopes Costa
Era uma vez uma menina pequenina, bonita, que já fora ladina e que agora vivia muito triste e já mal brincava.

Nada a entretinha e nada a fazia sorrir, a ela que sempre andara a saltar e a rir. E era muito esperta, muito atenta, a tudo o que se passava à volta dela. E quando parecia que não se passava nada, ela levantava uma pedra. E era vê-la contente e divertida com tanta vida. Eram  minhocas, formigas, bichos de conta sem conta a fazerem-na divertida. Mas depois, não, nada a animava.

Atenta como era, a menina sofria com as coisas más que ouvia e que toda a gente contava. Conhecia poucos lugares, apenas conhecia o seu quintal e a rua ao fundo, mas já sabia todas as tristezas do mundo.

Era essa a tristeza da menina.
Um dia, estava a menina como sempre estava, sentada e sem alegria, quando um pássaro, sem sequer lhe pedir licença, veio pousar-lhe no alto da sua cabeça. A menina sorriu, e cumprimentou:
"Bom dia senhor pássaro!"
O pássaro viu quebrado o encanto que a natureza lhe tinha dado de não permitir falar e respondeu, ainda admirado de o poder fazer:
"Bom dia linda menina, posso saber a razão do teu sofrer?"
E a menina de pronto lhe contou que do mundo só conhecia gente má e a tanta maldade que era feita. O passarinho deixou a cabeça da menina e esvoaçou, suspenso no ar como um beija-flor, olhando a menina de frente falou com entusiasmo e calor:
"Mas sabes? no mundo há boa gente. Há meninos bons, com gestos belos".
E de seguida contou como é que um menino salvou uma flor que estava condenava  à morte, contou tim tim por tim tim como a salvara de tal sorte e como a flor salva, para se tornar exemplo das coisas belas que os humanos fazem, se tornou a maior flor do mundo. À medida que o passarinho contava o rosto da menina se iluminava:

"E eu posso conhecer esse menino e essa flor?"
"Sim, como tu não tens asas eu pouso em cima da tua cabeça e te indico o caminho", disse o passarinho. E lá foram, a menina e o passarinho pousado na sua cabeça e indicando o caminho para conhecer o outro menino que salvou a flor, a maior flor do mundo. 

Depois de saber e de ver, a menina nunca mais entristeceu e todos os dias o passarinho lhe veio cantar ao beiral, baixinho, como que a lembrar que há gestos que salvam vidas, nem que sejam as de uma flor. 

E foram muitas as outras coisas que a menina viu. 
Veja também aqui e sorria, como ela sorriu

DEDICATÓRIA: Porque se trata (mais uma vez) de uma reposição, volto a dedico este pequeno conto a quem o ilustra e nem sabe porque desenha uma menina com um pássaro na cabeça