30 abril, 2018

O que seria, o que seria do cinzel sem a cantaria?

La Maza*

Se eu não acreditasse na loucura
Na garganta do rouxinol
Se eu não acreditasse que no monte
Se esconde o trigo e o medo
Se eu não acreditasse na balança
Na razão do equilíbrio
Se eu não acreditasse no delírio
Se eu não acreditasse na esperança
Se eu não acreditasse no que controlo
Se eu não acreditasse no meu caminho
Se eu não acreditasse no meu som
Se eu não acreditasse no meu silêncio
O que seria, o que seria do cinzel sem a cantaria?
Uma massa feita de cordas e tendões
Uma confusão de carne com madeira
Um instrumento sem melhores pretensões
De pequenas luzes montadas para uma encenação
O que seria, coração, o que seria?
O que seria o que seria do cinzel sem a cantaria?
Um testa-de-ferro do traidor dos aplausos
Um servidor de passado em uma taça nova
Um eternizador de deuses do pôr-do-sol
Júbilo fervido com trapo e lantejoula
O que seria, coração, o que seria?
O que seria o que seria do cinzel sem a cantaria?
O que seria, coração, o que seria?
O que seria o que seria do cinzel sem a cantaria?
Se eu não acreditasse no mais duro
Se eu não acreditasse no desejo
Se eu não acreditasse no que acredito
Se eu não acreditasse em algo puro
Se não acreditasse em cada ferida
Se não acreditasse no que rondei
Se não acreditasse no que esconde
Tornar-se irmão da vida
Se eu não acreditasse em quem me escuta
Se eu não acreditasse no que dói
Se eu não acreditasse no que fica
Se eu não acreditasse no que luta
O que seria, o que seria o que seria do cinzel sem a cantaria?
Uma massa feita de cordas e tendões
Uma confusão de carne com madeira
Um instrumento sem melhores pretenções
De pequenas luzes montadas para uma encenação
O que seria, coração, o que seria?
O que seria o que seria do cinzel sem a cantaria?

Silvio Rodriguez

*traduzi por cinzel, não sei se bem se mal

6 comentários:

Maria João Brito de Sousa disse...

Martelo, cachaporra, maça... cinzel cabe perfeitamente na ideia que o poema faz passar. E eu concordo; o que seria do cinzel sem a cantaria?

Abraço-te de saída. Penso eu, que ainda não recebi o telefonema de confirmação do convite, nem da boleia.

Um feliz e combativo primeiro de Maio!

© Piedade Araújo Sol disse...

Gostei demais da canção...
e da letra
bonito momento este aqui!
boa semana.
beijinhos
:)

Rogerio G. V. Pereira disse...

Nem feliz nem combativo 1º de Maio
Fiquei em casa, constipado

eu já conto

Rogerio G. V. Pereira disse...

"Se eu não acreditasse em quem me escuta
Se eu não acreditasse no que dói
Se eu não acreditasse no que fica
Se eu não acreditasse no que luta"

tens razão, é belo!

Maria João Brito de Sousa disse...

Que melhores rapidamente, Rogério.

Eu também fiquei aqui muito perto, sem cravos, nem pernas para a marcha, em casa de uns vizinhos amigos que fizeram o favor de partilhar comigo o alimento que também lhes vai faltando. Fico a aguardar.

Elvira Carvalho disse...

Gostei muito da canção.
Não conhecia nem o poeta e cantor, muito menos o poema, um hino de fé, esperança, e resistência.
Abraço e as melhoras.