01 abril, 2018

Um conto ao Domingo - IX (Páscoa 1971 - Luanda, num dia de "perfeita e inesperada integração racial.")

"(...) A praia a que chegámos estava pouco menos que apinhada. Páscoa, dia de feriado era uma das causas. A outra, o tempo convidativo, quente, como quase sempre.

Não vou perder tempo descrevendo atitudes normais de quem como nós, afastados meses a fio de lazeres, de corpos desnudados de mulheres, de enleio de olhares e maneios insinuantes, aparentemente convidativos mas, de facto, distantes. Falo da estranheza, comentada entre nós três, de nem um negro se vislumbrar, nem no areal, nem à beira-mar. Lá bem dentro da água calma, sim. A uma distância prudentemente afastada de reprimendas, nadavam e brincavam. Sobre uma barcaça, lancha, ou que fosse que se tinha virado, um grupo se divertia. Subiam ao bojo da embarcação e de lá mergulhavam, uns com estilo, outros a macaquear sabe-se lá que pequenos demónios aquáticos que, na frescura tépida do Atlântico, encontravam omissas vítimas ou sereias que se esgueiravam sem se deixarem apanhar por aquele esbracejar. Faziam-no incansavelmente e durante o tempo que durou o nosso quase igual devaneio, mergulhando e nadando por ali entre ondas e mar de gente da nossa cor.

Longe estava a Senhora do Mar que só serve a navegantes e não a conjunturais veraneantes. Após o banho de mar, o banho de sol. Silenciosos, todo o tempo, até os corpos se enxugarem e um se atrever a lançar assunto, o que aconteceu: «Rico dia», disse o Alma Redonda, para não ser ele a puxar conversa, mas a incentivar a que um de nós o fizesse. Fê-lo o Alma Séria, interrogando-me: «Rogério, que dizes? Não vamos ter isto em Nharea, mas teremos certamente mais sossego que lá no Norte.» Respondi, lembrando-me do que Minha Alma tinha já dito, repetindo a sua ironia: «Nharea? Terra baptizada por preto, só pode ser feia.» Rimo-nos todos e relembrámos tempos há pouco passados, as deslocações ao Quitexe, as emboscadas por que eles passaram, os medos e as mortes. Alma Redonda atalhou assunto, achando o tema do passado totalmente deslocado do prazer de ali se estar. (...) Estávamos assim nesta cavaqueira, quando da praia um grito e um gesto na direcção do mar fez, para aquele sítio apontado, toda a gente olhar: «Tubarão, tubarão, tubarão!»
Alguns gritos e grande confusão. Confusão no areal e lá no barco emborcado, onde o bando de negros tinha estado a saltar. Toda a gente via, sem bem notar, se barbatanas, se caudas, se dorsos, se tudo isso misturado num numeroso cardume de, fosse o que fosse, o certo era ser de grande volume. Os braços negros, freneticamente nadavam. Os braços brancos, da praia, freneticamente chamavam: «Fujam, fujam para aqui»; «venham, venham»; «nadem, nadem.» E nadavam desesperadamente na direcção do areal de onde os gritos, aflitos, se continuavam a ouvir num espectáculo um tanto desproporcionado com a distância a que ficava o tal cardume. Já o primeiro negro chegara ao areal e ainda estava bem longe da barcaça o primeiro dos supostos tubarões. Correu um ou outro branco a amparar um e outro negro, esgotado pelo esforço. Correu também o Alma Redonda também a socorrer, enquanto se ouvia alguém dizer: «Raça canalha. “Turras” do caraças. Pena os tubarões não os paparem a todos.»

Ainda não estava tudo isto dito, quando os peixões começaram a saltar harmoniosamente. Uns em saltos alongados, outros para o ar, parecendo gozar com o sucedido. Sempre me tinham dito que os golfinhos eram inteligentes, mas nunca me disseram que tinham tão sarcástico sentido de humor e tão elevada eficácia em diligências apaziguadoras:

«Faltam em terra golfinhos para continuarem a tarefa de tão perfeita solidariedade e integração racial», sentenciou Minha Alma com o ar mais sério deste mundo…"

11 comentários:

Janita disse...

"...Passaram-se mais alguns minutos até tudo se normalizar: os golfinhos deixaram de se avistar; à barcaça emborcada voltou aquele ou outro grupo de acrobatas nadadores, a praia esvaziou-se de gente negra, ficando a branca: a mulher bela, acompanhada, voltou a pôr em mim o seu insistente olhar para depois o desviar"...

Foi muito bom recordar, Rogério! :-)
Obrigada!

Rogerio G. V. Pereira disse...

Responde Meu Contrário
pois Minha Alma ficou comovida
com teu comentário

"ouvir" ler esta passagem,
e porque o melhor que pode acontecer a quem escreve
é saber que é lido
assumo o compromisso
de regressar à escrita

Obrigado, Janita

Elvira Carvalho disse...

Gostei de recordar, este trecho do seu livro.
Abraço e uma boa semana

Maria João Brito de Sousa disse...

Não tenho o "Almas Que Não Foram Fardadas", mas creio ter já lido este trecho numa das pontuais transcrições que em tempos aqui trouxeste, Rogério.

Foi o parágrafo das muitas mãos que acudiam e amparavam as vítimas do susto que me avivou a memória. Estarei errada? Penso que não.

Abraço.

Larissa Santos disse...

Muito interessante este texto. Sempre bom recordar coisas que nos foram marcantes :))

Hoje:- És o motivo, és a letra, és todo uma canção
Bjos
Boa Segunda - Feira de Páscoa


rosa-branca disse...

Também não tenho o livro amigo, mas ainda o hei-de adquirir. Amei demais o seu texto. É tão bom recordar...o que nos faz bem claro...Boa semana e beijos com carinho

Rogerio G. V. Pereira disse...

Sabia que irias gostar...

Rogerio G. V. Pereira disse...

Não tens o meu livro?
Todo o stock que tinha doei-o à «Desenhando Sonhos» que irá fazer uma campanha de angariação de fundos para a nossa Associação. Dando de 1000 a 1 euro, podes tê-lo

Rogerio G. V. Pereira disse...

Se sou tudo isso
tenho saber o que sou
Sou sobejamente conhecido
mais daqueles com que me dou

Rogerio G. V. Pereira disse...

Também não tem o meu livro?
Como atrás referi, todo o stock que tinha doei-o à «Desenhando Sonhos» que irá fazer uma campanha de angariação de fundos para a nossa Associação. Dando de 1000 a 1 euro, podes tê-lo

Maria João Brito de Sousa disse...

Há muitos anos que estou longe, longe, longe de imaginar poder atingir o "plafond" máximo, mas... o mínimo ainda consigo arranjar, desde que seja no período de uma semana que se segue à recepção dos 186 euros com que tenho de me governar mensalmente, mas não consigo prolongar os passos que autonomamente vou dando para além da ilha do lixo, a uns trinta metros da minha porta. Com grande esforço, muito de quando em quando, ainda alcanço o laboratório, uns metros adiante, na rua Quinta das Palmeiras. Não chego aos desenhadores de sonhos, nem chego ao gabinete (GIP) onde mensalmente poderia entregar a minha baixa médica e que me poderia poupar o pagamento aos CTT da taxa de envio de correio registado com aviso de recepção. Para ir às constantes consultas a que não posso mesmo faltar, tenho de incomodar um amigo que nem sequer mora perto e tem um daqueles horários "malucos" de professor do ensino secundário. Já nem sequer vou ao café da esquina gastar sessenta cêntimos num garoto, a não ser quando um casal amigo me telefona a convidar e assume o gasto. Esqueceste-te desse "pormaior"? Esta semana vai ser complicada para mim e vou ter a visita da assistente social, mas... quando o tempo se firmar e o sol brilhar também para mim, talvez venhamos a poder voltar a encontrar-nos naquele café aonde já não vou sozinha e do qual tanto gostaste. Que me dizes?