06 maio, 2017

A votação de amanhã, em França


Calculo que a confessada ignorância do Papa tenha carga diplomática. Mal lhe ficaria, em conversa informal, deixar cair um "sei lá quem é esse gajo", sabido que seja que, em presença de jornalistas, não há "off the record" que valha quando fala o Papa... Quanto a mim, em vésperas de deslocação a Fátima, o Papa tem Saramago como autor de cabeceira.

Será que terá lido "O Ensaio Sobre a Lucidez"? É que, se não me engano, se fosse francês, o Papa votaria em branco...
«Num país qualquer, num dia chuvoso de votação, poucos eleitores compareceram para votar, durante a manhã. As autoridades eleitorais, preocupadas, chegaram a supor que haveria uma abstenção gigantesca. À tarde, quase no encerramento da votação, centenas de milhares de eleitores compareceram aos locais de votação. Formaram-se filas quilométricas, e tudo pareceu normal. Mas, para desespero das autoridades eleitorais, houve quase setenta por cento de votos em branco. Uma catástrofe. Evidentemente que as instituições, partidos políticos e autoridades, haviam perdido a credibilidade da população. O voto em branco fora uma manifestação inocente, um desabafo, a indignação pelo descalabro praticado por políticos pertencentes aos partidos da direita, da esquerda e do meio. Políticos de partidos diferentes, mas de atuações iguais, usufruindo de privilégios que afrontavam a população. Os eleitores estavam cansados, revoltados.Os governantes, sentindo-se ameaçados, trataram de agir em nome da ordem, perseguindo, prendendo, maltratando, eliminando. Alguns que viveram os horrores da cegueira branca, novamente sofreram. Os governantes, preocupados em salvar a própria pele, em garantir o poder, não perceberam que a cegueira branca de outrora, demonstrativo de que há muito o homem estava cego, tinham paralelo com o voto branco de agora, indicativo de que a população não perdera a lucidez...»
José Saramago, "Ensaio Sobre a Lucidez"
O povo francês terá tal lucidez?