04 agosto, 2010

Ena com ca...torze! (Sim, a Marta já faz 14 anitos)

Ela nem sempre ri, ela sorri
(Com um sorriso como nunca vi)

Ela não ouve, ela escuta com atenção
(Desde que não seja um sermão)

Ela não olha, ela vê com olhos de ver
(Assim, julgo, é que aprende a conhecer)

Ela não está, ela faz-se sentir
(Humilde, como se pedisse licença de existir)

Ela não fala, com os olhos comunica à farta
(Quem muito fala, pouco acerta)
Assim é a Marta,
Assim é a minha... neta!

Um beijinho do avô e um
"Nunca te estragues"

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(Se abrir o link terá que ir ler também os comentários)

03 agosto, 2010

In Memoriam: Mário Bettencourt Resendes


Leio o DN, desde 1990, ano em que o Diário de Lisboa desapareceu. Passar do Diário de Lisboa para o DN não foi fácil, ligava-me àquele vespertino alguns meses de trabalho nos seus quadros, tempo suficiente para me sentir daquela família. Mas lá me habituei e, desde aí, mantive-me fiel à sua leitura. Nem sempre me agradou ler o DN, no seu todo. Dos jornais, de todos, tenho razões para imaginar que será cada vez mais difícil ser-se jornalista.
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A existência deste blogue, a sua génese e os meus objectivos, são a medida dessa reserva e, também, do que penso serem coisas que é preciso mudar na nossa informação e na imprensa escrita em particular. Na morte de Mário Bettencourt Resendes relembro tudo isso.
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Escolho para minha voz, as palavras do próprio DN, de onde retiro não só o texto seguinte, como também o testemunho de um jornalista (que aliás tem sina de ser arrolado por mim, para testemunhar tudo, até este meu acto de blogar).Eis as palavras, que transcrevo do DN, sobre Mário Bettencourt Resendes:

“Em 1986, torna-se, com Helena Marques, director adjunto de Dinis de Abreu, que substituíra Mário Mesquita. Menos de um ano após a privatização do DN, em Março de 1992, passa a director, cargo que iria exercer nos 12 anos seguintes.Atravessa os períodos de controlo da Lusomundo e da PT com a independência possível, tornando-se o primeiro defensor da Redacção quando sucessivas administrações acenam com a sugestão de despedimentos. Evita rupturas e prova os méritos de negociador nato no relançamento do DN. Em meados dos anos 90, o jornal está de novo em alta (em credibilidade e em vendas) e quando passa o testemunho, em 2004, pode orgulhar-se da obra feita.”

Extracto do artigo “A sua herança é um jornal livre e independente”, do DN de hoje

Nesta data, pode também lembrar este meu post de Fevereiro

02 agosto, 2010

Chamaram-lhes namban-jin - I


Sempre que vou lá, fico... como é que eu posso explicar o meu sentir? Intimidado pelo ar solene do ambiente? Fascinado pelas cores e seus exóticos tons ? Acalmado, porque de todas as fúrias e raivas me esqueço e embalo naquele sossego de estar? Pelos suaves sons, quase me impondo a meditação? Um pequeno pouco de tudo isso? Sim, talvez um pouco de tudo eu sinta quando chego ao BANZAI. .

Acho que os portugueses, quando chegaram ao Japão, em 1543, terão tido sensações parecidas e, por isso, são reconhecidos nessas paragens. A história regista que souberam conquistar mais pela dádiva ou pela venda do que pela negociata, mais pela compreensão que pela ocupação. Chamaram-lhes namban-jin, (passando a palavra a ser sinónimo, na História da Arte japonesa, das obras de arte que surgiram após os primeiros contactos entre Japoneses e Europeus sendo que, quando se fala em Europa, é de Portugal que mais se lembram).

A espingarda foi uma das mercadorias levadas, introduzida de modo espontâneo pelos mercadores portugueses, mas o senhor de Tanegashima comprou de imediato duas armas, sem discutir sequer o preço, e ordenou a um dos seus vassalos o estudo do método de fabrico dos arcabuzes. O estudo foi bem sucedido e a fama das armas de fogo espalhou-se de Kyushu a Kyoto. Deste encontro fica ainda a imagem dos japoneses sobre esta "nova" gente, incivilizada e inofensiva, registada em 1606 na Teppo ki, a Crónica da Espingarda:

"Estes homens, bárbaros do Sudeste, são comerciantes. Compreendem até certo ponto a distinção entre superior e inferior, mas não sei se existe entre eles um sistema próprio de etiqueta. Bebem em copo sem o oferecerem aos outros; comem com os dedos, e não com os pauzinhos como nós. Mostram os seus sentimentos sem nenhum rebuço. Não compreendem o significado dos caracteres escritos. São gente que passa a vida errando de aqui para além, sem morada certa, e trocam as coisas que possuem pelas que não têm, mas no fundo são gente que não faz mal".

CONTINUA

(Este é o primeiro de uma série de 3 posts sobre as duas culturas)

01 agosto, 2010

70 anos entre dois acontecimentos. (Ou será que este último não chega a ser um acontecimento?)

ALGARVE - "Guerra da Alfarroba"?
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Quando hoje li no DN as palavras de Jerónimo de Sousa, dizendo que no Algarve o desemprego teria aumentado 38,4% o qual seria o maior do país, fez-se uma luzinha quanto à causa provável do roubo da alfarroba. Há dias, quando soube que tais roubos assumiam proporções alarmantes nunca associei à luz que agora se me apareceu, iluminando-me a mente e dizendo-me: “É a fominha, pá!”.
Inicialmente, quando soube do roubo brinquei, mentalmente, com o facto: “Eh, pá! Um homem não é de pau! Se elas, marotas, dizem: ó alfa, rouba!, porque eu não posso? No que é que o alfa é mais do que eu?”. A ideia de ser a fome a explicar tudo, levou-me a reler a notícia. Aí tive a oportunidade de perceber que se insinua ser coisa de ciganos e que os produtores das mal-chamadas alfarrobas se preparam se organizarem em milícias para se substituírem às autoridades. Ciganos ou Algarvios esfomeados? O Conde de Lippe não fazia distinção, escrevendo no Regulamento Geral do Exército: "algarvios, alentejanos, ciganos e outras gentes de mau porte devem ir para corneteiros"...

ALENTEJO - "GUERRA DO TACO"
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Estas hipóteses de fome e roubos e da má impressão que o tal conde teria dos ciganos e das gentes do sul, também das gentes alentejanas, veio-me á memória acontecimentos que minha mãe me contou, sobre o seu Alentejo. À “guerra da alfarrobas” dos dias de hoje, ligo essa descrição de uma outra guerra, a “guerra do taco” (ou “Tumulto do Taco”, como é chamado num texto que descobri aqui, com as datas de 1940 e 41).
Contava-me a minha mãe, que na altura era conhecida como uma das “meninas da loja nova”, loja que meus avós abriram, nos anos 40, na aldeia de Ermidas Sado:

“Dantes era assim... Sabes filho, a fome era muita e o povo pouco tinha para comer. Na nossa loja, passavam-se dias e dias sem qualquer venda e o que se vendia era fiado. O avozinho, sabes como ele é, incapaz de recusar o quer que fosse àquela boa gente, lá ia aguentando conforme podia. Para agravar, a faina da cortiça nesse ano foi fraca. Os proprietários, ou para fugir à despesa ou para não se darem ao trabalho, não extraíram a cortiça. O povo, pela calada da noite, ia aos montes e apanhava o que podia. Chegaram a estragar sobreiros bons, arrancando-lhe os “tacos”. Olha, foi uma guerra. A GNR de Alvalade (Sado) veio aqui a Ermidas, fazer uma espera e desancou desalmadamente em muitos trabalhadores que eram conhecidos. A revolta generalizou-se com a prisão de mais de 20. Tiveram de vir reforços e até agentes da polícia política, que nesse tempo não se chamava PIDE. Houve muitas, muitas mais prisões e a calma só regressou quanto os agrários deixaram que a cortiça fosse extraída e pagas algumas jornas. Foram tempos terríveis…”

Lembro estas palavras da minha mãe, na sequência de uma carga da GNR a cavalo dispersando uma manifestação popular que aclamava Humberto Delgado, junto ao cemítério do Alto de S. João, teria eu cerca de 14 anos. Como poderia esquecer?

Imagem que consegui na net, num texto histórico, e que documenta o que eu e minha mãe vimos da nossa janela, fazendo-a lembrar a "Guerra do Taco". Esperemos que cenas semelhantes não retornem...