08 junho, 2013

"Saramago? Essa citação não é dele, nem está certa e... nega a própria dialéctica..."


Depois de ter escrito, há muito, um post pouco comentado, frustrado, não aceitei o insucesso e preparei um texto que apresentei hoje publicamente. No texto citei os dois: Álvaro Cunhal e Saramago. Citei-os para alertar para riscos de arrogância, sectarismo e de falta de respeito por quem, tendo uma ideia errada, importa que a tenha certa. A intervenção correu bem e foi ovacionada. Passados momentos, da plateia, que estava "bem composta" mas não cheia, alguém pediu para intervir. Intervir para me corrigir: "Essa citação não é de Saramago, nem é positiva nem está certa e... nega a própria dialéctica..." Pasmei. Mas me interroguei "Será que a minha citação de eleição* é uma invenção?" Mas quanto à frase "negar a dialéctica..." será que quem me interpelou entende que a síntese entre uma tese e um contraditório (antítese) é a supremacia convincente de quem expôs a tese? 

Cheguei a casa, e pesquisei nessa angustiada incerteza de ser um bom saramaguiano, para desfazer o engano. Não há dúvida, e a frase está certificada pela própria fundação... e parece fazer parte do "Cadernos. V2". Fica-me o desgosto por haver quem não entenda nem Saramago, pouco saber de dialéctica e, pior, de estar perante alguém... disposto a colonizar-me publicamente.

*a frase em questão é subtítulo do meu blogue

Vale a pena referir a citação que, na altura fiz, de Álvaro Cunhal
“Se fôssemos dizer: não devemos entender-nos com ninguém que nos ataque, então não nos entendemos com ninguém. Todos nos têm atacado. Portanto é necessário ver que, embora todos nos ataquem, há homens que não são comunistas, que têm preconceitos anticomunistas, mas que podem vir a ter uma posição de cooperação connosco…” Álvaro Cunhal, Marinha Grande – 22.6.1976

Poesia (uma por dia) - 42

Foto da net
Um Eu
Se te olho
A ti
Um Tu
Ali
Eu que te olho
Tu que és olhado
Somos dois
Ah!,
e há tanto... depois

A maior solidão
É um Eu, só
(mesmo que se olhe)
Rogério Pereira 

07 junho, 2013

"Porreiro, pá!", lembram-se?


O Tratado de Lisboa foi uma coisa boa? (já tinha dado a resposta há quase três anos) mas vou contar- vos Uma história: O 3.º sonho de Calvino, aqui lido
"Com o seu sócio está tão envolvido na discussão das percentagens de algo, que não dá pelo que acontece: são engolidos por uma baleia. Dentro do estômago da baleia Calvino continua a discutir percentagens. Percebe, agora, qual o negócio, trata-se da venda de petróleo e de livros. Quem fica com o quê? A discussão está acesa e Calvino empenha-se nela cada vez mais; vira depois as costas ao seu sócio e sai para a rua: observa as pessoas a andarem de um lado para o outro. Os poucos que não estão com pressa, aqueles que param, discutem entre si, percentagens também: 30, não, 37!, não, não, 32! Todos discutem, ele próprio não consegue deixar de repetir, para si próprio: 43%, pelo menos 43%!
Mas ao mesmo tempo existe aquela sensação de que estão todos dentro do estômago da baleia, de que aquelas pessoas que ele vê na cidade, cheios de pressa, de um lado para o outro, a discutir percentagens, e ele próprio, há muito foram comidos.
A sensação, quando se está a discutir o défice dos países, é de que fomos engolidos por algo maior do que nós.
Estranhamente, eu diria, as discussões em redor do défice por vezes fazem-nos pensar em...Deus. (Ou em algo com dimensão semelhante).
Algo que nos tem dentro e que não é uma baleia, mas uma coisa ainda maior e mais importante. 3%, 4%, 3,2%! A discussão dos engolidos continua."