07 novembro, 2010

Homilias dominicais (citando Saramago) - 14


HOMILIA DE HOJE

----------------- Foto retirada daqui
"O escritor deve fazer bem o que faz. O melhor que possa. Mas não deve ficar-se por aí. Não deve esquecer-se que é uma figura pública e está obrigado a intervir."
Tradução do cartaz, da foto
"A pergunta que todos deveríamos fazer-nos é: Que fiz eu se nada mudou? Deveríamos viver mais no dessassossego. Não haverá amanhã se não mudarmos o hoje. Como se conta em A Caverna, tudo o que levamos às costas é passado e todo esse passado, incluindo a desesperança e a desilusão, é o que influencia o amanhã. Há que fazer o trabalho todos os dias com as mãos, a cabeça, a sensibilidade, com tudo."
In José Saramago nas Suas Palavras*

(*) As palavras de Saramago compõe o retrato falado de um escritor que exerceu seu ofício com o profissionalismo de um operário, a pertinácia de um militante político, a consciência de um cidadão e a visão ampla de um verdadeiro intelectual.

06 novembro, 2010

Fala do homem nascido

Folha Seca, um meu querido amigo, comentou no meu post de ontem, que o poema de António Gedeão era um inesquecível referencial de infância. Que tal poema, cujo link eu lembro aqui, lhe havia chegado num caderninho. Que o cantou, não tendo já memória a quem o teria ouvido. Eu lembro-me a quem o ouvi. Adriano Correia de Oliveira. Aqui fica seu canto e parte do poema:

"Minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte;
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.
Quero eu e a Natureza,
que a Natureza sou eu,
e as forças da natureza
nunca ninguém as venceu.

Este cantar faz parte integrante da minha obra "Caminhos do Meu Navegar"

05 novembro, 2010

Caminhos do Meu Navegar - Prefácio

Quando estas palavras passarem à forma mais querida, a de um livro de folhear, daqueles que ocupam espaço, terá uma dedicatória. Neste rascunho, apenas relevo a intenção de o dedicar à Teresa (minha eterna namorada) às minha filhas (João, Sandra e Andreia) e aos meus netos (Marta, Miguel, Duarte, Diogo e à Maria).--

Dedicar-lo-ei ainda a todos os meus leitores que nesta fase decidam comentar estes "manuscritos" semanais. O que acharem por bem dizer, será de algum modo integrado na versão definitiva daquilo que humildemente não rejeito em chamar obra. Seria interessante que eu tivesse a capacidade de diálogo com quem me segue e que o trabalho final pudesse ser um livro colectivo... um livro de quem aceitou navegar pelos meus caminhos ou que me deu os detalhes importantes dos lugares e das gentes. Seus nomes serão registados e seus contributos terão o meu mais profundo reconhecimento.

PREFÁCIO PROVISÓRIO

Escrever o quer que seja, por quem ao longo da sua vida profissional fez da escrita uma narrativa burocrática sob a forma de relatórios, frequentemente destinados ao fundo da gaveta de administradores perdidos na sua incompetência, não será tarefa fácil. Mas como o que custa é o que deus agradece, peguei no desafio. Este prefácio é provisório (o definitivo será a reformulação deste, adequando os seus termos àquilo que a obra final determinar):

ENREDO – “Caminhos do Meu Navegar” não é projecto de um futuro romance, nem será um desfilar de contos, nem de alegorias. Será uma reconstrução de memórias? Será uma sucessão de crónicas e de reflexões? Será uma tese sobre a sobrevivência da alma? Será tudo isso sem trama de personagens urdida em torno de um qualquer fio de história. Estive para lhe dar um subtítulo, “Ensaio sobre o que eu poderia ter sido e feito, se a barca não errasse o destino”. Mas por enquanto não o quero assumir. Até poderei ainda vir a utilizar essa expressão como um título. Fica a incerteza e a intenção. Pode ser que sim, pode ser que não…

OS CAMINHOS – As viagens sobre as quais vou escrever, estão no mapa. São viagens impostas e não escolhidas de entre a oferta turística para destinos de veraneio ou de cultura. São viagens impostas por desígnios que outros consideraram sem me ouvir, replicando-se, assim, a viagem que conduziu à minha própria existência (“eu nem se quer fui ouvido no acto de que nasci”). Não farei reclamações por ter sido introduzido por esses caminhos pois, como parece ter ficado claro, encaro normal no meu passado que me tenham condicionado horizontes. Outra coisa é a forma de navegar. Aí sim, tenho responsabilidades. Sobre como o fiz, o que fiz e o que deixei de fazer. Significa então a minha aceitação por imposições externas na direcção que deve seguir um homem? Sou contrário ao princípio de que cada um deve poder escolher o seu caminho? Claro que não. Mas escrever sobre isso seria escrever sobre a utopia. Não sei se o farei ou se guardarei para outro dia…

OS PERSONAGENS – Escrevi um dia que o ser humano é, como tudo o que é vida, ele próprio (tese) e o seu contrário (antítese). Aquilo que é e vai fazendo resulta desse conflito entre ele e um outro ele (síntese). É esta dialéctica que explica que um poeta pode até ser um ser execrável e hediondo. É essa lei materialista que explica os comportamentos da incoerência entre aquilo que gostaríamos de ser e aquilo que realmente somos, entre aquilo que dizemos e o que fazemos. Entre cada um e o seu contrário existe, assim, um conflito permanente que é moderado por algo muito complexo e que não me atrevo a definir. Chamar-lhe-ei alma, por facilidade de expressão. Não sei se deram conta, mas estes são os personagens permanentes: Eu, o Meu Contrário e a Minha Alma. Estes três personagens terão actores secundários, de entre gente dos três continentes: mouros, pretos, índios, mestiços, falsos brancos, brancos muito atravessados e brancos propriamente ditos, com “pedigree” e tudo. Enfim, todos os que poderiam povoar uma verdadeira "bacia cultural atlântica", para usar uma expressão do inspirador desta minha escrita, José Saramago.

PALAVRAS FINAIS - A escolha das sextas feiras para editar estes textos semanais não é por isto ou por aquilo, é por uma razão muito simples: a primeira das viagens dos “Caminhos do Meu Navegar” foi iniciada em 12 de Julho de 1969, uma sexta-feira.

“Navegar, Navegar, até alunar (destino Angola)" na pág. seguinte