26 setembro, 2011

Pai à distância, sonhando com Maria Montessori...

...uma minha carta (pequenina parte), escrita em 26 de Junho de 1971.
Depois de a escrever, acho que sonhei com Maria Montessori (*)

118– “Pai à distância, sonhando com Maria Montessori” – As cartas para casa, as minhas e a de outros certamente, evitavam falar de qualquer acontecimento operacional. Nas cartas, a guerra pura e simplesmente não existia apesar de a sentirmos crescer. Para evitar qualquer deslize, as cartas deixaram até de referirem o dia-a-dia, mesmo nos dias em que os cheiros do planalto do Bié nos tomavam os sentidos e o sossego fosse promessa de paraísos. Eu e o Alma Atenta, passávamos nas cartas a falar, não de nós, mas daqueles a quem nossas cartas se dirigiam. Ele escrevia sobre a mulher e o filho, eu falava da mulher à minha mulher e das minhas filhas também a ela. Maridos e pais à distância, fazíamos por estar perto escrevendo como se estivéssemos logo ali, conversando. Não sabia do que Alma Atenta falava a não ser quando comentava comigo as respostas que ia tendo ao que ia escrevendo. Eu, no que escrevia, ia interrogando e adivinhando a resposta de como ia ela no emprego e elas na escola. A carta que depois vinha confirmava umas vezes e outras não o que pensara ao escrever. Sobre minhas filhas, repetia-me e dissertava longamente sobre as vantagens do ensino pré-primário e também dos riscos de um ensino desfasado do desenvolvimento da criança, daquele ensino que passa o tempo enchendo as suas cabecitas com conhecimentos antecipados e saberes fora da capacidade da experiência e uso, com o sacrifício do ensino das artes, do treino dos sentidos, do gosto pelos sons, pelas formas e pelos tons. Fazia frases sofisticadas e pretensiosas, umas bem construídas outras até ridículas, sobre tudo o me ocorria serem bons ou maus saberes e sobre pedagogias recomendáveis para nossas filhas. Nesse dia, depois de escrever, peguei num livro que tinha comprado já com ideia de o ler e comentar numa oportuna carta. Li-o de uma só rajada e, sem interromper os pensamentos que me suscitou, reiniciei outra carta. Seguiria no mesmo correio daquela outra que acabara de fechar? Minha Alma me aconselhou escrever e mandá-las separadas e espaçadas, podia nos dias seguintes me faltar o que dizer. E assim resolvi fazer. Escrevi “As nossas filhas… Sabes que a minha maneira de as amar, assim à distancia, se consubstancia no fervor e entusiasmo que agora ponho na leitura de um livro (que achado!) chamado “A Criança”, de Maria Montessori? (Eu e os livros, não é amor?)” e explicava-lhe a obra da autora, do seu método de ensino(*) dirigido a crianças da pré-primária, do seu sentido social e da criação de escolas – “Casas de crianças” – que institucionalizaram o seu uso referindo os países do Mundo onde tal aconteceu. E citava-lhe a frase transcrita: “O homem degeneraria sem a criança que o ajuda a renovar-se”. Não fechei a carta, prevenindo o poder acrescentar-lhe mais alguma coisa. Deitei-me e o Alma Atenta ainda escrevia. Com os olhos no teto, Minha Alma ia-me dizendo sem quebrar o silêncio “Vês?, não tens que te preocupar, tuas filhas farão de ti um homem novo”. Sorri e acho que foi sorrindo que adormeci. Nessa noite terei sonhado com Maria Montessori e as suas “Casas de Crianças”…
Página, ainda não numerada, do livro que estou a escrever
"Almas que não foram fardadas"