11 setembro, 2011

Homilias dominicais (citando Saramago) - 48

Desde sexta-feira que se escreve sobre a data. Assim, não me faltariam textos para inspirar palavras próprias. Mas quais? Que dizer, que não tenha sido dito antes? E depois, havendo datas semelhantes para referir horrores diferentes, como passar icólume sob os muito prováveis impropérios de quem estivesse disposto a julgar o meu desvio de atenção para coisas consideradas menores? Ainda pensei em passar ao lado do significado directo da data e aproveitar este dia para colocar um poema de Bob Dylan - "Its Alright, Ma (i´m Only Bleeding)". Tudo me pareceu apropriado mas a escolha recaiu sobre este texto de Saramago, escrito 8 dias depois do 11 de Setembro de 2001: 

HOMILIA DOMINICAL 
Algures na Índia. Uma fila de peças de artilharia em posição. Atado à boca de cada uma delas há um homem. No primeiro plano da fotografia um oficial britânico ergue a espada e vai dar ordem de fogo. Não dispomos de imagens do efeito dos disparos, mas até a mais obtusa das imaginações poderá "ver" cabeças e troncos dispersos pelo campo de tiro, restos sanguinolentos, vísceras, membros amputados. Os homens eram rebeldes
Algures em Angola. Dois soldados portugueses levantam pelos braços um negro que talvez não esteja morto, outro soldado empunha um machete e prepara-se para lhe separar a cabeça do corpo. Esta é a primeira fotografia. Na segunda, desta vez há uma segunda fotografia, a cabeça já foi cortada, está espetada num pau, e os soldados riem. O negro era um guerrilheiro.

Algures em Israel. Enquanto alguns soldados israelitas imobilizam um palestino, outro militar parte-lhe à martelada os ossos da mão direita. O palestino tinha atirado pedras. Estados Unidos da América do Norte, cidade de Nova Iorque. Dois aviões comerciais norte-americanos, seqüestrados por terroristas relacionados com o integrismo islâmico, lançam-se contra as torres do World Trade Center e deitam-nas abaixo. Pelo mesmo processo um terceiro avião causa danos enormes no edifício do Pentágono, sede do poder bélico dos States. Os mortos, soterrados nos escombros, reduzidos a migalhas, volatilizados, contam-se por milhares.

As fotografias da Índia, de Angola e de Israel atiram-nos com o horror à cara, as vítimas são-nos mostradas no próprio instante de tortura, da agónica expectativa, da morte ignóbil. Em Nova Iorque tudo pareceu irreal ao princípio, episódio repetido e sem novidade de mais uma
catástrofe cinematográfica, realmente empolgante pelo grau de ilusão conseguido pelo engenheiro de efeitos especiais, mas limpo de estertores, de jorros de sangue, de carnes esmagadas, de ossos triturados, de merda. O horror, agachado como um animal imundo, esperou que saíssemos da estupefacção para nos saltar à garganta. O horror disse pela primeira vez "aqui estou" quando aquelas pessoas saltaram para o vazio como se tivessem acabado de escolher uma morte que fosse sua. Agora o horror aparecerá a cada instante ao remover-se uma pedra, um pedaço de parede, uma chapa de alumínio retorcida, e será uma cabeça irreconhecível, um braço, uma perna, um abdómen desfeito, um tórax espalmado. Mas até mesmo isto é repetitivo e monótono, de certo modo já conhecido pelas imagens que nos chegaram daquele Ruanda-de-um-milhão-de-mortos, daquele Vietname cozido a napalme, daquelas execuções em estádios cheios de gente, daqueles linchamentos e espancamentos daqueles soldados iraquianos sepultados vivos debaixo de toneladas de areia, daquelas bombas atómicas que arrasaram e calcinaram Hiroshima e Nagasaki, daqueles crematórios nazis a vomitar cinzas, daqueles camiões a despejar cadáveres como se de lixo se tratasse.

De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta dos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus. Já foi dito que as religiões, todas elas, sem excepção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana. Ao menos em sinal de respeito pela vida, deveríamos ter a coragem de proclamar em todas as circunstâncias esta verdade evidente e demonstrável, mas a maioria dos crentes de qualquer religião não só fingem ignorá-lo, como se levantam iracundos e
intolerantes contra aqueles para quem Deus não é mais que um nome, nada mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como os outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar.

Disse Nietzsche que tudo seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel. Durante séculos a Inquisição foi, ela também, como hoje os taliban, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conúbio pactado entre a Religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos: o direito a dizer não, o direito à heresia, o direito a escolher outra coisa, que isso só a palavra heresia significa.

E, contudo, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, que não existiu nem existirá nunca, inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos se vão acumulando, estes das torres gémeas de Nova Iorque, e todos os outros que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e pela acção dos homens, cobriram e teimam em cobrir de terror e sangue as páginas da História. Os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o "factor Deus", esse, está presente na vida como se efectivamente fosse o dono e o senhor dela. Não é um deus, mas o "factor Deus" o que se exibe nas notas de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos, não a outra...) a bênção divina. E foi o "factor Deus" em que o deus islâmico se transformou que atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações.

Dir-se-á que um deus andou a semear ventos e que outro deus responde agora com tempestades. É possível, é mesmo certo. Mas não foram eles, pobres deuses sem culpa, foi o "factor Deus", esse que é terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual for a religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem acabou por fazer do homem uma besta. Ao leitor crente (de qualquer crença...) que tenha conseguido suportar a repugnância que estas palavras provavelmente lhe inspiram, não peço que se passe ao ateísmo de quem as escreveu. Simplesmente lhe rogo que compreenda, pelo sentimento se não puder ser pela razão, que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E que desconfie do "factor Deus". Não faltam ao espírito humano inimigos, mas esse é um dos mais pertinazes e corrosivos. Como ficou demonstrado e desgraçadamente continuará a demonstrar- se.

José Saramago, "Factor Deus" in "El Pais" e PÚBLICO - 19.Set.2001

19 comentários:

Fada do bosque disse...

Olá Queerido amigo Rogério, :)
Gostei muito do texto de Saramago. Em nome de Deus se mata, se assassina, se cometem as maiores atrocidades possíveis.
Quero aqui deixar esta reportagem, A verdade sobre as guerras apesaar de saber que a maioria fugirá, como disse no Sustentabilidade, de ver o mal dos outros porque esse não nos diz respeito. A maioria não terá tempo para dedicar a um filme de guerra, porque o filme, embora em risco de desaparecer da net em pouco espaço de tempo, como aconteceu com a versão sem legendas, pode causar mau estar. O submundo que mantém a civilização ocidental "adormecida" e imune ao sofrimento. Um submundo que se agiganta como se pode ver aqui. Um submundo que fará a civilização da vida priveligiada ruir. Esses priveligiados que se dão ao trabalho de fechar a sua mente ao lado Mau do Mundo, porque o Bem pode ser afectado. E como disse no Sustentabilidade, afinal os media apenas mostram aquilo que os ocidentais querem ver, porque se assim não fosse, não teriam audiências... ou não será?
Um trabalho excepcional em memória dos 300 jornalistas que não disseram ámen ao poder e que decidiram falar por eles próprios... assim, perderam a vida.

acácia rubra disse...

Uma (re)visão pormenorizada.

Uma reflexão profunda sobre o conteúdo da caverna mais escura do Homem - o das suas crenças.

Foi bom reler. É mau saber que muitos não sabem ler e não compreendem os sinais.

Boa semana.

Beijo

Anónimo disse...

Quem disse que a História não se repete só mostrou ignorância.

LUIZ

Rogério Pereira disse...

Não posso deixar de trazer aqui o que vi e ouvi postado por bons tempos hein?!sob o título: Memória das ignomínias

Eva Gonçalves disse...

Concordo com muito do texto de Saramago, evidentemente. Mas não no factor Deus... é mais o factor Natureza huumana... Abraço

Helga disse...

Ainda bem que hesitou, pois a escolha deste texto não poderia ter sido mais acertada.

Um beijo

Fê-blue bird disse...

Caro amigo:
Esta sua escolha é a mais certeira que me foi dado ler neste dia.
Todos os dias morrem inocentes em todo o mundo vítimas da prepotência e da ambição desmedida de quem os devia proteger.
Já tinha saudades suas.

beijinhos

Fada do bosque disse...

Depois colocaram Pinochet no poder...Foi o Equador, foi toda a América do Sul, toda a África.
Esses fdp´s dos americanos com alguns europeus vão trazer muito sofrimento aos povos. Uma ditadura encapotada, sem os mínimos escrúpulos, faz de Hitler um menino de coro!
Tenho um ódio ao Kissinger!!! Esse monstro nunca mais morre?! APRE que as pestes são mesmo resistentes! têm uma "esperança" de vida revoltante!!!!
Conseguiram enfiar o FMI na Federação Russa e estragaram por completo o normal desenvolvimento da Federação após a queda da URSS. Enfraqueceram quem lhes poderia fazer frente!! Os russos preferiam viver como antes... detestam-nos... a nós ocidentais!! Odeio estes imperialistas!!!

Fada do bosque disse...

E para actualização aqui vai:

«Em 13 de Setembro é inaugurada em Londres uma das maiores feiras de armas do mundo, com o apoio do governo britânico. Em 8 de Setembro, a Câmara de Comércio e Indústria de Londres apresentou uma antevisão intitulada "Médio Oriente: Um mercado vasto para companhias britânicas de defesa e segurança". O patrocinador foi o Royal Bank of Scotland, um grande investidor em bombas de estilhaçamento (cluster). Segundo a Amnistia Internacional, as vítimas de bombas de estilhaçamento são 98 por cento civis e 30 por cento crianças. O Royal Bank of Scotland recebeu £20 milhões de dinheiro público. No anúncio para a festa de armas do banco lê-se: "O Médio Oriente é uma das regiões com o maior número de oportunidades para companhias britânicas de defesa e segurança. A Arábia Saudita... é o principal importador de defesa do mundo, tendo gasto US$56 mil milhões em 2009... uma região muito valiosa a visar".

Mísseis Hellfire. Tais são as prioridades do governo de Cameron depois da grande vitória "humanitária" na Líbia. Como declarou outrora Margaret Thatcher: "Alegrem-se!" E como os banqueiros e mercadores de armas aumentam a graduação dos seus óculos, não vamos esquecer os heróicos pilotos da RAF que tornaram a Líbia nossa outra vez pela incineração de incontáveis "elementos pró Kadafi" nos seus lares, camas e clínicas, nem os desconhecidos apoiantes da indústria britânica de drones em Menwith Hill , Yorkshire , que, antes e depois do almoço, providenciam a informação de alvos dos drones de modo a que mísseis Hellfire possam arrasar lares e sugar o ar para fora de pulmões, uma especialidade. E aclamações para o sítio de teste de drones da QuinetiQ , em Aberporth, e para a UAV Engines Limited, em Lichfield.»

do mesmo autor da reportagem que deixei atrás: Jonh Pilger.

Artigo completo: http://www.resistir.info/pilger/pilger_08set11.html

intimidades disse...

Todos os ideiais e idealistas, que se recusam a considerar o erro dos seus ideiais, ou a parte certas dos ideiais de outros, sejam eles religiosos ou politicos, irao sempre tentar impor esses ideiais sem olhar a custos.

..............
Bjinhos
Paula

O Puma disse...

No Iraque no Afeganistão na Líbia

na Palestina
não existem Torres onde morreram pessoas de 90 nacionalidades

só existem mortos

Fada do bosque disse...

Aqui faz-se jornalismo.

Rogério Pereira disse...

Puma,
felino oportuno...

Eva Gonçalves, está convidada a ler
o que a Helga no seu post foi escrever...

Diz ela (citando Ary dos Santos):

Todos sofremos.
O mesmo ferro oculto nos rasga e nos estilhaça a carne exposta.
O mesmo sal nos queima os olhos vivos.
Em todos dorme a humanidade que nos foi imposta.
Onde nos encontramos, divergimos.
É por sermos iguais que nos esquecemos,
Que foi do mesmo sangue,
Que foi do mesmo ventre que surgimos.

Ary dos Santos

Janita disse...

Rogério.
Fiquei estupefacta com a sua declaração a respeito da dúvida quanto ao teor do post, em dia sagrado de Homilia no seu blog, chegando a pensar em publicar um poema de Bob Dylan.

Admirar José Saramago, para mim, não será razão válida para concordar com tudo o que ele disse e escreveu.
Sobre este texto concordo em muito com ele, mas discordo totalmente quando Saramago diz que o "factor Deus" foi o responsável pela acção destruidora dos homens. É precisamente a falta do "factor Deus" no coração dos homens, a responsável pelas atrocidades que vemos acontecer na humanidade e em seu nome se praticarem tantas injustiças e crueldades, ao longo da História.

Rogério, peço-lhe imensa desculpa por não seguir o seu exemplo, ou seja, quando não concorda com algo em algum blog, pura e simplesmente, não comenta.

Acontece que, na minha opinião, os comentários servem justamente para que cada um possa manifestar aquilo que pensa.

Espero que estes dias de descanso o tenham desavinagrado um pouco.

Beijinhos.

Janita

Rogério Pereira disse...

Janita,
(até mesmo a provocar é bonita)

Com que então passo ao lado a evitar discussão? Pergunte ao Folha Seca, à Paula Fitas, ao Carlos Barbosa de Oliveira, ao Carlos Albuquerque, à Ematejoca... Pergunte à Gisa ou vá lá ver ver o que acabei de escrever... ou (sem sair daqui) o que escrevi sobre o que me disse à Eva... Quanto ao que escreveu não passo ao lado. O "Factor Deus": esteve na acção do "Cruzado" (dilatando a fé e o império); esteve na Inquisição; esteve... enfim, em tudo o que Saramago disse ter estado. Se falta o factor Deus no coração dos homens? A qual Deus se refere? Só há um? Qual? Será a crença num Deus a maior carencia ou será antes o respeito pelo ser ser o que o Mundo, hoje, continua a mais carecer?

Livre-nos Deus do "Factor Deus"...

Os comentários, aqui, são todos aceites e bem-vindos. O poema de Bob Dylan? Vale uma homilia. Quer um bocado? Eu dou, com agrado:

"Enquanto pregadores pregam sobre destinos maléficos
Professores ensinam que a espera por conhecimento
Pode levar à pratos de cem dólares
Bondade se esconde atrás dos portões
Mas até o presidente dos Estados Unidos
Às vezes tem que
ficar nu.

E apesar das regras da estrada já estarem alojadas
É apenas do jogo das pessoas que você tem de esquivar
E está tudo bem, Mãe, eu consigo.

Cartazes publicitários que te enganam
a pensar que você é aquele
que pode fazer o que nunca foi feito
Que pode vencer o que nunca foi vencido
Enquanto a vida lá fora continua
Ao seu redor.

Você se perde, você reaparece
Subitamente descobre que não tem nada a temer
sozinho você fica em pé, com ninguém perto
Quando uma voz distante tremendo, vaga
Aguçam seus ouvidos adormecidos à ouvir
Que alguém acha
Que realmente te encontrou."

(o resto está no linque,
quase me arrependo
de o não ter postado
neste 11 de Setembro)

samuel disse...

Em cheio!!!

Abraço.

Maria disse...

Excelente post, que hoje reli com atenção dobrada. Como os comentários.
Obrigada.

Lídia Borges disse...

Como já disse num outro comentário e este propósito, não há fronteiras entre culpados e inocentes. Não há inocentos entre os senhores da guerra.

L.B.

Fernanda disse...

Rogério!

Obrigada.

Por me teres (re)lembrado este tema de Robert Zimmerman, que adoro...

Mas principalmente por teres aberto a alma e falado a mais pura das verdades, aliás, como sempre.

Mesmo que demasiado dantesco na sua crueldade, o 11 de Setembro não se compara, nem de perto nem de longe, a todos os massacres inqualificáveis cometidos ao longo dos tempos e até hoje mesmo, em nome de um "Deus" que é tão ou mais irreal do que um outro qualquer.

Abraço-te com carinho