21 março, 2017

O meu armário, ao longo do tempo nunca teve esqueletos dentro

As Portas do Armário, Porfírio Pires,Óleo sobre tela
O Meu Armário

O meu armário
não é nem alto
nem largo
nem fundo
mas onde me vai cabendo tudo

Lá, fui guardando
cidades, aldeias, vilas
e todos os lugares por onde fui passando

Dentro do meu armário correm os rios
da minha infância
Dentro do meu armário
fui guardando afectos, angustias e medos
à medida que fui crescendo

O meu armário tem gente dentro
Muita gente, mesmo
Nos dias mais cinzentos
ou no decurso das lutas que vou travando
abro-lhe as portas de par em par
e tiro de lá uma espada, ou um pássaro
ou um sol
ou um grito
ou um sorriso
O meu armário, ao longo do tempo
nunca teve esqueletos dentro
Rogério Pereira

23 comentários:

  1. Entre todos os poemas que fui lendo hoje, destaco dois de nível superior. Este, "O meu Armário" e o "Palhaço Sem Circo" do Luís Eme. Dois poemas que me deixaram maravilhada. Capazes de fazer inveja a muito vate consagrado.
    Obrigado pela partilha.
    Um abraço

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    1. Nível superior?
      Vá lá, não exageres...
      Já toda a gente percebeu
      que teu armário é quase igual ao meu

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  2. Tem um armário muito precioso, tem VIDA lá dentro!

    Um beijinho

    O Toque do coração

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    1. Quando sai um pássaro
      espero, sem pressa
      e ele regressa

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  3. Nem todos os armários são iguais, mas gosto deste seu, especialmente porque tem lá um sol. Eu gosto do sol, sobretudo do Sol. Tudo o resto vem por acréscimo.

    Saudações Poéticas!

    Viva a Poesia!

    Lídia

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    1. O Sol?
      Ah, pois... o sol!

      SOL DO MENDIGO

      Olhai o vagabundo que nada tem
      e leva o Sol na algibeira!
      Quando a noite vem
      pendura o Sol na beira dum valado
      e dorme toda a noite à soalheira...
      Pela manhã acorda tonto de luz.
      Vai ao povoado
      e grita:
      - Quem me roubou o Sol que vai tão alto?
      E uns senhores muito sérios
      rosnam:
      - Que grande bebedeira!

      E só à noite se cala o pobre.
      Atira-se para o lado,
      dorme, dorme...

      Manuel da Fonseca

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  4. Perfeito, esse armário! Ainda bem que há armários assim: dignos e humanos.

    Beijinho

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    1. Sabes? Também estás dentro desse meu armário
      e às vezes espreito-te...

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  5. Um fabuloso poema, este teu "O Meu Armário", Rogério!

    Forte abraço!

    Maria João

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  6. Outro aplauso, desta vez para a excelente tela de Pofírio Pires!

    Maria João

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  7. Sempre admirei a tua veia poética, Rogério.

    Contudo, não acredito que no teu armário não haja esqueletos. Todos nós temos os nossos esqueletos escondidos no armário ou na cave.

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  8. Que belo armário, Rogério!
    Nele cabem, prosas, poemas, festas, e um sem fim de coisas belas.
    Esqueletos? Isso há, mas é nos armários infectos!

    O próximo livro a ser editado terá de ser de poesia, pode ser?
    Ah, eu queria!!

    ;)

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    1. Não vai haver um próximo livro

      Porquê? Um dia digo!

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  9. Um belo poema, meu caro Rogério
    gostei. de verdade
    e espero que venha livro

    abraço fraterno

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    1. Não Manuel, não vai haver
      um livro precisa que lhe se dê a mão
      e eu tenho as duas bem ocupadas

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  10. O poema está espetacular!! Quem o escreveu? O Rogério ou o Rogerito?... :)))

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  11. Rogério

    eu direi que esse armário é muito "rico" em memórias, e em tudo oq ue de bom e mau a vida nos traz.
    um poema, muito bom mesmo!
    beijo
    ;)

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  12. Bela poesia que eu nunca poderia escrever - a principal razão é porco não tenho um armário, só tenho uma mesinha de cabeceira e uma salgadeira.
    Um abraço e versa-te homem, que a poesia é do melhor que se pode fazer com as palavras!

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