Temendo o transito, o marido
já tinha saído
Pôs agua a correr, em temperatura amena
Preparou o que vestir, a roupa interior, o top de renda
e aquela saia rodada
A banheira transbordava
Escoou-a um pouco para que lhe coubesse o corpo
Como sempre fazia, estendeu-se, languidamente,
deixando que o morno, lhe acalmasse a pressa
Voltou a não esquecer os sais com odores de flores
E assim ficou, como sempre, longos minutos
até despertar para o tempo
em gestos resolutos
Não massajou o cabelo, antes o soltou
e usou o habitual champô
Passou pela pele o creme de amêndoas
e no rosto o costumado anti rugas, levemente aromatizado
Vestiu-se, fez o penteado
Olhando-se de perfil, detrás e de frente
Treinou um sorriso confiante
Na cozinha, ligou a chaleira
Mas hesitou, entre o chá e a prateleira
onde, alinhados, estavam os iogurtes, ricos em bifidus
muito coloridos
e açucarados
Optou, mais uma vez, pelo o de morango aos pedaços
Esqueceu a tosta com doce de frutos silvestres
e não meteu na mala a caixa de chicletes
Antes de sair, abriu a janela
para que o sol entrasse por ela
Apressou-se, para não chegar atrasada
à esplanada
Chegou, gabaram-lhe mil vezes o que trazia vestido
a elegância, os cheiros, o penteado e o sorriso
E entrou na conversa sobre os horrores da violência doméstica,
a banalidade dos saldos, o preço dos salões de estética
dissertando, de seguida
sobre as agruras da vida
pelos inconvenientes de se ter um filho,
e nesse ponto preciso
surge-lhe uma mensagem
«Querida, o contrato foi renovado
mas passei a trabalhador precário»
Pela cara dela, perguntaram-lhe o que era
Respondeu - Um anúncio parvo
enviado através do Sapo
Tranquila,
levantou-se e foi buscar uma raspadinha
Rogério Pereira
06 março, 2017
Como se tudo dependesse da Primavera - III (Classe Média - versão actualizada)
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Voltou às Conversas de Esplanada?
ResponderEliminarVenham de lá elas,
são interessantes,
actuais e recordar não custa nada!
Achas que vale a pena?
EliminarPreocupa-me - e ocupa-me... - o facto de te ver fazer um retrato tão fiel da "classe média". Uma alegoria? Assim o vejo...
ResponderEliminarAtenção; não me preocupa nada o facto de seres capaz de uma tal fidelidade, no retrato. Preocupa-me aquilo que é fielmente retratado.
Abraço.
Maria João
Há quem, despreocupadamente, não se incomode...
EliminarOcorreu-se voltar à abordagem inicial, devidamente actualizada (há 5 anos atrás não havia raspadinhas...)
Também essas me preocupam, pela frequência e "voracidade" com que são adquiridas, raspadas e rapidamente atiradas para o lixo. Não me tem sido nada difícil perceber que, para muitos, se tornaram num vício, mais do que num habitozinho inofensivo...
EliminarOutro abraço.
Não sei, não conheço ninguém assim, "mas que as/os há, há"...
ResponderEliminarLídia
Que sorte... é que são largos milhares...
EliminarHá papelarias em que "os jogos de azar" são o que safa o negócio...
Em 2012 não frequentava o blogue. Li o outro poema. As diferenças não são muitas, na atitude da classe média. Continua a querer fugir da realidade, a tentar enganar-se a si mesma. Ou pelo menos foi o que me pareceu.
ResponderEliminarAbraço
Se reparares, há uma evolução (relevante)
Eliminarantes, era o desemprego
agora, a precariedade
Reparei nisso, mas foquei-me mais na alienação da mulher.
EliminarClasse média?
ResponderEliminarSó na raspadinha
Abraço
...e no "Pilatos"
Eliminarno ginásio
lá do bairro