04 julho, 2012

Arménio Carlos esteve com o Bispo do Porto. Depois, aquele outro veio-lhe elogiar o civismo da organização... será por ter citado o Gonçalo?


... durante a audiência terá dito que espera
que a Igreja cumpra a missão que a si própria se reserva  
e que impeça que se instale definitivamente a lei da selva. 
"A vergonha não existe na natureza. Os animais sabem a lei: a força, a força, a força. Quem é fraco cai e faz o que o forte quer. A inundação, as chuvas, o mamífero mais pesado e mais rápido e o mamífero pequeno. Os primatas, os répteis, os peixes maiores e os mais minúsculos, a cascata: já viste algum animal cair?, não há a mais breve compaixão entre os animais e a água, o mar engoliu milhares e milhares de cães desde o início do mundo. Não há a mais breve compaixão entre a água e as plantas, entre a terra que desaba e os pequenos animais acabados de nascer. A natureza avança com o que é forte e a cidade avança com o que é forte: qual a dúvida? Queres o quê? Não há animais injustos, não sejas imbecil. Não há inundações injustas ou desabamentos da maldade. A injustiça não faz parte dos elementos da natureza, um cão sim, e uma árvore e a água enorme, mas a injustiça não. Se a injustiça se fizesse organismo: coisa que pode morrer, então, sim, faria parte da natureza."
Gonçalo M. Tavares,
Post inspirado pelo Bulimunda’s Blog

02 julho, 2012

Geração sentada, conversando na esplanada - 6 (geração Wikipedia)

“Justificar tragédias como "vontade divina" tira da gente a responsabilidade por nossas escolhas.”
“As pessoas nascem sempre sob o signo errado, e estar no mundo de forma digna significa corrigir dia a dia o próprio horóscopo.”
Umberto Eco (aqui)

A Ana afastou-se do silêncio que havia na sua mesa, talvez para evitar rompe-lo 

Nunca a esplanada estivera tão sossegada. A Teresa olhava para nada, a Gaby, com a agilidade que lhe era gabada, dedilhava no teclado funções e letras formando palavras em múltiplas sessões do facebook, abertas nas páginas das amigas predilectas e a Rita folheava uma revista. A Ana afastou-se do silêncio que havia na mesa, talvez para evitar rompe-lo. Estava também operando o  computador, um note-book de muito bom aspecto. O senhor engenheiro e o seu cão rafeiro não tinham ainda chegado e sua mesa estava vazia, como há muito não acontecia. Calmamente eu lia o jornal.
- "Olá menina, posso sentar-me ao seu lado?" A Ana sem responder deslocou-se abandonando o centro do banco de jardim, quase de costas para mim. O velho que chegara, sentou-se no espaço deixado, e esse eu mal via. Contudo sua voz, límpida como se saísse de um corpo jovem, era nítida.
- "O que está fazendo?" A Ana não pareceu incomodada por ser interrompida. 
- "Estou a fazer um trabalho para a cadeira de Filosofia..."
- "E gosta de Filosofia?"
- "Nem por isso, mas faz parte do curso..."
- "Mas, então... gosta do curso e tem pena do curso a obrigar a estudar Filosofia?"
- "Para lhe falar a verdade, preferia Medicina."
- "Gostava então mais de Medicina?"
- "Não se trata de gostar, mas de poder seguir uma boa carreira... há muitos médicos na família"
- "Ah!", o velho calou-se um bom bocado e depois voltou a interromper "É difícil , isso?"
- "Não, não dá trabalho nenhum... a Wikipédia tem tudo... é fazer copy past, e pronto!"
- "Nem é preciso... matar a cabeça a pensar?"
- "Bom... sempre é... um bocadinho... é preciso saber escolher a palavra certa no motor de busca... e depois colar no texto, segundo a lógica que pretendo ou aquela que for saindo..."
- "Nem precisa, a menina, escrever nada?
- "Quase nada... a Wikipédia está muito melhorada... tem tudo. De certo modo estou contente. Se estivesse em Medicina, não podia ser assim... esse curso dá muito trabalho... este... assim, assim. O pior..."
- "O pior ?..." 
- "O pior é que ainda não sei se para o ano há dinheiro para pagar a matricula... meu pai está numa empresa à beira da falência... queira Deus, que tal não aconteça"
- "É pena, sendo tão fácil esse seu trabalho..." e dizendo isto levantou-se "Tive muito gosto. Como se chama a menina?"
- "Ana. E o senhor?"
- "Livre-arbítrio, à sua disposição!" - e no rosto, que agora dali via, assomou-se um sorriso que eu diria ser de ironia.Despediram-se. Ele, lentamente trôpego de velhice, lá se arrastou até desaparecer entre os arbustos e folhagens do jardim. Pensei na coincidência do nome e o dialogo estabelecido e pensei que o Livre-arbítrio lá vai sobrevivendo, embora bastante diminuído. Um dia destes, talvez a Ana descubra na Wikipédia a data em que tenha falecido...

01 julho, 2012

Homilias dominicais (citando Saramago) - 90


Por vezes os gestos nos traem e mostram,
não o que queremos esconder, mas o que não é urgente mostrar...


Dizia Saramago não ser um ateu total e todos os dias procurar um sinal de Deus, sem  infelizmente o encontrar. Não fosse a palavra "infelizmente" e diria estar-se perante mais uma sua ironia. Mas está lá a sua lamentação. Contudo não chega para provar que Saramago nos enganava. Acho que sua crença era no Homem e a sua lamentação, essa, era dispersa por tudo o que é adverso ao Homem. Até o próprio homem. 
Tive grandes hesitações na escolha da homilia de hoje. Não por falta de tema, mas pelo seu excesso (Saramago é um interminável rol de actualidade). A escolha acaba por recair no desconforto da nossa vivência neste mundo, no desconforto dos comportamentos de nós humanos e porque decidi escrever uma "história impossível" e submete-la a concurso. É uma história saramaguiana,  Levanto uma ponta do véu, antecipando que é uma história sobre esses desconfortos e sobre a ocorrência de uma profunda "Metamorfose" no universo. É uma metáfora. Aí escrevo que nenhum Deus aceitaria confessar que se enganara em sua obra, emendando o que estava mal e refazer tudo de novo. Até porque permitiu que em todos estes séculos falassem de si como se fosse infinitamente bom deixaram-lhe pouca humildade para confessar o erro e, assim, o reparar.

HOMILIA DE HOJE 
"Há uma pergunta que me parece dever ser formulada e para a qual não creio que haja resposta: que motivo teria Deus para fazer o universo? Só para que num planeta pequeníssimo de uma galáxia pudesse ter nascido um animal determinado que iria ter um processo evolutivo que chegou a isto?"
José Saramago em entrevista a "O Público"