01 julho, 2012

Homilias dominicais (citando Saramago) - 90


Por vezes os gestos nos traem e mostram,
não o que queremos esconder, mas o que não é urgente mostrar...


Dizia Saramago não ser um ateu total e todos os dias procurar um sinal de Deus, sem  infelizmente o encontrar. Não fosse a palavra "infelizmente" e diria estar-se perante mais uma sua ironia. Mas está lá a sua lamentação. Contudo não chega para provar que Saramago nos enganava. Acho que sua crença era no Homem e a sua lamentação, essa, era dispersa por tudo o que é adverso ao Homem. Até o próprio homem. 
Tive grandes hesitações na escolha da homilia de hoje. Não por falta de tema, mas pelo seu excesso (Saramago é um interminável rol de actualidade). A escolha acaba por recair no desconforto da nossa vivência neste mundo, no desconforto dos comportamentos de nós humanos e porque decidi escrever uma "história impossível" e submete-la a concurso. É uma história saramaguiana,  Levanto uma ponta do véu, antecipando que é uma história sobre esses desconfortos e sobre a ocorrência de uma profunda "Metamorfose" no universo. É uma metáfora. Aí escrevo que nenhum Deus aceitaria confessar que se enganara em sua obra, emendando o que estava mal e refazer tudo de novo. Até porque permitiu que em todos estes séculos falassem de si como se fosse infinitamente bom deixaram-lhe pouca humildade para confessar o erro e, assim, o reparar.

HOMILIA DE HOJE 
"Há uma pergunta que me parece dever ser formulada e para a qual não creio que haja resposta: que motivo teria Deus para fazer o universo? Só para que num planeta pequeníssimo de uma galáxia pudesse ter nascido um animal determinado que iria ter um processo evolutivo que chegou a isto?"
José Saramago em entrevista a "O Público"