15 dezembro, 2022

HIROXIMA, NUMA SESSÃO MEMORÁVEL, PARA QUE A MEMÓRIA NÃO SE APAGUE

 

 O Conselho Português para a Paz e Cooperação e a Âncora Editora realizaram mais uma apresentação do livro "Hiroxima - Antologia de Poemas" coordenado por Carlos Loures e Manuel Simões.
A sessão, apresentada por Amílcar Campos (membro da Presidência do CPPC), contou com as intervenções de Manuel Simões, coordenador da obra, Baptista Lopes, da Âncora Editora, Ilda Figueiredo, presidente da DN do CPPC.
Entre as intervenções foram declamados poemas do livro por vários atores do Intervalo Grupo de Teatro.
De entre os poemas declamados, escolhi este:

HIROXIMA - Adão Cruz
 
Nos limites da razão
onde os homens produzem monstros
todos nos sentimos escombros
do maior terrorismo da História
humana.
Nasceu a manhã mais cruel da mais
inocente madrugada
a manhã mais negra do que a noite
do absurdo.
O inferno rasgou o sol e a lua
os rostos e os braços
arrancou as árvores
secou os rios e as fontes
enchendo a cidade de sangue e
corpos em pedaços.
Um mar de gente ... no corpo nu da
solidão
gente só... no ventre da multidão
olhos vidrados de lágrimas e pânico
correndo... fugindo...
para onde... para o nada...
para o abismo da escuridão
sobre restos de sonhos e pedaços de
vida
espalhados pelo chão
onde a dor fincou as garras
abafando os gritos em catedrais de
cinzas.
O fim de tudo entrou pelas portas e
janelas
e comeu tudo...
comeu as casas que caíram
as mãos que deixaram de brincar
comeu os olhos que deixaram de
olhar
e as bocas que deixaram de respirar.
Tudo era dentro e tudo era fora
na amplidão do desespero
não havia mães nem filhos nas
entranhas da aflição
não havia rumo nem caminho
no deserto infindo da maldição.
Tudo se fez pó
não ficou pedra sobre pedra
e nem pedras havia no chão
já o chão não era chão
mas o fundo abismo de uma cratera
onde tudo era estendal de morte
sem porta de entrada sem porta de
saída
sem tempo sem norte sem vida
sem ruas sem movimento
sem fímbria de céu ou de mar.
O nada entrou no coração
que deixou de bater no peito de
muitos mil
ao peso de cinquenta quilos de
urânio
e toneladas de glória americana
erguendo até ao cume da barbárie
a bandeira mais cruel da natureza
humana.
Uma fria luz de prata atravessou o
mundo
perfurou a mente e as ideias
em seco lamento de gemido sem
remédio
como latido de cão atirado ao vento.
E o mundo dormiu suavemente...
e ainda hoje não acordou.
Entre milhares de bombas e
estrondosos hinos
o mundo de olhos cegos e ouvidos
moucos
ainda dorme...
nada mais ouvindo que o silêncio dos
assassinos.
Poema declamado por André Levy

 

11 dezembro, 2022

A MINHA MUSA ANDA AUSENTE...

A Lis Costa deixou-me, no outro dia, este comentário:

«Nem sempre o céu é azul , Rogério. E a chuva foi uma bela inspiração! Que as estações afetam nosso cotidiano não há dúvida, mas nem todos possuem talento para compor poesia . Gostei da surpresa poética. Que venham outras para os dias ensolarados. Aguardarei !»

 Não posso responder ao teu pedido. A Musa não anda comigo... mas deixo-te outro poema e também o meu livro.
Se gostas da minha poesia, lê-o, de fio a pavio... aqui.

 

DESPERTARES

A alma, o corpo e a razão
sentiram-se abraçados,
docemente,
como há muito não lhe acontecia
Desde então,
ela não mais se afastaria,
como se fizesse parte dele,
sem pressão nem posse.
Seu tronco tornou-se forte
e, na sua frondosa copa,
as folhas assumiram aquele tom
verde de esperanças e de certezas
contrastando com o vermelho
de um fruto amadurecido
Enquanto a seiva lhe fervilhava,
as raízes acordaram resolutas
no seio do húmus da terra

Decidiu então juntar-se à floresta
Assim unidos, assaltaram a cidade


(E outros poemas) - pág.16

10 dezembro, 2022

PORTUGAL AFASTADO...


Depois do que se diz do jogo, preocupa-me a educação do meu Diogo. É que o puto, na sua sã inocência, pensa no que pensa, mas a realidade ameaça o seu pensar. Eu, por mim, tentarei continuar a transmitir-lhe a mensagem de sempre...


Ah!, e outra coisa:

«O que há de característico e fundamental no desporto é, justamente, o que define e caracteriza a sociedade em que ele se realiza»

Prof. José Esteves,
in "O Desporto e as Estruturas Sociais" - 1967,
(este post foi adaptado de um já produzido)