04 agosto, 2023

VOLTEI A SENTIR-ME FRANCISCO!

A parte relevante do discurso do Papa Francisco no Centro Cultural de Belém não teve o eco esperado entre meios de comunicação, analistas e comentadores, o que deixa perceber o desconforto face a algumas das questões levantadas.
Na recepção institucional promovida pelo Presidente da República, no CCB, perante uma plateia onde se faziam representar os principais dirigentes políticos nacionais, membros do Corpo Diplomático e personalidades de áreas diversas, o Sumo Pontífice falou do nosso País, da forma como está a acolher a Jornada Mundial da Juventude e dos que «na sociedade portuguesa se preocupam com os outros, nomeadamente a Igreja». Em particular, referiu Lisboa, não apenas enquanto «cidade do encontro que abraça vários povos e culturas», mas a cidade de um oceano que «não liga apenas povos e países, mas também terras e continentes».

«No oceano da história, estamos a navegar num momento tempestuoso e sente-se a falta de rotas corajosas de paz», referiu o Papa, questionando a Europa: «para onde navegas, se não ofereces percursos de paz, vias inovadoras para acabar com a guerra na Ucrânia e com tantos conflitos que ensanguentam o mundo? Que rota segues, Ocidente? A tua tecnologia, que marcou o progresso e globalizou o mundo, sozinha não basta; e muito menos bastam as armas mais sofisticadas, que não representam investimentos para o futuro, mas empobrecimento do verdadeiro capital humano que é a educação, a saúde, o estado social». Uma Europa, coração do Ocidente, «que inclua povos e pessoas, sem correr atrás de teorias e colonizações ideológicas» e seja capaz de abrir «percursos de diálogo e inclusão, desenvolvendo uma diplomacia da paz que extinga os conflitos e acalme as tensões», sublinhou.

No seu discurso, Francisco definiu como tarefa prioritária «defender a vida humana, posta em risco por derivas utilitaristas que a usam e descartam», questionando «o descarte dos idosos, os muros de arame farpado, as mortandades no mar e os berços vazios», para além da oferta de «remédios rápidos e errados como o fácil acesso à morte».

O Papa referiu-se também a «uma triste fase descendente na curva demográfica», sublinhando que «a boa política pode fazer muito neste sentido», se for chamada «a corrigir os desequilíbrios económicos dum mercado que produz riquezas mas não as distribui, empobrecendo de recursos e de certezas os ânimos».

Ainda a propósito de Lisboa, sublinhou o facto de aqui ter sido assinado o Tratado de Lisboa, de uma União que «tem por objetivo promover a paz, os seus valores e o bem-estar dos seus povos», mas também o de contribuir «para a paz, a segurança, o desenvolvimento sustentável do planeta, a solidariedade e o respeito mútuo entre os povos, o comércio livre e equitativo, a erradicação da pobreza e a proteção dos direitos humanos». 

Uma das personalidades presentes no Centro Cultural de Belém foi Paulo Raimundo, para quem o discurso do Papa Francisco tem um «significado na condenação das injustiças, das desigualdades, da guerra, dos problemas ambientais, das dificuldades e da precariedade que muitos jovens enfrentam», não estando desligadas «das opções e do caminho traçado pela União Europeia». O secretário-geral do PCP, para além das «preocupações com a justiça social e o apelo à paz», destacou ainda «a esperança no futuro enunciada pelo Papa, certamente não exactamente da mesma forma como nós o fazemos, mas que tem muita relevância».

Publicado em AbrilAbril

03 agosto, 2023

O LIVRO QUE VOU ESCREVENDO - Cap. 005


DE PROGRAMADOR A TÉCNICO DE ORGANIZAÇÃO INDUSTRIAL 

 

Em cada semana que passava a produção ia sofrendo quebras quer na quantidade de garrafas saídas da linha de enchimento quer no tempo despendido na sua produção. Os serviços comerciais desesperavam, em pré-anúncio do destino da unidade fabril. 

 

O seu encerramento aconteceria não muito depois da minha saída da qual dei conhecimento, em conversa afável e longa, com o meu chefe de serviço. Transmiti-lhe o meu desapontado sentir, mas dei-lhe por testemunho o quanto aprendera ali. No abraço de despedida Bioucas confessou-me que mais tarde ou mais cedo, inevitavelmente, me seguiria o exemplo.

 

Ao saber desta minha decisão e a conversa que tivera, o Samuel, de sorriso largo, confessou-me que lhe estava a dar uma boa notícia pois já tinham decidido, lá na empresa, que me iriam admitir como técnico de organização industrial alargando a equipa. Acrescentou que não tinham até aí tomado a iniciativa de me convidar, por defenderem como princípio ético não roubar quadros às empresas clientes.

 

Não poderia ter ficado mais agradado. Ainda não fechara completamente uma porta já outra se abrira a um percurso profissional onde iria potenciar tudo o que aprendera... e continuando a trabalhar em ambiente operário.

 

Formalizado o despedimento, no mês seguinte, lá estava frente à porta daquele edifício de nobre traça e bem localizado e servido de transportes.

 

Subi as escadas e o Caracol abriu-me a porta e, depois de um muito amigável abraço seguido de um “bem-vindo”, encaminhou-me para um pequeno gabinete com uma única secretária, sobre a qual jazia uma pilha de pastas.

 

“Vai dando uma olhadela a isso...” disse apontando a documentação “... a gente já vem, fica à vontade!” e, piscando o olho em manifesta cumplicidade, saiu fechando a porta calmamente.


Continua 


 

02 agosto, 2023

PCP VISITA A FUNDAÇÃO DA JORNADA MUNDIAL DA JUVENTUDE

VER VÍDEO AQUI

A visita não tem motivações religiosas e nem é de mero oportunismo politico. A visita tem a ver com o facto de a Jornada envolver toda a juventude e ser esta a camada que justifica o muito por que o Partido luta e tem lutado.

Paulo Raimundo não referiu uma só palavra relativa ao Papa, mas poderia tê-lo feito já que eu próprio, de há muito, me venho sentindo  Francisco.

... E já agora divulgo algo que merece ser divulgado e que consta no espaço da Quinta da Atalaia (Festa do Avante! )


01 agosto, 2023

O LIVRO QUE VOU ESCREVENDO - Cap. 004

 

MUITOS FORAM OS MESES QUE PASSARAM

SEM QUE DESSE POR ELES


Depois daquele reencontro, mais fiquei a saber: que ele, era quadro de uma empresa de consultoria na área da manutenção industrial e que estava ali em prestação desse serviço, até ao arranque da fábrica; que, além dele, trabalhavam nessa empresa mais dois elementos que também foram alunos do Instituto (disse-me os nomes, mas eu, na altura, não os associei a quem); que no dia seguinte iria entrar, na Cergal, um técnico preparador do trabalho, com o qual eu viria a ter contacto estreito pois todas as minhas tarefas eram dependentes das que ele ia, no dia-a-dia, realizando. Foram dois ou três meses de formação intensa e prática até ao arranque, seguido um lufa-lufa constante sem que eu, sedento de saber, sentisse a pressão das extensões de horário ou de uma coisa ou outra que ia acontecendo e correndo menos bem.

 

Ia tudo andando com todos achavam que devia andar, quando apareceram os primeiros sintomas de ter sido a decisão de construir a fabrica naquele lugar um enorme erro e um investimento desastroso.

 

Tudo começou ao notar que a enorme máquina de lavagem de garrafas, a primeira da máquina da linha de enchimento, vinha tendo sucessivos cortes na alimentação de água reduzindo ao mínimo o caudal necessário. O controlo de qualidade de linha vinha cada vez mais a rejeitar quantidades significativas de produto final (cerveja engarrafada, pronta a seguir para o mercado) por as garrafas apresentarem depósitos e até pequenos objetos como resultado da deficiente lavagem.


Todos os encarregados comentavam a constante ocupação do Diretor Técnico a fechar bebedouros e torneiras...

 

Mas a dinâmica estava criada e aqueles percalços eram tidos e comentados como consequência da seca severa que assolara o País, embora, na serra, nunca falhara o chuvisco...

 

Entretanto a minha relação com todos, desde a direção ao pessoal operário, era bem sintomática de que aquele era o meu mundo. E a simpatia com que me rodeavam aumentou bastante depois de nas festas de Natal, dirigidas aos trabalhadores e suas famílias, ter eu animado, em palco, as festividades estabelecendo diálogo com as crianças presentes e, até, contando pequenas histórias recolhendo sorrisos e palmas.

 

Não muito depois, a fábrica seria encerrada e todos os trabalhadores e quadros dispensados...


Continua