28 fevereiro, 2018

Cai chuva e a água é pública


Quando passa a haver a consciência generalizada de que a água se tornou um recurso escasso, é preciso lembrar (e combater) tentativas recentes para transformar a sua posse num bem privado

26 fevereiro, 2018

A guerra na Síria e a (minha) explicação de como se chegou até aqui.

O "até aqui", como ponto de situação na Síria, podia ser dado por um mapa, ou pela situação no terreno ou ainda pelo desenhar da esperança, na sequência de diligências diplomáticas a ocorrerem no contexto de um cessar-fogo, deste agora ou de outro.
Temo que nenhuma dessas possibilidades possa dar, de facto, o retrato do "até aqui" a que se chegou e como tudo isto começou.
A sistemática e dramatizada imagem dos efeitos da guerra com que a televisão portuguesa abre todos os noticiários, sempre a colocar o regime sírio na a origem de todos os males e desumanidades, se em nada contribui para a compreensão do conflito dá, no imediato, sinal inequívoco de que é Bashar al-Assad o odioso e, por isso, o alvo a abater.

Se há textos que possam dar algum contributo para entender o que se passa, eles têm vindo a ser publicados à margem da imprensa, como é este o caso.

Sobre como tudo começou, repito um texto antigo (Agosto de 2011) até por fazer referência a um testemunho que os acontecimentos viriam, mais tarde, a confirmar:
Uma "guerra humanitária" à Síria? Escalada militar. Rumo a uma guerra mais vasta no Médio Oriente-Ásia Central? "Quando retornei ao Pentágono em Novembro de 2001, um dos oficiais militares superiores teve tempo para uma conversa. Sim, ainda estamos em vias de ir contra o Iraque, disse ele. Mas havia mais. Isto estava a ser discutido como parte de um plano de campanha de cinco anos, disse ele, e havia um total de sete países, a principiar pelo Iraque e então a Síria, Líbano, Líbia, Irão, Somália e Sudão". (General Wesley Clark)

25 fevereiro, 2018

Um conto ao Domingo - IV ("Governo")

Por ressaca justificada
hoje o conto é d´outro

 

«Os garotos da rua resolveram brincar de Governo, escolheram o Presidente e pediram-lhe que governasse para o bem de todos.
- Pois não - aceitou Martim. - Daqui por diante vocês farão meus exercícios escolares e eu assino. Clóvis e mais dois de vocês formarão a minha segurança. Januário será meu Ministro da Fazenda e pagará o meu lanche.
- Com que dinheiro? - atalhou Januário.
- Cada um de vocês contribuirá com um cruzeiro por dia para a caixinha do Governo.
- E que é que nós lucramos com isso? - perguntaram em coro.
- Lucram a certeza de que têm um bom Presidente. Eu separo as brigas, distribuo tarefas, trato de igual para igual com os professores. Vocês obedecem, democraticamente.
- Assim não vale. O Presidente deve ser nosso servidor, ou pelo menos saber que todos somos iguais a ele. Queremos vantagens.
- Eu sou o Presidente e não posso ser igual a vocês, que são presididos. Se exigirem coisas de mim, serão multados e perderão o direito de participar da minha comitiva nas festas. Pensam que ser Presidente é moleza? Já estou sentindo como este cargo é cheio de espinhos.
Foi deposto, e dissolvida a República.»
Carlos Drummond de Andrade