06 fevereiro, 2011

Homilias dominicais (citando Saramago) - 27


Procurar um texto interessante de Saramago é coisa fácil. Cada livro seu e, em qualquer um, cada página sua e, em qualquer delas, cada parágrafo seu ou em cada frase, tudo é digno de reflexão. Nem o tempo lhe dá mofo nem as datas são dificuldades a superar, pois tudo o que lhe leio parece acabadinho de ser escrito. A actualidade é patente. As palavras sabem sempre a hoje, como se andasse por aqui... Eu até acho que andam, pois homens assim não há morte definitiva que os leve ou os cale...

HOMILIA DOMINICAL

"… Repito que não gosto de siglas. Já não seria pequeno defeito a sua demonstrada habilidade de exprimirem coisas contrárias entre si: onde o seu vicioso carácter fica a descoberto, é precisamente naqueles casos em que vão ao extremo de ocultar, apagar ou remover, por completo, o sentido daquilo que começaram por significar. Um exemplo, e basta: quem ainda hoje tem a certeza de que a ONU é apenas o modo abreviado de dizer Organização das Nações Unidas? Unidas? Deixai-me chorar.

Mas, já agora, não me queiram fazer acreditar a mim que o problema da mentalidade portuguesa se resolve com a entrada nesse reino da inteligência moderna que seria o Mercado Comum. À ideia não faltam adeptos que, em meu entender, não são de qualidade. Porque, a bem dizer, o que os move não é tanto quererem ser europeus como não gostarem de ser portugueses. No fundo, é esta a dolorosa verdade."

José Saramago, A Qualidade dos Vivos (1 de Fevereiro de 1985), in Folhas Políticas, página 128