20 fevereiro, 2011

Homilias dominicais (citando Saramago) - 28


Hoje tive uma certeza e uma dúvida. A certeza é que a memória, a minha, é um longo rio com margens por vezes diluídas. A dúvida é se sou eu, ou não, o mar onde a memória vem desaguar. Gostaria mais que desaguasse em quem me lê. Se de isso tivesse a certeza, à memória passaria a chamar testemunho.
--
(Por vezes acho que gostaria de escrever como Saramago. Contudo, basta-me a alegria de saber que ele escreveu com as palavras que eu uso...)
--
--
----
HOMILIA DE HOJE

“Do novelo emaranhado da memória, da escuridão dos nós cegos, puxo um fio que me aparece solto.
Devagar o liberto, de medo que se desfaça entre os dedos.
É um fio longo, verde e azul, com cheiro de limos, e tem a macieza quente do lodo vivo.
É um rio.
Corre-me nas mãos agora molhadas.
Toda a água me passa entre as palmas abertas, e de repente não sei se as águas nascem de mim ou para mim fluem.
Continuo a puxar, não já memória apenas, mas o próprio corpo do rio.
Sobre a minha pele navegam barcos, e sou também os barcos e o céu que os cobre, e os altos choupos que vagarosamente deslizam sobre a película luminosa dos olhos.
Nadam os peixes no sangue e oscilam entre duas águas como os apelos imprecisos da memória.
Sinto a força dos braços e a vara que os prolonga. Ao fundo do rio e de mim, desce um lento e firme pulsar do coração.
Agora o céu está mais perto e mudou de cor.
É todo ele verde e sonoro porque de ramo em ramo acorda o canto das aves.
E quando num largo espaço o barco se detém, o meu corpo despido brilha debaixo do sol, entre o esplendor maior que acende a superfície das águas.
Aí se fundem numa só verdade as lembranças confusas da memória e o vulto subitamente anunciado do futuro.
Uma ave sem nome desce donde não sei e vai pousar calada sobre a proa vigorosa do barco.
Imóvel, espero que toda a água banhe de azul e que as aves digam nos ramos porque são tão altos os choupos e rumorosas as sua folhas.
Então corpo de barco e de rio na dimensão do homem, sigo adiante para o futuro remanso que as espadas verticais circundam.
Aí ,três palmos enterrarei a minha vara até à pedra viva.
Haverá o grande silêncio primordial quando as mãos se juntarem às mãos.
Depois saberei tudo."

José Saramago, in “As Pequenas Memórias”, página 16