08 setembro, 2016

Com as aulas à porta, vamos ao que importa! - II


Sobre o ensino, não sei se há muitos estudos em curso a juntar aos muitos já publicados. Trabalhos escusados, pois já está tudo dito, escrito e reescrito. Só falta dar atenção à razão e ter vontade política.
Quanto ao dar atenção à razão, basta ler este testemunho (e enquanto houverem professores assim a esperança num novo ensino nasce todos os dias...)
«Vivia em Castelo Branco, em 1976, e só havia duas saídas para continuar a estudar: enfermagem ou o magistério primário. Entrei para o magistério. Comecei a leccionar em 1979, fui dar Telescola numa terrinha no concelho de Santiago do Cacém. Nem os bombeiros de Santiago do Cacém sabiam como lá chegar. Não tinha estrada, nem água, nem luz, nem geradores. E por isso não tinha televisão. Não podíamos prejudicar os alunos. Demos Telescola sem televisão, com as fichas que nos enviavam (com todos os esforços lá conseguimos que aparecessem uns geradores no final do ano lectivo e inaugurámos a televisão em Junho). Depois fui para Sacavém, também para a Telescola. Era para onde iam os meninos que não eram aceites no 2.º ciclo da Portela de Sacavém.
Fui mudando de escola todos os anos e ainda não estava muito convencida em ser professora. Mas no 5.º ano de trabalho apanhei uma turma de 4.º ano, em Lisboa, e os miúdos eram espectaculares. Era um grupo misturado, de meninos de diferentes classes sociais, aprenderam tanto, tinham tanto interesse, gostei tanto de os ver aprender que decidi que ia continuar.
Sou professora há 37 anos. Alguns dos meios em que trabalhei já nem existem, felizmente, porque havia naquela altura crianças em condições deploráveis. Fizemos uma evolução muito grande.
Hoje os miúdos são diferentes, claro. Mas continuam com muita vontade de aprender. São é menos focados. Há 30 anos eram muito focados na aprendizagem académica, sabiam que aquilo lhes ia dar possibilidades de ter uma profissão. Sabiam que estudando podiam ter mobilidade social, mesmo os pequeninos sabiam isso. Hoje verifica-se que muita gente licenciada não consegue emprego, nem pôr em prática os conhecimentos que adquiriu, não consegue sair da precariedade. Sim, os meus alunos são pequeninos mas absorvem tudo à sua volta.
Acompanho as crianças do 1.º ao 4.º ano. Chegam sem saber ler, escrever ou fazer cálculos e quando saem  alguns vão com uma bagagem incrível, são capazes de argumentar, de escrever o que pensam... é  uma coisa espectacular.
Vou pegar num 1.º ano este ano. Estou muito entusiasmada! O primeiro dia em que nos encontramos com os novos alunos é sempre um dia especial. Tenho muita curiosidade. Eles chegam ansiosos. Os pais também vêm muito ansiosos. E há necessidade de tirar todas estas ansiedades.
Os alunos passam cinco horas comigo, diariamente. Já escolhi as histórias que quero que sejam essenciais para estruturar a relação da turma neste ano lectivo. Também já sei onde quero chegar até ao Natal, a planificação dos objectivos está feita. Claro que depois depende sempre do grupo. Leva tempo conhecer as crianças. E tem de se pensar de modo a que nenhuma fique para trás. O trabalho do professor é um trabalho que nunca acaba. Um professor pode estar quase a dormir, na cama, muito descansadinho, e de repente ocorre-lhe: ‘E se eu fizesse aquilo com aquele menino?’
Os pais valorizam coisas diferentes das que valorizamos. Dizem: “Trabalho muito”... mas bastam dez minutos para mostrar atenção ao que o filho faz, para valorizar o que ele faz, para saber o que ele faz. Tenho pais aqui que trabalham imensas horas e percebe-se que sabem o que se passa com os miúdos. E há pais que passam o dia em casa, e nem por isso.
Sim sentem-se outras mudanças, por exemplo: o primeiro grupo que tive nesta escola há 13 anos tinha quatro ou cinco meninas que se acompanhavam umas às outras para irem e virem da escola para casa, teriam 6 ou 7 anos. Ensinei-lhes cedo que não deviam deslocar-se sozinhas e elas andavam em grupo. Nos grupos de meninos seguintes nunca mais tive ninguém que andasse a pé. Mesmo que morem perto. Os meninos vêm de carro, com os pais. Na minha opinião isto é mau. Mas percebo que os pais digam que não deixam os miúdos andar sozinhos. Em Portugal, o espaço público não está devidamente organizado para responder às crianças — se entra um grupo de miúdos pequenos num autocarro as pessoas começam todas a reclamar, a dizer que são barulhentos e que não respeitam ninguém, e a maior parte deles não são assim...
Os meninos têm hoje conhecimentos muito limitados do meio em que vivem. Pergunto-lhes no início do ano qual é o número que está escrito na porta da casa deles; a maior parte não sabe, nem nunca reparou que havia lá um número. Há muitos miúdos que não sabem o nome próprio do pai e da mãe, muito menos o nome completo. E onde é que os avós vivem? É já ali. Onde? Em Castro Daire. Para o menino que entra no carro, adormece e acorda em Castro Daire, a casa do avô é já ali. Não há uma noção das distâncias, é sempre preciso trabalhar muito com eles os percursos e as distâncias, mesmo da zona aqui à volta onde vivem. Não andam a pé, não sabem onde se compram as coisas, onde fica a loja disto ou daquilo, mesmo o Colombo, é aqui ao lado e há alunos nesta escola que nunca lá foram. Os meninos estão muito na sua “gaiola”. Mas não se aprende tudo no iPad.
A imagem do professor? Mudou muito. Mas foi intencional, da parte da classe dirigente houve um certo discurso... É que isto envolve dinheiro, sabe?

Conseguimos um Estatuto da Carreira Docente, ao fim de muita luta, um estatuto que nos reconhecia numa profissão, que dizia que tínhamos que ser licenciados, que definia uma carreira única... e de há dez anos a esta parte, além de congelarem as progressões na carreira, o estatuto começou a ser ameaçado. Estou no último escalão da carreira desde 2004, porque fiz uma licenciatura e um mestrado, mas a partir de 2006/2007 ninguém mais subiu e há professores neste momento que têm a idade que eu tinha quando cheguei ao topo e continuam no primeiro escalão.
E tivemos um colega aqui, com mais de 40 anos, que vinha de longe e levava 900 e poucos euros para casa... Não devia acontecer.»

Um trabalho da jornalista Andreia Sanches, que daqui saúdo