19 julho, 2019

Foi há 50 anos... mas não se chamava Apolo 11


Não, não se chamava Apollo 11. Seu nome? Vera Cruz. E sim, foi à 50 anos, como aqui reporto.

«7 – A alunagem. – Dia 20 de Julho seria um dia histórico para a humanidade, mas também para a desumanidade. Eu e o Meu Contrário não conseguimos lembrar-nos de todos os por-menores desse dia. Mas a Minha Alma, que tem memória selec-tiva, recorda todos os momentos sensíveis da aproximação a Luanda, capital da dita Província Ultramarina de Angola. A manhã estava particularmente agradável e ia aquecendo inten-samente com o passar das horas. Fora convidado para jantar na messe dos oficiais tripulantes. 
Não referi antes, mas a partir do terceiro dia deixei de tomar as refeições principais no refeitório de sargentos e passei a tê-las na companhia do oficial, que tinha a seu cargo a casa das máquinas do navio Vera Cruz. Era um bom amigo, vizinho e visita cerimoniosa de meus sogros. Insistiu para me dar do melhor quer em comida quer em conversas que se prolongavam sempre que a actividade de bordo o permitia. À hora da janta lá estava. O menu fora escolhido por mim, «Sopa do Fogo» regada por bom vinho. O jantar foi animado e todos seguíamos as notícias da rádio, que começou a reportar a alunagem seriam 8 horas da noite até que o feito era assinalado horas depois e já cerca das 3 horas da manhã com palavras: «Este é um pequeno passo para o Homem, mas um grande salto para a Humanidade.» Irónica, a Minha Alma dizia-me ao ouvido:
«Mais logo a humanidade dará mais um passo atrás!»
Irónico, Eu, também pensava:
«Se a lua anda. Se calhar Luanda não estará lá para eu alunar…»
Poucas horas depois pisava terras de Luanda, que não se arredara. Chegara, não ao fim mas ao início de outro caminhar, sem pensar que se teria ou não regresso, embora não fosse o risco de morte o que me ocupava a mente…»
 Rogério Pereira, in
"Almas Que Não Foram Fardadas"

4 comentários:

Maria João Brito de Sousa disse...

É sempre com muito agrado que releio estes trechos do teu "Almas Que Não Foram Fardadas".

Abraço

Rosa dos Ventos disse...

A memória relembra-nos a História!

Abraço

Ana Tapadas disse...

Um trecho belo e humano, sobre uma realidade que a nossa História não consegue apagar.

Beijinho

Fernando Ribeiro disse...

Eu assisti ao desembarque na Lua em direto pela televisão, aí por volta das duas ou três horas da madrugada. Senti-me verdadeiramente empolgado. Ainda hoje sinto um arrepio na coluna quando me lembro do que vi.

A minha partida para a chamada Província Ultramarina de Angola ocorreu no dia 13 de junho (dia de Santo António) de 1972, a bordo de um avião dos TAM, Transportes Aéreos Militares (ver aqui: https://ultimas-curiosidades.blogspot.com/2012/03/guerra-colonial-boeing-707-na-forca.html), tendo embarcado no Aeroporto Militar de Figo Maduro. Quando o avião levantou voo, vi diversos arraiais de Santo António espalhados por Lisboa. Em terra festejavam-se os santos populares e eu, no ar, ia a caminho da guerra com o coração apertadíssimo.

Em outubro de 1973 tive oportunidade de visitar o Centro Espacial da Mulemba, nos arredores de Luanda, que era um observatório pertencente a um homem extraordinário, chamado Bettencourt Faria, e que era a única estação de rastreio de satélites e astronautas da NASA que havia em toda a África. Como ainda não existiam satélites de comunicações em volta da Terra, uma rede de observatórios espalhados pelo mundo estabelecia contacto com os astronautas e com satélites de diversos tipos e fazia de ponte com a NASA por rádio em ondas curtas. Permita-me que o encaminhe para o post que publiquei no meu blog sobre o genial Bettencourt Faria e o seu incrível observatório angolano: https://amateriadotempo.blogspot.com/2006/05/bettencourt-faria-e-o-seu-centro.html.