05 maio, 2013

Para sempre

Para Sempre
Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
(Carlos Drummond de Andrade)

04 maio, 2013

Metamorfose - XIII (crisálida)


Ouviu as palavras que
lhe desenhavam um futuro 
medonho e duro

Rasgou-se-lhe o olhar
até à boca
Olhou sem querer ver 
Já nada mais lhe importava
do que a incerteza de vir a ser bela

Dentro, a alma,
converteu-se em crisálida
aguardando asas
... entregou ao silêncio
as forças resignadas
e sentou-se, ansiosa
à espera
da hora da telenovela

02 maio, 2013

1º de Maio, foi assim o dia passado...

Horas depois da rua, Arménio Carlos veio dizer que a luta continua... (o video não está disponível)
***
"Os donos do capital incentivarão a classe trabalhadora a adquirir, cada vez mais, bens caros, casas e tecnologia, impulsionando-a cada vez mais ao caro endividamento, até que sua dívida se torne insuportável." (Marx 1867, citado em Maio de 2012) 
"Não é preciso, portanto, dominar grande aritmética para perceber que o problema não está na taxa de juro, mas na dívida que é grande" (Passos Coelho, 1 de Maio de 2013) 
"a sociedade aguenta tudo" (D. José Policarpo, 19 de Fevereiro de 2013) 
"Não é só a falta de trabalho que retira dignidade à vida, é a falta de horizontes e de perspectivas.(...)  O mundo laboral vive hoje debaixo de um sentimento de medo que condiciona e obriga a aceitar todas as regras e todas as imposições. Não podemos permitir que isto aconteça. Não podemos permitir que ter um emprego, seja ele qual for e em que condições, se torne uma atitude de resignação." (Cáritas, 1 de Maio de 2013)
"Os sindicalistas modernos parece que já não lêem Marx, mas os super-ricos, esses, continuam a ser praticantes fervorosos da religião da luta de classes." (Viriato Soromenho, 1 de Maio de 2013)

01 maio, 2013

1º de Maio, dia de luta e de comportamentos kafquianos


Tenho dado titulo de poema à palavra "Metamorfose". Em tempos kafquianos foi erro fazê-lo. Hoje, 1º de Maio, vou estar onde (quase) todos os amigos pensarão que eu vá estar. Vou, mas olho para o outro lado e fico arrepiado com a imagem de festividade anunciada, onde não falta nada. Folclore, bombos, atracções musicais e não sei que mais, como se em tempos de empobrecimento e de perda de direitos houvesse que festejar os sacrifícios tidos para os  conquistar. Diz-se sindicalismo independente. E eu percebo... e confirmo o entendimento de haver o meu e o outro lado:
"(...) Nos últimos trinta anos, a paisagem económica mudou. E, com o atraso habitual, mudaram os ingredientes sociais e a arquitectura política. Muita gente, entre os quais se conta uma multidão inumerável de pequenos e médios empresários, e, certamente, quase todos os dirigentes sindicais europeus, ainda julga que capitalismo e economia de mercado são a mesma coisa. Julgam que a impossibilidade de obterem crédito é uma coisa passageira. Consideram que a actual austeridade é da ordem da conjuntura. Esquecem que o sistema financeiro que não empresta é o mesmo que já custou 4 500 000 000 000 de euros aos contribuintes europeus, não contando com as operações de engenharia do tipo das swap, que acabam sempre no défice público. Os indicadores que nos chegam dos EUA, da Europa e do resto do mundo, incluindo a China, mostram que o capitalismo de hoje deslocou a sua imaginação da esfera da produção de riqueza, onde se revela cada vez mais incompetente e relapso de imaginação, para se concentrar com afã na redistribuição de riqueza disponível, concentrando-a nas mãos de uma superminoria, à custa do empobrecimento das classes médias e da fragilização do trabalho. Os sindicalistas modernos parece que já não lêem Marx, mas os super-ricos, esses, continuam a ser praticantes fervorosos da religião da luta de classes." Viriato Seromenho Marques, in "Metamorfose"