03 janeiro, 2013

Se eu pintasse...

Já há alguns largos meses referi ter reprodução desta pintura, comentando não saber o porquê de lhe ter estima. Hoje dou comigo a deambular por outras obras do autor e a meio do percurso veio-me uma resposta: talvez algures exista um paraíso, talvez... e a vontade de quem quer que ele à viva força exista produz a maravilha de ele pintar a realidade como tal. Sempre que se quer muito uma coisa, tendemos a inventá-la, o que não é nada recomendável...
Ah, e invejei tremendamente a arte do pintor. Se eu pintasse... 


NOTA DE ADITAMENTO À EDIÇÃO: Transcrevo de um excelente estudo sobre a obra de Gouguin o que realmente sinto: 
"Todo artista busca seu Taiti, mas apenas Gauguin o encontrou e ninguém mais poderá encontrá-lo enquanto tudo aqui não for transformado, de modo que cada um possa criar em qualquer parte seu próprio Taiti imaginário." 
Georg Lukács (ler aqui)

02 janeiro, 2013

Cavaco Silva e o "nó górdio", do qual ninguém nos é capaz de livrar... até que nos livremos dele...


O DN, na página 3, sob este titulo, escrevia as reacções. na coluna ao lado, dizia o Viriato: "... o Presidente da República, na sua Mensagem de Ano Novo, recomendou, no meio da tormenta nacional e europeia, a Nação inteira à graça de uma intervenção providencial..." e terminava "...Com esta mensagem, a quilha já bateu no fundo."

E agora o meu pensamento, avinagrado e profundo: 
"É meu sentir que Passos Coelho, Portas, Seguro e Cavaco, terão subido cadeiras, comido passas ou subido escadas, com o desejo comum de, por não saberem (ou quererem) desatar o "nó górdio" em que estamos metidos, que o faça alguém divino. Como não sou supersticioso e a minha religião é terrena, acho que o tal nó será desatado quando o povo resolver entrar em cena."
 disse, para memória futura

01 janeiro, 2013

Mensagem de Ano Novo... deixada pelo próprio

Imagem StreetArt Child

"Trago do Ano Velho tudo o que tenho, e é pouco, como mostro. Não me tirem mais!, eu troco..." - Disse o Ano Novo. Mas ao chegar, disse mais. Eis a mensagem:
"Troco este rádio pelos esqueletos que guardas no armário. Troco o meu brinquedo pelo teu medo, e o o meu colar pelos fantasmas que não largas. Dou-te o meu boné se me deres as teias em que te enleias. Dou-te todas as minha miseras roupas se me vestires com teu sorriso. Dispenso-te minhas pobres botas se jurares percorrer caminhos que não ousaste.  
Não trocas todas estas tralhas por tudo isso a que te agarras? Vá, pensa!, tudo o que te proponho não tem de acontecer agora. Vamos trocando pelo ano fora. Vamos trocando? Vamos? 
Ah, e esta rua é também tua. Usa-a já. Vá!"
Assim falou o Ano Novo quando chegou 

31 dezembro, 2012

Mais um ano... cai o pano (em dia de aniversário)


Um aniversário festejado...

A mesa ia sendo retocada pela Vizinha do 4º andar e pela Dona Esmeralda. As meninas das Conversas da Esplanada iam engalanando a sala. A pouco e pouco os convidados foram chegando e o Rogérito, que é da casa, ia abrindo a porta. 330 vezes a campainha tiniu  330 vezes o menino a porta abriu. O senhor engenheiro ia entretendo o tempo, falando com o Ano Velho, enquanto o seu cão rafeiro ia procurando caricias aos que chegavam. Ao fim de alguns minutos, a sala passou de um murmúrio a uma autêntica feira, tal era a conversa pegada em que transformara a casa. Falaram de tudo e de nada. Falaram e gargalharam, saboreando os "coquetailes" que Eu, Minha Alma e Meu Contrário íamos  distribuindo. Iam na terceira rodada e foi feita uma saúde, e a larga sala sala encheu-se de tchim-tchim, com sorrisos dirigidos para mim. Até que alguém se lembrou e gritou: "discurso!, discurso!". O grito de pronto se alargou...

...e Eu dei a palavra ao Tempo. O Velho Ano, surpreendido,  olhou Minha Alma nos olhos e fez o que lhe foi pedido:
Meus caros amigos, sabendo embora que está quase chegada a hora de me ir embora, aproveito a oportunidade que me é dada para vos deixar palavras medidas e reflectidas. Vou ser acusado de ter sido um mau, muito mau ano. Nada de mais errado atribuir ao Tempo aquilo que está fora das suas competências. Não sou o causador de vossas rugas, quem as marca no vosso rosto é a vida. Não sou o causador das vossas dores, sois vós próprios, caras senhoras e caros senhores. Sois vós próprios e as vossas circunstâncias, e mesmo estas não me podem ser imputadas. O tempo, este vosso servo, apenas é uma referência intangível a quem nada é exigível. Ninguém até hoje me tocou. Ninguém até hoje me fotografou, desenhou ou me descreveu a rigor. Contudo existo, mas apenas marco referências de factos ocorridos, de actos omissos, de oportunidades tidas ou perdidas. E logo, quando cada badalada for ouvida, das doze que serão escutadas, não esqueçam de juntar aos vossos doze desejos, palavras minhas: Que cada desejo não entregue ao tempo anseios que dependem de gestos. O tempo nunca resolveu nada que os povos não tenham querido resolver. Que cada um saiba o que de importante pode e deve fazer. Que a sabedoria vos ilumine. 
São os meus votos.
A sala fez-se em silêncio, talvez com 330 consciências procurando no fundo do coração e da alma, os gestos necessários que lhes cumprirá realizar, para o Ano Novo que não tarda a chegar.  Faço meus os votos do Velho Ano.

Cai o pano, sobre este ano