31 agosto, 2020

O susto


O medo não tem nada dentro, o susto sim. O susto que tem dentro um forte ruído, pode ser grande mas passa logo. O susto pode ter dentro algo que se prolonga no tempo e, assim, durante todo esse tempo um gajo anda permanentemente assustado. Resumindo eu não tenho medo, ando é assustado. E a somar a esse susto (que agora não vem ao caso) hoje safei-me de outro, "à tira". Era o último dia para pagar o IRS... estava à rasca. O papel com o milagroso código para dar vazão ao desembolso pairava em lugar que só a ausente (minha ministra das finanças) saberia onde estava. Poupando-a a questões irrelevantes, pedi uma 2ª via. Mas nunca mais chegava o dia de ver a tal segunda via. Até que pensei que se Maomé não vem ter com a montanha, tem esta que se dirigir ao tal... E lá conseguir ir por caminhos sinuosos, no portal da Autoridade Tributária, obter a 2ª via e... pagar!

(a foto acima está exagerada, eu mesmo assustado fico bem penteado...)

29 agosto, 2020

CANÇÃO DE MADRUGAR

Sei dos teus olhos acesos na noite
Sinais de bem despertar
Sei dos teus braços abertos a todos
Que morrem devagar
Sei meu amor inventado que um dia
Teu corpo pode acender
Uma fogueira de sol e de fúria
Que nos verá nascer

Irei beber em ti
O vinho que pisei
O fel do que sofri
E dei, dei

Dei do meu corpo o chicote de força
Rasei meus olhos com água
Dei do meu sangue uma espada de raiva
E uma lança de mágoa
Dei do meu sonho uma corda de insónias
Cravei meus braços com setas
Descobri rosas alarguei cidades
E construí poetas

E nunca, nunca te encontrei
Na estrada do que fiz
Amor que não logrei
Mas quis, quis

Sei meu amor inventado que um dia
Teu corpo há de acender
Uma fogueira de sol e de fúria
Que nos verá nascer

Então nem choros, nem medos, nem uivos, nem gritos, nem Pedras, nem facas, nem fomes, nem secas, nem Feras, nem ferros, nem farpas, nem farsas, nem Forcas, nem cardos, nem dardos, nem guerras, nem
Choros, nem medos, nem uivos, nem gritos, nem Pedras, nem facas, nem fomes, nem secas, nem Feras, nem ferros, nem farpas, nem farsas, nem mal

Ary dos Santos


28 agosto, 2020

Mesa Redonda (10) - Tema: O Ânimo

Apresentação, contar da esquerda: Eu, Meu Contrário e Minha Alma

Eu (virado para a assistência, com a sala meio vazia): Esta Mesa Redonda foi-nos imposta não só pelo momento que estamos vivendo como também pela necessidade de criar entre nós os três a sintonia que nos tem faltado. Dou primeiro a palavra a Minha Alma: 

Minha Alma (apanhada desprevenida): Para a próxima, marca a nossa discussão com agenda do dia, para que possa estar preparada. Quanto à falta de sintonia a culpa é dele (e aponta o Meu Contrário). A mim, não me tem faltado as manifestações de esperança e confiança.
Meu Contrário (olhando Minha Alma fixamente): Bem sabes, que tais sentimentos são passivos. A esperança é um esperar acontecer. A confiança, remete para outros o tudo o que possa ser feito. Precisamos de tudo isso, mas a palavra de ordem deve ser "ânimo". É com ânimo que animamos. Animamo-nos a nós e aos outros... 
Minha Alma (interrompendo): E se estivermos perante uma saída impossível?
Eu e Meu Contrário (em coro): Ânimo! O impossível é tão só e apenas aquilo que ainda não aconteceu...

(... e os três saímos dali cheios de ânimo!)

27 agosto, 2020

FRÁGIL

 FRÁGIL/SINTO-ME FRÁGIL*

Põe-me o braço no ombro
Eu preciso de alguém
Dou-me com toda a gente
Não me dou a ninguém
 
Frágil
Sinto-me frágil
 
Faz-me um sinal qualquer
Se me vires falar demais
Eu às vezes embarco
Em conversas banais
 
Frágil
Sinto-me frágil
 
Frágil
Esta noite estou tão frágil
Frágil
Já nem consigo ser ágil
 
Está a saber-me mal
Este whisky de malte
Adorava estar in
Mas estou-me a sentir out
 
Frágil
Sinto-me frágil
 
Acompanha-me a casa
Já não aguento mais
Deposita na cama
Os meus restos mortais

 

 
Frágil
Sinto-me frágil
 
Frágil
Esta noite estou tão frágil
Frágil
Já nem consigo ser ágil
 

 

Jorge Palma
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* Foi ontem, 
hoje está-me a saber bem
este whisky de malte
estou mais in e menos out