02 janeiro, 2011

Homilias dominicais (citando Saramago) - 22

Tendo cada vez mais a imitar-lhe as ocupações, os desassossegos, as palavras reflectindo nelas e imaginando como ele o faria antes de as escrever... Ponho, ou tento pôr, as mesmas interrogações que, imagino, ele a si próprio colocaria. Claro que se não fosse a Minha Alma não teria o atrevimento de procurar as palavras que o meu Nobel usou, ou pensaria usar, para prolongar o balanço que já fiz de um ano a escrever neste espaço. Vou mais uma vez seguir José Saramago. Porquê? Não digo. Se explicasse tudo o que faço e porque o faço iria certamente aborrecer-vos com as minhas dúvidas existenciais... Assim, o balanço dele sobre 2008, passa a ser o meu sobre o ano passado. As coisas não mudaram assim tanto e eu tenho as mesmas inquietações...
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HOMILIA DE HOJE

"Valeu a pena? Valeram a pena estes comentários, estas opiniões, estas críticas? Ficou o mundo melhor que antes? E eu, como fiquei? Isso esperava? Satisfeito com o trabalho? Responder “sim” a todas estas perguntas, ou a mesmo só a alguma delas, seria a demonstração clara de uma cegueira mental sem desculpa. E responder com um “não” sem excepções, que poderia ser? Excesso de modéstia? De resignação? Ou apenas a consciência de que qualquer obra humana não passa de uma pálida sombra da obra antes sonhada. Conta-se que Miguel Ângelo, quando terminou o Moisés que se encontra em Roma, na igreja de San Pietro in Vincoli, deu uma martelada no joelho da estátua e gritou: “Fala!” Não será preciso dizer que Moisés não falou. Moisés nunca fala. Também o que neste lugar se escreveu ao longo dos últimos meses não contém mais palavras nem mais eloquentes que as que puderam ser escritas, precisamente essas a quem o autor gostaria de pedir, apenas murmurando, “Falem, por favor, digam-me o que são, para que serviram, se para algo foi”. Calam, não respondem. Que fazer, então? Interrogar as palavras é o destino de quem escreve. Um artigo? Uma crónica? Um livro? Pois seja, já sabemos que Moisés não responderá."

Balanço in Caderno de José Saramago/5 de Janeiro de 2009