06 janeiro, 2011

Um caçador de bolso, mas grande...

Fui buscar este caçador à margem sul, onde existe um mar arável. Silencioso, não lhe descobri qualquer palavra até chegar a casa. Depois, dia após dia, foi-me desenrolando prosas de encantar. Contou-me como eram os ternos olhos dos câes, como conheceu o cego das esquinas, como se cruzou com a senhora da limpeza e, antes de revelar os seus segredos de caçador de relâmpagos, como se rendera à senhora ministra. Meti-o no bolso para o continuar a ouvir em qualquer lugar e foi hoje que isso aconteceu:

A DUNA SOU EU

"Enquanto aquele anjo permanecer nas areias, bem pode o vento soprar
- O cão ou o velho?
Lentos, trôpegos, com os pés a tracejarem os caminhos de sempre, todos os dias aquelas almas percorriam memórias.
O cão – mais velho que o dono – era o guia, a sua bengala de cego.
Pela orla da praia, desde a gruta onde viviam até à colossal duna, abrupta sobre as águas, as aves marinhas mergulhavam a pique esbracejavam só para os salpicar. Lá iam, serenos, livres, sem palavras – imensos.
No ar, o sussurro dos silêncios embalava-lhes os passos num concerto de maresias.
Chegados ao topo da montanha era sempre assim – o velho afagava as orelhas do cão e o cão lambia-lhe as mãos.
Sentados – respiravam infinitos – o perfume das algas – adormeciam no tempo.
Ao longe, muito ao longe, alguém de um barco bramou:
- Fuja, a duna vai desmoronar-se.
Imperturbável, respondeu baixinho para não acordar o cão:
- A duna sou eu. "
--
Contado por Eufrázio Filipe in "O Caçador de Relâmpagos"/pág. 54