16 janeiro, 2011

Homilias dominicais (citando Saramago) - 24

O diabo transfigura-se. Parece um deus renascido e as palavras parecem ser novas e igualmente renascidas. O inferno é o mesmo, mas anuncia-se como sendo outro amanhã e logo, hoje, as chamas parecem brandas. "Tu és os nosso deus" há quem diga...Os não enganados denunciam o cenário, os modos e os perigos. E logo todos os doutos senhores, os jornais, leitores e seguidores os titulam: "conservadores, repetitivos e incapazes de inovação". Assim, decorre a campanha. Curiosamente repetitiva, como se a democracia se tivesse convertido na cassete disfarçada por uma demagogia, também ela reinventada. Foi assim a eleição em 1986. Parece hoje...

HOMILIA DOMINICAL

"(...) De democracia enchem os políticos a boca deles e os nossos ouvidos, de demagogia fala-se pouco, apesar de tanto se praticar.
(...) Diz, pois, o dicionário de Aurélio que a democracia é a «doutrina ou regime político baseado nos princípios da soberania popular e da distribuição eqüitativa do poder, ou seja, regime de governo que se caracteriza, em essência, pela liberdade do ato eleitoral, pela divisão dos poderes e pelo controlo da autoridade, isto é, dos Poderes de decisão e execução», o que resumindo em três Palavras, equivale a dizer «governo do povo». Suponho que Os Cinco candidatos à Presidência da República conhecem, por igual, a letra desta definição, embora não duvide que tenham dela entendimentos diferentes e, em alguns casos, irredutivelmente contraditórios. Coisa que logo se verifica quando, na mesma página do dicionário, encontramos a outra palavra em questão, demagogia, que é um «conjunto de processos políticos hábeis tendentes a captar e a utilizar, com objetivos menos lícitos, a excitação e as paixões populares», e também «afetação ou simulação de modéstia, de pobreza, de humildade, de desprendimento, de tolerância, etc.», cabendo aqui, claro está, o mais que a nossa experiência de vida como alvos destes métodos já nos ensinou.
Temos, pois, cinco candidaturas, e também um conjunto de definições consensuais, como carapuças que podem ser enfiadas... "

José Saramago, in "Folhas Politicas", pág. 153 - Democracias e Demagogias (23 de Janeiro de 1986)