10 dezembro, 2016

A José de Castro, a parte que faltava a uma sentida homenagem.


Prometi imagens e ei-las aqui, num outro lugar. Neste espaço, basta-me esta. Retrata um ponto elevado e que deixa a assistência em pose quase litúrgica (exceptuando a minha). A vereadora (como já referi) declama. Entre mim e Eunice caberia uma multidão, soubesse da romagem o  povo de Paço de Arcos e ele ali se juntaria, a ouvir versos belos de Herberto Helder,:
«...Sorri assim o actor contra a face de Deus.
Ornamenta Deus com simplicidades silvestres.
O actor que subtrai Deus de Deus, e
dá velocidade aos lugares aéreos.
Porque o actor é uma astronave que atravessa
a distância de Deus.
Embrulha. Desvela.
O actor diz uma palavra inaudível.
Reduz a humidade e o calor da terra
à confusão dessa palavra.
Recita o livro. Amplifica o livro.
O actor acende o livro.
Levita pelos campos como a dura água do dia.
O actor é tremendo.
Ninguém ama tão rebarbativamente como o actor.
Como a unidade do actor...»

 Sobre o actor, e para quem seja ele um desconhecido, procurei palavras que lhe dessem da curta vida os actos que lhe merecessem homenagem tão sentida.  Do que apurei podia ser esta a síntese a caber na sua lápide:
José de Castro, nasce em Paço de Arcos, no dia 16 de Novembro de 1931 e Morre no dia 6 de Outubro de 1977, com 46 anos de idade, no seu funeral, levou sobre o seu caixão, uma bandeira do PCP.
 Dados mais apurados constam da memória d´OS BARDINOS
JOSÉ DE CASTRO
ACTOR, (1931-1977)

José de Castro, pseudónimo artístico de José Manuel Pinhanços (em homenagem a um médico amigo, Ernesto Castro e Silva), nasce em Paço de Arcos, no dia 16 de Novembro de 1931.

Casa Bonvalot, onde nasceu José de Castro.

Moradia onde passou a maior parte da sua vida.

"Conheci-o desde bebé", recorda Isabel de Carvalho, ex-actriz, conhecida em Paço de Arcos pela Bebé (chegou a ser primeira figura do Teatro Nacional).


Mascarado, num Carnaval em Paço de Arcos.
Mais tarde, depois da escola primária, frequenta o Colégio Portugal, na Parede, onde já se vai destacando nas récitas escolares.

Na adolescência, em casa com os pais.

Uma sua professora, Manuela Fernandes, que lhe dava explicações convenceu-o a entrar numa peça da escola chamada "O Farrabás de Alexandra". José de Castro não queria, mas lá foi convencido e entrou pela primeira vez em palco. E nunca mais parou.

Mais tarde, em Janeiro de 1952, foi convidado pelos responsáveis pelo grupo cénico do Clube Desportivo de Paço de Arcos, para protagonista do espectáculo "Multa Provável", de Ramada Curto, com o qual participa num concurso do SNI para amadores dramáticos de todo o país, tornando-se então profissional.

O elenco da peça "Multa Provável", no CDPA.

Um dos elementos do júri do concurso, Maria Lalande, oferece-lhe um lugar na sua companhia, que funcionava no Parque Mayer, onde se estreia no Maria Vitória, com a peça "A Hipócrita". Tinha 17 anos.

No Clube Desportivo de Paço de Arcos participa ainda noutra peça, "As Duas Causas", numa altura que o clube tinha na sua equipa de hóquei em patins nomes como Emídio Pinto, Jesus Correia, Correia dos Santos e outros.
Representação da peça "Multa Provável", no CDPA.
Distingue-se à direita, o hoquista Emídio Pinto.

Festa no CDPA, com o avô Manuel Pinhanços, os pais e os tios.
Através da actriz e empresária Alma Flora, participa numa digressão a Angola e Moçambique.

Faz entretanto o serviço militar em Lisboa, a partir de Setembro de 1954.


Em alegre convívio com Jesus Ortega,
Edmar Pires e Cremilda Gil.

Da esq. para a dt.: José de Castro, Joly Braga Santos, Nuno Barreiros,
Maria Helena de Freitas, maestro Luís Freitas Branco, dr. Ernesto
Castro e Silva, a mulher Maria Antónia com a filha,
e Óscar Castro e Silva.


José de Castro, nas suas diversas facetas como actor, actua também no "Frou-Frou", um café-concerto dirigido por Sérgio de Azevedo, onde participa no musical "Esta Noite às 11", incarnando "Chez Madame Artur".

Faz uma digressão pelos Estados Unidos e Canadá, juntamente com Simone de Oliveira e Io Apollony, entre outros.

Os discos também registam a sua voz em dez deles, declamando poemas em cinco, três com números de revistas, e dois com textos didácticos.

José de Castro trabalhou nas empresas de Maria Lalande, Alma Flora, Vasco Morgado, Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro, Teatro Estúdio de Lisboa, Companhia Portuguesa de Comediantes, de Sérgio de Azevedo, José Miguel, Somos Dois, Gente Nova em Férias, Teatro Experimental de Cascais e Teatro Maria Matos.

No cinema participa em três filmes: "29 Irmãos", de Augusto Fraga, "Poly au Portugal" e "Santa Aliança", de Eduardo Geada.



No filme "29 Irmãos".

Na RTP, José de Castro contracena com Amália Rodrigues na peça de teatro "A Sapateira Prodigiosa", e com Mariana Rey Monteiro em "O Rei Está a Morrer". Faz outras peças de tele-teatro, nomeadamente, "História de um Jardim Zoológico", "Seara de Vento", "Sinfonia Incompleta", "Noite de Natal" e "Legenda do Cidadão Miguel Lino".

Aliás, este trabalho, "Legenda do Cidadão Miguel Lino", de Miguel Franco, que subiu à cena em 1975, no Teatro Maria Matos, foi a sua última peça.


Com Benjamim Falcão e Vitor de Sousa,
na sua última peça, "Legenda do Cidadão Miguel Lino",
em 1975.


Pouco tempo depois é operado em Santa Maria. Uma recaída leva-o de novo ao hospital.

Morre no dia 6 de Outubro de 1977, com 46 anos de idade, no Hospital de Santa Maria, vítima de cancro no pulmão. Sabia que o seu cancro era mortal, mas nunca quis que os que o rodeavam, o percebessem. Nunca se lamentou, nem nunca deixou de fumar!

Foi sepultado no Cemitério de Oeiras, e no seu funeral, levou sobre o seu caixão, uma bandeira do PCP.

Foi galardoado com o Prémio da Crítica pelas peças "Processo de Jesus" e "O Rei Está a Morrer"; recebe também o Prémio Eduardo Brasão por "Romeu e Julieta" e o Prémio da Imprensa, por "O Tempo e a Ira".


"O Rei Está a Morrer", Prémio da Crítica.

Recebeu ainda o "Prémio de Imprensa" (1958/1964/1968/1970) e o de "Melhor Actor Português" (1962/1972).

Amigos e admiradores contribuem para a execução de um monumento em sua memória, da autoria do escultor Joaquim Correia, e situado na Praça 5 de Outubro, na sua terra natal, Paço de Arcos, tendo sido inaugurado a 25 de Maio de 1989.



Conjunto escultórico dedicado a José de Castro,
em Paço de Arcos.
 
Após uma curta passagem por salas de Vasco Morgado, José de Castro ingressa no Teatro Nacional D. Maria II, que era dirigido por Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro.


Ao lado de Amélia Rey Colaço,
em "Comediantes".


Aqui tem a oportunidade de, a partir de 1956, incarnar diversas personagens nas seguintes peças: "As Velhacarias de Scapin", "Clara Bonita", "Alguém Terá de Morrer", "Amor à Antiga", "A Castro", "A Ferida Luminosa" e "As Bruxas de Sálem".

"Ele vivia para representar e representava para viver", diria mais tarde Mariana Rey Monteiro.

Conhece Amália Rodrigues e sentem-se atraídos um pelo outro. Amália sonhou mesmo em casar com ele. "Durante quase dez anos tivemos uma grande amizade...", confidenciou uma vez Amália ao jornal Diário de Notícias.

Com Amália Rodrigues, numa festa de Carnaval.


Com Amália, entre a tia Lucrécia e a mãe.


A carreira internacional de Amália e a indecisão de José de Castro acabam por os afastar em definitivo.

Os êxitos sucedem-se uns a seguir aos outros: "Comediantes", "O Processo de Jesus", "O Tio Simplício", "Intriga e Amor", "O Lugre", "A Visita da Velha Senhora", "Entre Giestas", "Do Alto da Ponte", "D. Henrique de Portugal", "O Pescador à Linha", "Romeu e Julieta", "Furacão Sobre o Caine", "O Sr. Biederman e os Incendiários", "Um Eléctrico Chamado Desejo", "As Divinas Palavras" e "A Espada de Cristal".

É contratado por Ribeirinho, para o Teatro Nacional Popular, percorrendo com alguma regularidade todo o país.

Faz no Teatro Monumental, juntamente com Laura Alves e Madalena Sotto, a peça "É Proibido Suicidar-se na Primavera", e com Brunilde Júdice, a peça "O Pobre Mentiroso".

Novamente ao lado de Laura Alves e João Villaret representa em "Sua Alteza" e em "Dez Convites Para a Morte".


Juntamente com João Villaret,
numa festa popular.


Em 1970, no Teatro da Trindade, ao lado de Mariana Rey Monteiro, representa "O Rei Está a Morrer", de Ionesco, e "Calígula", de Camus, criações essas que são o seu pico de representação, atingindo a genialidade. Ionesco veio a Lisboa para o ver e disse que tinha sido o melhor intérprete da sua obra que tinha visto.


Em "O Rei Está a Morrer", com Elisa Lisboa.


"Calígula", no Teatro da Trindade, em 1971.


Quando representava "O Rei Está a Morrer", recebe, durante o intervalo de um dos espectáculos, a notícia do falecimento do seu pai. Voltou à cena e, diz quem viu, representou divinamente.

Seguem-se outros marcos de representação importantes na sua carreira: "Verão e Fumo", "As Raposas", "O Homem Que Fazia Chover", "Joana Lorena", "O Tempo e a Ira", este no Teatro Experimental de Cascais.

Lourdes Norberto, que contracenou com ele em "O Tempo e a Ira", disse dele: "Foi um dos actores mais invulgares, mimados e supersticioso que conheci".

Entra também no teatro de revista: "Noivas de Santo António", com Raúl Solnado, e "Mãozinhas de Veludo", com Carlos Cunha, foram números que ficaram na memória de todos.

"As Noivas de Santo António", com Raúl Solnado.


"Mãozinhas de Veludo", contracenando
com Carlos Cunha.


Volta a Angola e Moçambique em 1970, com Eunice Muñoz e Alberto Vilar, representando as peças "Dois Num Baloiço", "Os Dactilógrafos", "O Homem de Flor na Boca" e "Oração".
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