"A reestruturação de uma dívida soberana é sempre algo desordenado e confuso, complexo e mesmo feio. Mas é melhor do que um estrangulamento em ritmo lento da economia grega", afirmou ao Expresso Charles Wyplosz, professor de Economia Internacional no Graduate Institute, em Genebra
MAS HÁ DADOS NOVOS, NOS ALERTAS, (já depois do "bom acordo" de resgate assinado):
"O risco de incumprimento da dívida soberana portuguesa subiu para perto dos 42%, ultrapassando o risco atribuído ao Paquistão. Portugal regressa, assim, ao 4º lugar no "clube" dos 10 de maior risco à escala mundial", segundo o monitor de probabilidade de incumprimento da CMA Datavision
"Juros da dívida pública portuguesa renovam máximos - Os juros exigidos pelos investidores para comprar dívida soberana portuguesa com maturidade a dez anos estavam a ser negociados, na manhã desta sexta-feira, nos 9,715 por cento, atingindo um novo máximo histórico", refere a Bloomberg.
COMO QUALIFICAR BOM UM ACORDO. QUE NÃO COBRINDO A TOTALIDADE DA DIVIDA, NÃO CONSEGUE ESTANCAR A PRESSÃO? SE NÃO SE DER ATENÇÃO AO FAROLEIRO, ISTO VAI MESMO PARA O GALHEIRO...
08 maio, 2011
Que luz vem do farol? Que dizem os faroleiros? - (2)
07 maio, 2011
Sábado. Tudo se passa, como se não se passasse nada...
O menino brincava com o comboio que o maravilhava, mas não andava. Ela, de cabelo em desalinho, parecia pensar pois seu olhar, parado, pairava no ar. Numa mão segurava o pão e nesse ar para onde olhava, pairava o cheiro a torrada que ninguém comeu. Na televisão, sem som (como de costume), um politico, hirto e com ar convencido e solene, gesticulava em gesto breve, talvez sublinhando uma frase importante. No sofá, a revista Caras pousava sobre o jornal "A Bola", ambos fechados esperando o gesto de ser lidos. Ele retirou os olhos do computador disse com voz soletrada: "Cá está", e continuou, " T3, perto da praia com piscina e parqueamento privativo, perto do golf e do polidesportivo". O menino continuava a brincar. O cão, deitado ao canto, fez a décima tentativa para dentar a mosca que voando lhe escapava. Desistindo, pela décima vez colocou, pachorrento, o focinho sobre a pata dianteira sem sinais de enervamento. O canário, na gaiola, não cantava e o sol estava escondido, como se ainda estivesse dormindo. Ela, que não tinha respondido à descoberta do marido, disse sem voz autoritária, como se a não obediência não lhe interessasse nada. "Vá meninos, toca a arranjar, senão vamos chegar atrasados à festa de anos". Tocou o telemóvel, o terceiro a contar da esquerda dos que estavam postados no chão, junto aos comandos de televisão. Ela lentamente, imitando a dolência do cão, apanho-o e atendeu: "Sim!, ah essas coisas são com o meu marido" e de pronto estendeu o pequeno aparelho ao marido, dizendo "è para uma sondagem, responde tu que tens mais jeito". Ele ia respondendo, ela foi-se alindar e vestir o menino. Só ele iria ficar responsável por chegarem atrasados à festa de anos...06 maio, 2011
Que luz vem do farol? Que nos dizem os faroleiros?
Num post de há poucos dias atrás, falava do paradigma do rumo "inevitável" e da "certeza" dessa inevitabilidade por parte de todos os que iam na barca - representação figurada daquela parte do país condicionada à opinião única e ao pensamento dominante. Escrevia aí, que poucos ficaram em terra, auto-excluindo-se da barca, pelo que (reconheço agora) a figura da barca deixava uma ambiguidade grave: a barca significava o país ou apenas o paradigma em que uma parte dele vive, com a definição (também já feita) do que entendo ser essa coisa de paradigma, palavra tão pouco frequente entre muito douta gente. Escrevo agora a desfazer equívocos fazendo-o num botequim canarinho, rodeado de gente amiga e quase me cruzando com Mia Couto, que acabado de sair daquele lugar deixava palavras no ar: "O Brasil vai ser a nossa estrela guia", era o que dizia, deixando-me a angústia de o não poder repetir, preso ao lado do paradigma que me deixa amarrado a esta Europa lorpa e a braços com um outro lado que é o resultado das agências de rating já traduzido num plano de resgate que nos evita, por uns tempos, a bancarrota. O terceiro lado da paradigma, enfabulando (lembra-se do video?)o que se passava na terra dos ratitos que só elegem gatos para os governar, degladiam-se os partidos credíveis (os gatarrões) sobre as estratégias eleitorais e outras coisas mais daquelas que são usadas para obter votos dos ratos e de caneta aprontada para assinar o resgate e o fazer aprovar na Assembleia. Os fazedores de opinião (o quarto lado do quadrado) mostram-nos diariamente com uma insistência frequente, não vão os ratitos pensar fora do que a inevitabilidade forjada possa ser contestada... Deixemos as imagens e as metáforas por momentos (a custo o faço) e falemos um pouco mais directamente: QUEM SÃO E QUE DIZEM OS FAROLEIROS SOBRE O PROCESSO DE SALVAÇÃO ?
Eram de inicio poucos ou poucos eram os que acendia luzes de alerta no nevoeiro. Traduzindo a imagem pelo significado. Só os partidos da esquerda (que chamam de radical) se opunham à chamada de estrangeiros para a "ajuda" externa. Até que a imprensa estrangeira acende faróis. Ao farol New York Times, segue-se o Daily Telegraph e agora o Le Monde Diplomatique. Dizem estes faroleiros o que os fazedores de opinião calam, limitando-se os jornais portugueses a dar pequeno espaço aos alertas dados pela esquerda: o processo é antidemocrático e o pacto, assinado por um governo demitido (eventualmente aprovado por uma Assembleia já dissolvida) é um embuste. Certamente que o povo irá participar nas eleições menos democráticas da história da nossa recente democracia...
QUEM SÃO E O QUE DIZEM OS FAROLEIROS SOBRE O RUMO QUE A BARCA LEVA?
No nevoeiro espalhado pela imprensa, televisão, fazedores de opinião ditos credíveis, encartados economistas e outros colunistas eram poucos os que acendiam a luz de alerta quanto a alternativas. A pressão da banca para o resgate urgênte da dívida aparecia como a única saída. A bancarrota o medo das prateleiras vazias e da falta de dinheiro para pagar salários era a toada para vergar a resistência onde ela ainda havia. Eram poucos. Os mesmos da dita esquerda radical. Em 6 de Abril, em Conferência de imprensa, o Partido Comunista, acende a luz da alternativa, com a proposta: "A renegociação imediata da actual dívida pública portuguesa – com a reavaliação dos prazos, das taxas de juro e dos montantes a pagar – no sentido de aliviar o Estado do peso e do esforço do actual serviço da dívida, canalizando recursos para a promoção do investimento produtivo, a criação de emprego e outras necessidades do país. A intervenção junto de outros países que enfrentam problemas similares da dívida pública" . O nevoeiro esconde a proposta por impossível e torna a voz deste faroleiro inaudível. Sobre ele recaem as maiores e terríveis acusações perante a renúncia em negociar o resgate. Tiro no pé, há quem diga. Gente oportunista, outros acusam. Mas os dias passam e surgem outros faroleiros dando o mesmo alerta:
"Portugal deve também reestruturar a sua dívida? - Claro que sim. Não existe alternativa quando a dívida deixa de ser suportável. Portugal tem uma boa razão para entrar em incumprimento. Ao contrário dos gregos e dos irlandeses, não se pode censurar os portugueses por terem cometido infracções estatísticas ou criado um sistema bancário com uma dimensão inadequada para o tamanho do país. A Grécia é um caso de falência criminosa e manipulação estatística. O verdadeiro problema de Portugal é a competitividade. E uma reestruturação seria viável." Markus Kerber, in Jornal i, 14 de Abril
"O governo português pode usar como arma negocial a reestruturação da dívida se considerar que o programa de ajustamento exigido ao país é demasiado severo", avisa o economista Álvaro Almeida. O português trabalhou no Fundo Monetário Internacional (FMI) entre 1997 e 2000 e participou na negociação dos programas de México, Arménia e Venezuela". In Jornal i, 14 de Abril
“concluímos que, na ausência de uma reforma institucional da UEM, sair da Zona Euro constitui uma opção política séria para Portugal.” Pedro Leão e Alfonso Palacio-Vera, disponível como documento de trabalho no Levy Economics Institute, um dos principais centros de investigação keynesianos nos EUA. In Ladrões de Bicicletas, 26 de Abril"Questionado sobre a posição defendida por economistas como Paul Krugman no sentido de que Portugal terá que reestruturar dívida, o presidente do banco sublinha: "Por deformação profissional tenho mais respeito pela opinião das pessoas que fazem e não das que comentam. Não atribuo às palavras do s. Krugman a mesma importância que vocês. Ele ganha dinheiro a vender livros e fazer conferências. Dou mais importância ao que diz Merkcel, Sarkosy e Durão Barroso… in Jornal i, 28 de Abril
"Saída do euro ou resgate? Economistas discutem opções. - Jens Bastian, de Atenas, Marc Coleman, de Dublin, Niño Becerra, de Barcelona, e Ricardo Cabral, do Funchal, trocam argumentos sobre as opções que se colocam aos quatro países da zona euro em situação de crise de dívida, ainda que em graus distintos." In Semanário Expresso, 30 de Abril
"Por isso, entendemos que Portugal deve propor à Espanha, Grécia e Irlanda a criação de uma frente diplomática comum tendo em vista renegociar as respectivas dívidas e obter da UE derrogações ao Tratado que permitam a estes países adoptar políticas económicas favoráveis ao seu desenvolvimento, com destaque para uma forte política industrial e medidas de discriminação positiva para o sector exportador." in Manifesto «Convergência e Alternativa»
QUE VAI ACONTECER EM 5 JUNHO?
Saio do botequim com este texto denso e extenso para editar e a pensar: "Irá o nevoeiro esconder as alternativas e o povo votar um timoneiro que conduzirá a barca contra os rochedos? Ou será que o povo obriga a um outro homem do leme e a novo comandante? Talvez que o mais certo seja o dizer adeus à soberania..."
05 maio, 2011
Um dia alienado (esquecendo um desgosto Luso), num botequim, num outro lado onde se fala esta lingua (hoje lembrada)
Entro do botequim e sinto os olhares fixados em mim. Evito espelhar no rosto que sou do outro lado do mar e o que me fez ali entrar. Evito também mostrar este desgosto. Apetece-me um aconchego canarinho, um seu carinho. Faz-me falta o apoio desta gente, ouvir de maneira diferente a lingua portuguesa (hoje lembrada)._________________________________________________
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Outras versões existem (Chico Buarque, Maria Rita), mas esta é tão bonita...
