07 maio, 2011

Sábado. Tudo se passa, como se não se passasse nada...

O menino brincava com o comboio que o maravilhava, mas não andava. Ela, de cabelo em desalinho, parecia pensar pois seu olhar, parado, pairava no ar. Numa mão segurava o pão e nesse ar para onde olhava, pairava o cheiro a torrada que ninguém comeu. Na televisão, sem som (como de costume), um politico, hirto e com ar convencido e solene, gesticulava em gesto breve, talvez sublinhando uma frase importante. No sofá, a revista Caras pousava sobre o jornal "A Bola", ambos fechados esperando o gesto de ser lidos. Ele retirou os olhos do computador disse com voz soletrada: "Cá está", e continuou, " T3, perto da praia com piscina e parqueamento privativo, perto do golf e do polidesportivo". O menino continuava a brincar. O cão, deitado ao canto, fez a décima tentativa para dentar a mosca que voando lhe escapava. Desistindo, pela décima vez colocou, pachorrento, o focinho sobre a pata dianteira sem sinais de enervamento. O canário, na gaiola, não cantava e o sol estava escondido, como se ainda estivesse dormindo. Ela, que não tinha respondido à descoberta do marido, disse sem voz autoritária, como se a não obediência não lhe interessasse nada. "Vá meninos, toca a arranjar, senão vamos chegar atrasados à festa de anos". Tocou o telemóvel, o terceiro a contar da esquerda dos que estavam postados no chão, junto aos comandos de televisão. Ela lentamente, imitando a dolência do cão, apanho-o e atendeu: "Sim!, ah essas coisas são com o meu marido" e de pronto estendeu o pequeno aparelho ao marido, dizendo "è para uma sondagem, responde tu que tens mais jeito". Ele ia respondendo, ela foi-se alindar e vestir o menino. Só ele iria ficar responsável por chegarem atrasados à festa de anos...


---------------------------------------REM - Imitation Of Life (ver letra)