06 maio, 2011

Que luz vem do farol? Que nos dizem os faroleiros?

Num post de há poucos dias atrás, falava do paradigma do rumo "inevitável" e da "certeza" dessa inevitabilidade por parte de todos os que iam na barca - representação figurada daquela parte do país condicionada à opinião única e ao pensamento dominante. Escrevia aí, que poucos ficaram em terra, auto-excluindo-se da barca, pelo que (reconheço agora) a figura da barca deixava uma ambiguidade grave: a barca significava o país ou apenas o paradigma em que uma parte dele vive, com a definição (também já feita) do que entendo ser essa coisa de paradigma, palavra tão pouco frequente entre muito douta gente. Escrevo agora a desfazer equívocos fazendo-o num botequim canarinho, rodeado de gente amiga e quase me cruzando com Mia Couto, que acabado de sair daquele lugar deixava palavras no ar: "O Brasil vai ser a nossa estrela guia", era o que dizia, deixando-me a angústia de o não poder repetir, preso ao lado do paradigma que me deixa amarrado a esta Europa lorpa e a braços com um outro lado que é o resultado das agências de rating já traduzido num plano de resgate que nos evita, por uns tempos, a bancarrota. O terceiro lado da paradigma, enfabulando (lembra-se do video?)o que se passava na terra dos ratitos que só elegem gatos para os governar, degladiam-se os partidos credíveis (os gatarrões) sobre as estratégias eleitorais e outras coisas mais daquelas que são usadas para obter votos dos ratos e de caneta aprontada para assinar o resgate e o fazer aprovar na Assembleia. Os fazedores de opinião (o quarto lado do quadrado) mostram-nos diariamente com uma insistência frequente, não vão os ratitos pensar fora do que a inevitabilidade forjada possa ser contestada... Deixemos as imagens e as metáforas por momentos (a custo o faço) e falemos um pouco mais directamente:

QUEM SÃO E QUE DIZEM OS FAROLEIROS SOBRE O PROCESSO DE SALVAÇÃO ?


Eram de inicio poucos ou poucos eram os que acendia luzes de alerta no nevoeiro. Traduzindo a imagem pelo significado. Só os partidos da esquerda (que chamam de radical) se opunham à chamada de estrangeiros para a "ajuda" externa. Até que a imprensa estrangeira acende faróis. Ao farol New York Times, segue-se o Daily Telegraph e agora o Le Monde Diplomatique. Dizem estes faroleiros o que os fazedores de opinião calam, limitando-se os jornais portugueses a dar pequeno espaço aos alertas dados pela esquerda: o processo é antidemocrático e o pacto, assinado por um governo demitido (eventualmente aprovado por uma Assembleia já dissolvida) é um embuste. Certamente que o povo irá participar nas eleições menos democráticas da história da nossa recente democracia...


QUEM SÃO E O QUE DIZEM OS FAROLEIROS SOBRE O RUMO QUE A BARCA LEVA?


No nevoeiro espalhado pela imprensa, televisão, fazedores de opinião ditos credíveis, encartados economistas e outros colunistas eram poucos os que acendiam a luz de alerta quanto a alternativas. A pressão da banca para o resgate urgênte da dívida aparecia como a única saída. A bancarrota o medo das prateleiras vazias e da falta de dinheiro para pagar salários era a toada para vergar a resistência onde ela ainda havia. Eram poucos. Os mesmos da dita esquerda radical. Em 6 de Abril, em Conferência de imprensa, o Partido Comunista, acende a luz da alternativa, com a proposta: "A renegociação imediata da actual dívida pública portuguesa – com a reavaliação dos prazos, das taxas de juro e dos montantes a pagar – no sentido de aliviar o Estado do peso e do esforço do actual serviço da dívida, canalizando recursos para a promoção do investimento produtivo, a criação de emprego e outras necessidades do país. A intervenção junto de outros países que enfrentam problemas similares da dívida pública" . O nevoeiro esconde a proposta por impossível e torna a voz deste faroleiro inaudível. Sobre ele recaem as maiores e terríveis acusações perante a renúncia em negociar o resgate. Tiro no pé, há quem diga. Gente oportunista, outros acusam. Mas os dias passam e surgem outros faroleiros dando o mesmo alerta:


"Portugal deve também reestruturar a sua dívida? - Claro que sim. Não existe alternativa quando a dívida deixa de ser suportável. Portugal tem uma boa razão para entrar em incumprimento. Ao contrário dos gregos e dos irlandeses, não se pode censurar os portugueses por terem cometido infracções estatísticas ou criado um sistema bancário com uma dimensão inadequada para o tamanho do país. A Grécia é um caso de falência criminosa e manipulação estatística. O verdadeiro problema de Portugal é a competitividade. E uma reestruturação seria viável." Markus Kerber, in Jornal i, 14 de Abril


"O governo português pode usar como arma negocial a reestruturação da dívida se considerar que o programa de ajustamento exigido ao país é demasiado severo", avisa o economista Álvaro Almeida. O português trabalhou no Fundo Monetário Internacional (FMI) entre 1997 e 2000 e participou na negociação dos programas de México, Arménia e Venezuela". In Jornal i, 14 de Abril

concluímos que, na ausência de uma reforma institucional da UEM, sair da Zona Euro constitui uma opção política séria para Portugal.” Pedro Leão e Alfonso Palacio-Vera, disponível como documento de trabalho no Levy Economics Institute, um dos principais centros de investigação keynesianos nos EUA. In Ladrões de Bicicletas, 26 de Abril


"Questionado sobre a posição defendida por economistas como Paul Krugman no sentido de que Portugal terá que reestruturar dívida, o presidente do banco sublinha: "Por deformação profissional tenho mais respeito pela opinião das pessoas que fazem e não das que comentam. Não atribuo às palavras do s. Krugman a mesma importância que vocês. Ele ganha dinheiro a vender livros e fazer conferências. Dou mais importância ao que diz Merkcel, Sarkosy e Durão Barroso… in Jornal i, 28 de Abril


"Saída do euro ou resgate? Economistas discutem opções. - Jens Bastian, de Atenas, Marc Coleman, de Dublin, Niño Becerra, de Barcelona, e Ricardo Cabral, do Funchal, trocam argumentos sobre as opções que se colocam aos quatro países da zona euro em situação de crise de dívida, ainda que em graus distintos." In Semanário Expresso, 30 de Abril


"Por isso, entendemos que Portugal deve propor à Espanha, Grécia e Irlanda a criação de uma frente diplomática comum tendo em vista renegociar as respectivas dívidas e obter da UE derrogações ao Tratado que permitam a estes países adoptar políticas económicas favoráveis ao seu desenvolvimento, com destaque para uma forte política industrial e medidas de discriminação positiva para o sector exportador." in Manifesto «Convergência e Alternativa»


QUE VAI ACONTECER EM 5 JUNHO?


Saio do botequim com este texto denso e extenso para editar e a pensar: "Irá o nevoeiro esconder as alternativas e o povo votar um timoneiro que conduzirá a barca contra os rochedos? Ou será que o povo obriga a um outro homem do leme e a novo comandante? Talvez que o mais certo seja o dizer adeus à soberania..."


22 comentários:

folha seca disse...

Caro Rogério
Pegando só no ultimo paragrafo.
Num comentário que já hoje fiz no "A nossa Candeia" Já aflorei esta questão e se for capaz tenciono pô-la em jeito de post.
As eleições legislativas (e não é de agora)são tratadas como se fossem eleições para o Primeiro-Ministro. As empresas de sondagem e os media assim as tratam. Entre ontem e hoje, saíram 2, uma com resultados favoráveis a Sócrates e outra a Passos Coelho. Estes são os titulos que ficam.
Quando a defesa da constituição está na ordem do dia é preciso defendê-la, denunciando a ideia de que o que está em jogo é a eleição de um primeiro-ministro. Não, isso não existe. O que se elegem são deputados e a partir daí sairá um convite ao partido mais votado para formar governo e por aí fora...
Abraço

Rogério Pereira disse...

Folha Seca,
O que me diz faz parte do nevoeiro... Faz parte dele impõr a discussão sobre qual o timoneiro, afastando-a da discussão da rota. Irão conseguir. A imprensa vai passar ao lado das alternativas e vai insistir na questão sobre o senhor que vem a seguir...e da luta pelo poder (de executar as medidas da Troika)...

Fada do bosque disse...

Pois Rogério... tal como o Folha Seca, fiz o mesmo no A Nossa Candeia... não com um português tão delicado pois quando me sobem os pirolitos... ai ai. Tipo minhota, mesmo...
Quanto aos Media é mesmo impossível parar isto. Tenho estado estes dias todos entre TSF e Antena 1 e é uma VERGONHA! Só tenho rádio...
Quanto ao jornalismo por encomenda, quem mais se queixa são aqueles que tem o poder das ideias acima das ideias de poder. Esses estão no Index, basta dar aqui uma espreitadela.

Vamos mesmo perder a Soberania!

Quanto ao seu post, está realmente um must. Tem uma escrita muito bela e original. Considero-o um escritor de excelência.
Quanto ao futuro estou como Mia Couto, uma optimista se esperança.
Um Abraço.

Eva Gonçalves disse...

A soberania, perdemos ao entrar na então CEE... e temos vindo a perder cada vez mais. O FMI, já cá esteve por duas vezes e não foi por isso que perdemos a soberania... de resto, como já tenho dito, só vejo nevoeiro... e nem esses faroleiros me convencem.

12ºD disse...

Olá boa tarde. Nós somos um grupo do 12º Ano do Externato de Vila Meã – Amarante, e no âmbito da disciplina de Área de Projecto estamos a realizar um projecto sobre a relação dos idosos com a internet, computadores e a educação sénior. No âmbito desse projecto criamos este blog (http://idososdopresente.blogspot.com/) , que estamos a divulgar. Gostarias imenso de receber a sua visita e participação (criticas, sugestões…). Obrigada.

Lidia Ferreira disse...

Ajude adenunciar !
Eu nunca fiz isso, nem quero que você se sinta obrigado , por isso coloquei o link para você ler e caso queira ajuda, por favor sinta-se a vontade de não publicar esse comentário
bjs
Preciso da sua ajuda (leia a postagem ) , http://corderosachoque22.blogspot.com/2011/05/master-door-desrepeito-descaso.html

carol disse...

E do nevoeiro sairá um D. Sebastião?!... Nós, sebastianistas, nós messiânicos, nós que esperamos o Salvador!

Que medo!

jrd disse...

Excelente!
Porque é que eles, os que votam, não lêem este poste?

Fada do bosque disse...

Este artigo está muito interessante.

Fê-blue bird disse...

Amigo Rogério:
Está tudo aqui!TUDO!
Explicado com a clareza e saber que o caracteriza.Um post digno de destaque, o que se me permite, irei fazer no meu blogue.
Estou a anos-luz em termos de conhecimento político e não só do meu amigo, mas sei ver, ouvir e analisar tudo o que se passa à minha volta, e sofro ao ver o imenso nevoeiro que cobre o nosso país.
Precisamos tanto de um faroleiro, que nos indique o rumo, que nos guie para longe desta violenta tempestade.
Acredite, que vou ainda analisar melhor e com cuidado tudo o que aqui escreveu.

Beijinhos

Gisa disse...

Difícil a compreensão da perda da soberania. Difícil a compreensão de submissão a regramentos outros que não os da nossa própria casa. Difícil a compreensão da desorganização da sala para atender outros gostos. Difícil a compreensão de um momento tão delicado como este. A única coisa que posso acenar de minha cadeira do botequim brasileiro é que um hora tudo aparece de tal forma que soluções brotam de todos os lados e o mal conserta-se, mas até lá difícil enfrentar a situação posta, ainda mais quando nem todos querem ver a luz do farol, ou simplesmente não a acreditam
Um grande bj querido amigo

Rogério Pereira disse...

Fada
Querida Fada,
Claro que tinha de falar de si e para si, não só para agradecer as palavras amigas mas, e sobretudo, para o link que me deixou. Vale a pena todos lerem o testemunho de um jornalista que segue a nossa realidade e vê aatravés do nosso nevoeiro. Obrigado. Vou acompanhá-lo no Alto Hama, de onde guardo recordações...

Eva,
minha querida amiga, não banalize. É a primeira vez que uma entidade externa obriga a assinatura de um governo demissionário de um plano que será (?) aprovado por um parlamento que não está em funções (ou se não, assinado pela maioria parlamentar). Nunca se tal viu. Leu o Le Monde? O The New Yor Times?

Olá, jovens do 12º D,
já lá fui e vou fazer tudo para ajudar o V. projecto. Prometo!

Rogério Pereira disse...

Carol, Jrd, Fê
Palavras todas diferentes mas com uma sensibilidade que me parece comum. Fico emocionado com o que me diz, Fê. Sinto o meu trabalho valorizado. Concordar ou não é outra questão...

Gisa,
que pena não nos termos cruzado no botequim. O empregado, simpático, disse que tinha deixado um chá para mim. Hei-de lá voltar...

donatien alphonse françois disse...

Rogério:
Os "Caminhas de Ferro" da Carraça aqui espreitam todos os dias...Ás vezes faltam-me as palavras...

BULIMUNDO disse...

PORQUE O SONHO MESMO QUE VAGO COMANDA A VIDA...E SEM ELE NÃO PASSARIAMOS DE UMA CASCA VAZIA DE NADA...ABRAÇO..

Filoxera disse...

Já não estando em condições de filosofar acerca da lição política, pois o sono chega, resta-me aludir ao facto de também ter um farol no mais recente post do EQ.
Bom fim-de-semana!

Janita disse...

Ah…faróis!
Ah, faroleiros!
Ah…Cabo da Boa Esperança…

Ai…Soberania perdida
Democracia comprometida,
entre essa bruma desmaiada...
...mesmo que o sonho comande a vida!

E Vós meu Rei, que fazeis?

“ Minha serva, vós bem sabeis
por isso, não pergunteis!
Estou embalando o meu Sonho
enquanto espero a bonança.”

Rogério, não quer fazer um Interregno para Coisas Belas?

Olhe que com a "idade que vai tendo" (palavras suas) o tempo passa depressa.

Desejo-lhe um lindo e sossegado fim-de-semana.
Bjo.
Janita

Rogério Pereira disse...

Donatien,
Deixe um aceno, um sorriso ou isso...

Bulimundo,

A vida sem sonho seria uma casca vazia de nada. Registo, isto. Obrigado

Filoxera,
já lá tinha ido e deixei o comentário devido...

Janita,
Tal interregno, que agora mesmo me deu, porque razão o deverei dar eu?
As coisas não estão de feição...

Rosa dos Ventos disse...

Ontem estive numa sessão comemorativa dos 25 anos da entrada de Portugal na UE...
Muito se falou dos aspectos positivos e negativos dessa adesão, mais positivos do que negativos, do resgate e das alternativas...
Só o orador do PC adiantou a alternativa da renegociação da dívida...e até apresentou o caso da Noruega como exemplo de sucesso numa Europa sem estar na UE...
Gostei desta postagem!
Dá que pensar...

Abraço

Isa GT disse...

Tenho a impressão de que nem as sondagens vão prever o que vai sair a 5 de Junho... ou então... era isso que eu gostava que acontecesse ;)

Quanto a dizer adeus à soberania... ela, há muito, que já foi vendida...

Bjos

Lídia Borges disse...

Li com atenção e reconheço bastante interesse nas janelas que foi abrindo dando a conhecer outras opiniões não "viciadas". Destas fiquei particularmente curiosa sobre essa "frente dos países periféricos", em dificuldades que me devolveu um certo "fôlego". Se a Europa rola a diferentes velocidades porque há-de pensar a uma só voz? Parece-me tempo de as vozes reflectirem as dissemelhanças evidentes e insultuosas entre os países da Comunidade onde uns são cada vez mais pobres para que outros possam ser cada vez mais ricos.

Um beijo

L.B.

Rogério Pereira disse...

Rosa, Isa e Lídia,

Irei cruzar esses comentários, receios e ideias e questionar os faroleiros. Pode ser? Será num post em breve...