04 fevereiro, 2021

QUANDO AS ARTES SE CONJUGAM, ACONTECE OBRA PRIMA - I

Confinadas as artes, com a cultura em quarentena, não saberemos como irão sobreviver os que criam, os que desempenham, os que dão suporte e ajuda, os que promovem... Impotente para fazer o quer que seja em prol de quem se dedica à actividade artística, limito o meu objectivo ao incremento pelo gosto pela criação artística.

Este é o primeiro post que vai nesse sentido.

E é tão belo!

03 fevereiro, 2021

A menina Amélia

 A dimensão da louça que há para lavar é um indicador muito significativo. Desde logo do esforço que dá a lavar, numa data, como é o caso, em que uma máquina de lavar era posse rara em qualquer família da classe média. Estou a falar em meados da década de sessenta, tinha a menina Amélia cerca de 15 anitos, quando entrou naquela casa e passou ela a lavar a louça.

Mas, como indicador significativo, a quantidade de louça a lavar também reflecte o nível económico da família, pois numa família pobre, a louça é pouca. Aquela família, da classe média, usava os pratos todos e era significativo o número de talheres que a menina Amélia tinha que levantar da mesa. Exactamente seis: o casal, o Manuel e a Judite; o pai desta, o avô Garcia; três filhos, o Alberto, a Teresa e a Paula, a mais nova, que a menina Amélia sempre tratou por Paulinha.

A casa, uma moradia de dois pisos, quatro quartos e duas salas, davam trabalho na proporção e não era pouco. Sempre a somar, importa falar do quintal, onde, ao lado do galinheiro, numa pequena casa onde num tradicional tanque era lavada roupa, que os bons preceitos de higiene, determinava que fosse muita. Essa era também tarefa da menina Amélia, talvez aquela em que perdesse mais tempo pois a Paulinha gostava de dar à língua e a menina Amélia partilhava esse mesmo gosto, perante a aceitação paciente da Judite, a dona da casa.

Mais ou menos por essa altura, o Alberto frequentava a Academia Militar mas a folga da menina Amélia, decorrente dessa ausência, foi sol de pouca dura. É que, talvez uns três meses depois, entrei eu em cena. Ao casar com a Teresa, passei a habitar a casa e uns meses mais tarde, não muitos, nasceu a nossa filha João. E poucos anos depois, nasceu a Sandra. A menina Amélia manteve-se ao serviço, este mais aligeirado pela racional distribuição de tarefas e também por a menina Amélia não se sentir a criada para todo o serviço. Ela fazia parte da família e como tal, assim era tratada. Todos partilhavam com ela os seus sorrisos e as mulheres até cumplicidades. Mulheres, já não meninas. Menina, menina, só a Amélia.

Os anos foram passando. Primeiro o avô Garcia, depois o dono da casa. A menina Amélia partilhou connosco as suas silenciosas lágrimas. Com a morte do Manuel, a Judite veio viver para Oeiras e a menina Amélia por cá aparecia, não como mera visita, mas para ajudar num mundo de coisas, nomeadamente lavar a louça.

Falecida a Judite, a Teresa manteve-a. Falecida a sua (nossa) Teresinha, eu mantive-a e partilhámos juntos a dor de tão sentida partida.

O acordo é vir dar a volta à casa, deixando-a limpa e arrumada, de quinze e em quinze dias. Na semana passada esteve cá. Troca de roupas de cama, aspirar, passar a ferro, lavar chão e janelas, uma formiguinha ágil e trabalhadeira numa azáfama que não pára até à despedida.

Sexta-feira, ligou-me consternada: "Senhor Rogério, fiz o teste ao Covid e deu positivo". Falámos mais um pouco para detalhe do como terá acontecido e depois disso temos vindo a ligar um ao outro. 

Estamos ambos bem!

PS: Este texto foi feito num ápice e terei de o rever mais tarde, talvez com a ajuda da menina Amélia e... com uma foto dela.

02 fevereiro, 2021

Não há desmentido... estou mesmo como disse que estava!

"Ó pai, então foste dizer que estavas de quarentena? Agora vão pensar que foste contaminado!", censurou-me a minha-mai-nova e eu, admitindo o erro, preparava-me para vir aqui fazer um desmentido. Fui saber qual a diferença entre "quarentena" e "isolamento profilático". São a mesma coisa! Contive-me a tempo.

Mas o saldo disto tudo, a menos que me aconteça o que não desejamos (está no plural, topam?) e venha a ter qualquer sintoma é que estou bem e a vizinha do 2º andar faz tudo, tudinho, a satisfazer o meu paladar (o bacalhau, estava um regalo).

Na imagem, em baixo, estou pálido? Nada que minha inabilidade como técnico de iluminação não explique... e não tem a ver com qualquer sintoma!

A imagem refere-se a uma vídeo-conferência que teve a minha presença a convite do Rotary Club de Oeiras em representação de... (já sabem de quem).

 

01 fevereiro, 2021

Estou em quarentena, mas nada me falta (dentro do que é possível ter...)


Esta foto é minha, tirada em cima do balcão da cozinha. Não, não representa a imagem do vírus. Representa, isso sim, o mimo que me rodeia. Os olhos, são pratinhos de arroz-doce que uma vizinha me trouxe. A pêra, sobrou do rico cabaz trazido pela minha-mai-velha, produto da quintinha dela e a banana é a última que resta de um pequeno cacho que a minha-mai-nova me trouxe a casa. 

As refeições, almoço e jantar, foi serviço contratado à minha vizinha de baixo e a do lado me deu a bela sobremesa que já marchou.

Se estou de quarentena? Sim estou. Mas com todo este carinho, não sei se vou querer, tão depressa, sair dela.

Por enquanto, não tenho sintoma nenhum e quanto a sabor, nem vos falo... (pois já o deixei escrito)