29 julho, 2018

Um conto ao Domingo - XIX ("Boa Malha!")


«"Boa malha", alguém gritava. Era o chinquilho,
e eu ficava tempos sem fim a olhar aquilo...»
num qualquer passado domingo, corria o ano de 1955 

Era do outro lado da estrada, à porta da velha taberna, num terreiro onde parava a rara camioneta de carreira que ligava o Montijo ao Barreiro. Da quintinha até lá eram cem passos apressados e mal contados. Era ali que aos domingos se juntavam os homens. Miúdos não havia, era só eu. 

Minha avó deixava-me ir, contrafeita "não te quero ali, aquela gente não tem tino na língua e só sabem dizer destarelos". 

Mas eu insistia e ia. Era mágico o silêncio dos homens, a concentração no apontar. Ia e ficava por lá até que a última rodada fosse paga por quem não tivesse ouvido uma única vez o grito de "boa malha". 

Tino na língua, não tinham. Quanto a dizerem "destarelos", não sabia se os diziam, mas não parecia que os dissessem. Falavam das duras condições de trabalho lá na fábrica de adubos do Barreiro, em confronto com as condições, mais amenas, que havia na Mundet a corticeira ali perto, à saída da Moita. Falavam do salário magro. Falavam do pão que fazia parte da semanada. Falavam de coisas do Estado e da volta que se esperava que este levasse. Falavam de Nehru, de vozes que chegavam da Índia de onde alguém dizia que, chegada a Damão, ter sentido o morrer de um povo e da muito provável invasão de Goa*. Fiquei surpreendido, na escola tinha "dado" a Índia hà pouco e o professor não tinha mostrado nenhum indício disso.

E entre um assunto e outro, se ia ouvindo "boa malha". Acho que aqueles homens não reuniam ali para jogar. Nem para beber. Acho que eles ficavam por ali para se sentirem irmanados naquilo que os irmanava, para falar do que então se silenciava. 

O jogo era mero pretexto e de cada vez que lhes ouvia coisa acertada, gritava para dentro de mim mesmo, como se falasse com A Minha Alma, sem que ouvissem nada: "boa malha!" 

* Na versão deste texto, publicada em 2013, referia a invasão de Goa. Estava errado. Eu nessa tarde de domingo, assistindo ao chinquilho, teria para aí... sei lá... 10, 11 anos? Goa caiu em 1961 e nessa data eu já era adolescente...  recupero esta versão, primeiro, porque me ficou na memória de ter ouvido pela primeira vez coisas de que ninguém falava, segundo, porque quero respeitar o rigor que se deve à história.