30 novembro, 2016

Filipe VI perdeu a oportunidade de referir a "Jangada de Pedra" e eu ia aplaudir?

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«Quanto melhor vá a Europa melhor irão Portugal e Espanha ... quanto melhor sigam Espanha e Portugal, melhor caminhará a Europa»
Filipe VI, hoje em São Bento
«...tentei demonstrar duas coisas; primeiro: a Península Ibérica tem pouco a ver com a Europa no plano cultural. Dir-me-ão que a língua vem do latim, que o Direito vem do Direito Romano, que as instituições são europeias. Mas o certo é que, com este material comum, fez-se nesta península uma cultura fortemente caracterizada e distinta. Segundo: há na América um número muito grande de povos cujas línguas são a espanhola e a portuguesa. Por outro lado, nascem em África novos países que são as nossas antigas colónias. Então imagino, ou antes, vejo, uma enorme área ibero-americana e ibero-africana, que terá certamente um papel a desempenhar no futuro. Esta não é uma afirmação rácica, que a própria diversidade das raças desmente. Não se trata de nenhum quinto nem sexto nem sétimo império. Trata-se apenas de sonhar – acho que esta palavra serve muito bem – com uma aproximação entre estes dois blocos, e com o modo de o demonstrar. Ponho a Península Ibérica a vogar para o seu lugar próprio, que seria no Atlântico, entre a América do Sul e a África Central. Imagine, portanto que eu sonharia com uma bacia cultural atlântica."

Entrevista concedida por Saramago a Inês Pedrosa, in Jornal de Letras 10-16/11/1986

29 novembro, 2016

Reflexões, no dia em que o orçamento foi aprovado...

Como tudo começou.


Como tudo tem avançado.


E os riscos de ambiciosos protagonismos...


«Independentemente do modo como a questão da Caixa foi tratada - e foi reconhecidamente mal - em aspectos que, não sendo de pormenor, também não têm uma importância exagerada, a verdade é que o Bloco rompeu a solidariedade de apoio ao Governo, juntando-se à direita reacionária para supostamente resolver, de acordo com as suas inabaláveis convicções , um problema que já tinha data marcada para ser resolvido.
É um acto que não pode deixar de ter consequências por afectar seriamente o princípio da confiança.»

José Manuel Correia Pinto, in facebook

28 novembro, 2016

«Um homem pode viver cem anos na cidade, sem dar por que morreu e apodreceu há muito»


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«Instalámo-nos, portanto, na cidade. Aí toda a vida é suportável para as pessoas infelizes. Um homem pode viver cem anos na cidade, sem dar por que morreu e apodreceu há muito. Falta tempo para o exame de consciência. As ocupações, os negócios, os contactos sociais, a saúde, as doenças e a educação das crianças preenchem-nos o tempo. Tão depressa se tem de receber visitas e retribuí-las, como se tem de ir a um espectáculo, a uma exposição ou a uma conferência.
De facto, na cidade aparece a todo o momento uma celebridade, duas ou três ao mesmo tempo que não se pode deixar de perder. Tão depressa se tem de seguir um regime, tratar disto ou daquilo, como se tem de falar com os professores, os explicadores, as governantas. A vida torna-se assim completamente vazia.»
Leon Tolstoi, in “Sonata a Kreutzer”
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Há dias assim, em que nos limitamos a imitar os outros

27 novembro, 2016

Fidel, Havana, outras cidades sitiadas e as tais liberdades tão badaladas

Hoje, chamaram-me a atenção para o facto de Fidel de Castro não ter uma única estátua onde apareça isolado. "Sabes?, ele apenas integra, em colectivo, um monumento à revolução e ao socialismo!"
Entendendo tal reparo como aviso para que não entre eu num culto de personalidade que ele enjeitaria, falo da sua obra e de como como resistiu Cuba enquanto outras cidades administradas pela potência sitiante vão definhando...

Deixemos de parte as cidades burras pois em matéria  de Educação sabemos que o ranking não é relevante já que a burrice ianque é paradigmática e seria ofensivo comparar o quer que seja, neste domínio, à escolaridade do povo cubano. Deixemos então de parte isso e concentre-mo-nos nas cidades-gueto, aquelas por onde paira a tal liberdade de que tanto se fala. 
Não, não estou a comparar capitalismo com socialismo. Só estou a apontar que Cuba foi resistindo e o Michigan não. 

O Michigan e não só...

Fidel, in memoriam - "... há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis" - escreveu Brecht


As imagens são de um Homem, excepto uma que retrata a emoção de um povo. Na sua maioria situa há quantas horas lhe foram dedicados textos, artigos de homenagens ou de simples noticias.
Sobre a sua morte não faz sentido falar-se (há mortos que não partem) a não ser para dizer que Fidel fez um percurso, mas o verdadeiro protagonismo pertence ao povo cubano.
Falemos então dele, do povo cubano. Podíamos começar por Havana e ver imagens de resultam de um desumano bloqueio e compará-las com outra cidade, esta americana que, tendo tido população também cerca de 2 milhões de habitantes, não resistiu à tragédia que lhe inferiu o capitalismo. Detroit ruiu, Havana não.
Vejamos, então:

25 novembro, 2016

A Síria, o Papa Francisco, a missionária Guadalupe, o General e a posição confortável do Vaticano


Há caras que valem mais que mil palavras. E há palavras, curtas e claras, que valem mais que milhares de reportagens e páginas de jornais, sobretudo quando, umas e outras, projectam no Mundo a falsidade. Sabe disso, quer o Papa Francisco, quer o General Loureiro dos Santos.
Aliás, nem sei exactamente quem serão aqueles que detendo poder podem jurar não saber... 
Resta-me a pergunta, pejada de ingenuidade:
por que raio o Vaticano mantém*, na ONU, o estatuto de mero observador?
* O Estado do Vaticano, foi admitido como membro de pleno direito das Nações Unidas, em Julho de 2004, mas João Paulo II abdicou voluntariamente do direito de voto.

23 novembro, 2016

Mesa Redonda (9) - Tema: conto escusado, embora bem comentado

Da esquerda para a direita: Eu, o Meu Contrário e a Minha Alma

Eu (virado para o Meu Contrário): Esta Mesa Redonda foi convocada por ti, meu juízo. Diz lá, por por que ajuízas ser o meu conto escusado?
Meu Contrário (muito sério e calmo): Tudo o que serve para pouco, podendo servir para muito, é um desperdício! (após um pequeno silêncio, prosseguiu). A ideia do conto é interessante, mas, mesmo tratando-se de ficção cientifica, não me parece que prenda alguém à leitura…
Eu (pensativo): És capaz de ter razão. Muitos foram os que vieram ler a sinopse e não voltaram. Houve quem voltasse para dizer ser um texto previsível...
Meu Contrário (como que encorajado): Pois! A narrativa das partes iniciais parece ter sido criada  para justificar o final. Usas e abusas dos links obrigando a ir ver a outro lado o que devia ser integrado no que está a ser lido...
Minha Alma (interrompendo nesse preciso momento): De facto, se tivesses caracterizado logo que a classe dos "deprimidos" resulta da evolução da actual precarização do trabalho, tudo seria mais claro... e a passagem escondida é forte, vejam bem: «61,5% dos jovens trabalhadores têm vínculos precários. Este nível de precariedade, instabilidade e insegurança pressiona os salários para baixo.130 mil dos jovens desempregados inscritos nos centros de emprego não têm acesso a nenhuma prestação de desemprego, sendo os mais afectados pelos cortes nestas prestações. 2/3 dos jovens dos 18 aos 34 anos vivem em casa dos pais, consequência visível da perda de direitos, dos contratos a prazo, salários de miséria e desemprego».
Meu Contrário: Falas em "Oficio" sem explicar o que é isso...
Eu: Mas se escrevesse sobre tudo isso, escrevia um livro.
Minha Alma e Meu Contrário (em coro): Então escreve!

21 novembro, 2016

Os deprimidos - Parte III (fim, ou o começo de tudo)

ler parte II 

 
Ia fazer no dia seguinte 25 anos.  E na sala, que já tinha sido de espelhos, relembrava o que aquela sala o fazia lembrar. Tinha ideia de ali ter gatinhado, de ali ter aprendido a andar, de ali ter dito a primeira palavra (embora não se recordasse qual, admitia ter sido a palavra "mãe"), de ali ter assistido ao ar feliz do pai dizendo-lhe ainda criança "olha a mãe tem uma depressão benigna, tem assegurada cura". Nessa altura nem conhecia todas as  palavras que seu pai empregara, mas o rosto e o tom com que o dissera, faziam-lhe adivinhar que as noticias sobre a mãe eram boas. E foram, sua mãe Bruna regressara a casa, curada sem riscos de ser qualificada como deprimida. E foi nesse mesmo dia que a sala de espelhos deixou de fazer sentido. Dia após dia, serão a seguir a serão, a sala era onde a família se reunia. Nunca mais foi necessário simular que havia gente, para além da gente que ali havia. Eram só três, mas a sala passou a estar cheia.
Fazendo esse retorno ao passado, ocorreu-lhe que o passado é mais que a memória que cada um guarda. Animado de um propósito subiu a escada. Tinha de descobrir quem seus pais seriam e qual seria o passado dos deprimidos. No sótão estaria a resposta. E procurou-a. Havia lá de tudo o que ficara fora de uso. A um canto, jazia tecnologia antiga, aparelhagem diversa e descontinuada. Tralha. Pegou naquilo que em aspecto mais se aproximava dos Tels em uso. Tentou ligar, mas não acontecia nada. Aturadamente foi tentando até que se ligou. Cedo percebeu que nem por ser coisa antiga lhe seria vedado o acesso. Raciocinou que os sucessivos up grades das actuais redes mantinham a lógica da primitiva que lhe dera origem. Foi insistindo, experimentando hipóteses... E, a dada altura, "Bingo!" exclamou para consigo.

Ao entrar, a primeira imagem era enigmática, tinha o que lhe parecia ser um barco e uma frase "Nada é definitivo num naufrágio, havemos de corrigir o rumo errado!"  Que quereria aquilo dizer? Fez outras tentativas para encontrar a resposta e de cada vez que tentava mais perplexo ficava. Poema? O que seria um poema? Leu e releu, e começou-se a fazer na sua mente alguma luz... e uma pista: aquele nome, igual ao seu. Quem seria ele? Anotou a data, Dezembro de 2012. Foi há 100 anos. Ia a progredir na pesquisa, quando sua mãe o chamou: 
- "Rogério, tens o jantar na mesa, daqui a nada está tudo frio, filho!"
E desceu a correr.

No outro dia, e no outro, e no outro, muitos a fio, não descolou do propósito. Passado meses quase tinha a certeza de quem era (seria neto de um dos netos deles) mas não tinha qualquer dúvida de que a classe dos deprimidos era originária dos precários do século passado. A luta dos precários de então tinha-se gorado e a sociedade tinha mudado. Meteu-se-lhe então na cabeça um desafio: "Porque não regressar à luta? Porque não fazer renascer a esperança?" E voltou a ler o poema. Nunca tinha lido um poema assim, na verdade, nunca tinha lido nenhum poema na vida.

Passaram meses sobre a descoberta e a decisão de iniciar uma investigação. Para a investigação que tinha enveredado, faltava-lhe encontrar o algoritmo que conseguisse desligar cada chip de cada deprimido de forma a que este não fosse controlado sem que o sistema de controlo e os planos de trabalho fossem dar o alarme aos ofícios onde o deprimido estava alocado.  Resolvido e testado o algoritmo iniciaria o plano. 

Passaram meses sobre o teste do algoritmo, sobre o sucesso do teste e sobre o inicio do plano. Na sala, que antes tinha sido de espelhos, 397 rostos aguardavam poder contribuir para o que se fosse seguir: como desactivar todos os sistemas: da logística à domótica, dos tempos de controlo aos chips dos controlados, do accionamento dos drones à recepção de encomendas, dos braços robotizados a todos os "OKs" programados.  Consensualizado o plano, cada um foi para o seu lado, munido de uma tarefa, clara, precisa.
A data combinada? 25 de Abril! 
A senha? "Conversa Avinagrada"! 

FIM

20 novembro, 2016

Os deprimidos - Parte II

ler parte I


Correspondeu àquele beijo com a mesma intensidade com que se sentia beijada. Há muito que o Miguel não o fazia. Depois sentaram-se na cozinha, evitando a sala espelhada, onde em tempos, para simular estarem acompanhados a semearam de espelhos e se sentiam compensados das ruas vazias, olhando os seus reflexos.
Naquele momento queriam mesmo sentirem-se na intimidade. A gravidez de Bruna, que depois viria a ser confirmada, levava ambos a sentir essa necessidade. Falaram de projectos futuros, de como a vida iria mudar com um novo ser, da necessidade de se programarem de modo diferente, de como teriam de alterar a forma de gerir seus ofícios. "Podemos passar a gerir no modo virtual, os TelOficios estão em saldo e podemos configurar o software de forma a controlarmos o teu e o meu", sugeriu Miguel. 

Bruna reagiu em lamento, comentando a insegurança de ter a actividade do seu Oficio suportada apenas por dois deprimidos com o nível 2 de depressão e à beira do previsto "fim do período de vida útil" pelo que a sua entrada no nível de depressão seguinte requereria mais apoio presencial. Miguel tranquilizou-lhe a ânsia. E lembrou-lhe a notícia do medicamento INFARMED. "Se começarem o tratamento nos dias mais próximos terão a capacidade actual por mais 10 anos e, nessa altura, já a nossa criança terá mais autonomia" argumentou Miguel. Bruna, convencida, aceitou que fizessem a encomenda do aparelho naquele instante.
Ele fê-lo através do TelLog, exclamando "boa, a entrega será imediata!" e de seguida fizeram a encomenda do anunciado tratamento no sítio da farmácia virtual...

Passados 15 minutos, o quadro monitor da demótica do condomínio assinalava uma entrega proveniente do drone 327 e que este aguardava o aviso de recepção.  Miguel, clicou "OK" no TelLog. Bruna foi buscar o aparelho e em gesto apressado libertou-o da embalagem. Olhando o aparelho era, na aparência, igual aos dois outros apenas se diferenciado pela cor. O TelLog era azul, o TelCom amarelo e aquele era vermelho. "Configuramos já?" perguntou Bruna antecipando a resposta ligando o pequeno portátil. 
Entrou no menú geral e clicou em "registe-se"
Inseriu os dados do seu Oficio, identificação fiscal, número de deprimidos no activo, nível de depressão e número do Cartão de Cidadão (neste campo, havia uma nota, "o chip do CC assegura a rastreabilidade dos inputs). Parou. 
- "Miguel, o que significa isto?"
- "Acho que cada função a controlar tem por base a identificação da pessoa a controlar, deve ser isso!"
Bruna continuou para o menú das funcionalidades, passando o aparelho a apresentar uma tela com várias linhas em frente às quais tinha um espaço um apor um pisco:
  1. - relógio de ponto - v
  2. - atraso tolerado - v
  3. - localizações fora do Oficio (integra GPS) - deixou em branco
  4. - localizações dentro do Oficio (integra planta do edifício) - v
  5. - Lista de Tempos por Tarefa (integra Plano de Trabalho) - v
  6. - Tolerância para tempos despendidos fora do Plano - deixou em branco
De seguida clicou "em passar à tela seguinte" e apareceu o alerta "o campo 6 é obrigatório" e Bruna volta a inquirir Miguel:
- "Porquê este campo obrigatório?" 
- "Acho que se não preencheres esse campo deixas de poderes receber alertas sobre os riscos de incumprimento do Plano de Trabalho, deve ser isso!"
Bruna fica a pensar e depois exclama:
-"Ah, pois é!, agora me lembro quando estivemos a configurar no outro micro-portátil as encomendas a lançar nos supermercados, havia algo assim semelhante... até tinha um alerta sobre os riscos de mantermos conversa com os os deprimidos locais para além de um certo tempo... avisava que colocava em risco o completar-se a encomenda... lembras-te?" Dizendo isto, foi ao campo 6 colocar o pisco. 
E continuou a introduzir os dados. Após validar toda a configuração, pediu ao Miguel se podiam passar para a sala de espelhos.
"Sabes?, preciso de ver gente!"
Nesse preciso momento recebia no TelCom, pela função alta voz, a seguinte mensagem:
«Última hora. Feitos hoje  os testes em carga sobre a nova fábrica de montagens de automóveis da Wolkswagen. Com as novas tecnologias de automação, todas as operações foram robotizadas bastando um único deprimido, com a qualificação de 1º nível de depressão, para assegurar o seu funcionamento. A CIP já comunicou ao Governo o Programa de recolocação dos 250 deprimidos que passam ao quadro de excedentários prevendo-se que, desses, 20% possam ser integrados em Ofícios de manutenção.»




19 novembro, 2016

Os deprimidos - Parte I

Ler sinopse do conto 


Miguel não estava atrasado. Tinha todo o tempo se o soubesse bem planear. Pegou no seu TelLog e verificou onde se  situava a maior fila de espera, se no supermercado se nos postos de carregamento ali à volta. Tinha o seu veículo eléctrico com pouca carga e as tomadas existentes no condomínio não lhe mereciam confiança...
Enquanto bebia uma chávena de leite morno, programou-se, iria primeiro ao posto de carregamento 48, tinha aí disponibilidade dentro de meia hora. Reservou 15 minutos de carga. Reservou também uma maço de cigarros e um café, no quiosque local.
Enquanto bebia o leite, olhava a praceta deserta e em redor, nos prédios à volta, ninguém se assomava à janela. Um preocupação lhe tomou por momentos os pensamentos "E se o bairro atingir o nível limite de habitantes deprimidos?" Já acontecera em outros bairros e, nesses lugares, todos os dispositivos de domótica integrada foram desligados e todos os serviços públicos, desde a recolha de resíduos sólidos à entrega de encomendas, passaram a ter os drones desactivados (aos deprimidos era vedado o acesso aos avanços da tecnologia).
Voltou ao quarto e espreitou Bruna, que dormia. Olho-a enlevado, depois saiu, sem a acordar. Deixou-lhe uma mensagem no seu TelCom "Já venho. Bj."

À saída da porta, dispensou  o uso da manga telescópica e da passadeira rolante que o poderia levar ao carro. Estava um dia soalheiro, apetecia-lhe andar um pouco e ainda tinha presente o que há tempos acontecera ao ficar encarcerado na manga umas horas pois o deprimido encarregue da reparação da avaria tinha entrado em depressão elevada e levou tempo a encontrar um substituto.

Chegado ao posto accionou a encomenda, encostando o seu TelLog ao sensor e, de pronto, um braço robotizado pegou no cabo enquanto o outro braço dava acesso ao ponto de carregamento. Verificou no visor se a encomenda correspondia ao encomendado e premiu a tecla "OK".

Dirigiu-se ao quiosque encostou o seu TelLog à célula local e respondeu-lhe ao gesto uma voz metálica "Recolha os seus cigarros e o seu
café. Obrigada por dar preferência ao nosso posto"

No supermercado, apenas uma contrariedade: a reposição da prateleira 2453 não tinha funcionado pelo que o artigo pedido não estava disponível. O deprimido que tinha essa missão entrou em elevada depressão, como lhe informava o visor.
Anulou esse item na encomenda e o carro robotizado percorreu o supermercado abastecendo um a um todos os itens da encomenda. Após conferir, premiu a tecla "OK" no TelLog, e a tal voz metálica lhe agradeceu, com "Volte sempre!" perguntando de seguida "Pretende entrega via drone?" Negou clicando na tecla adequada, pegou no saco e saiu.

A caminho, o TelCom anunciaria no modo alta voz.
"Últimas noticias:  o INFARMED acaba de licenciar medicamento que permite prolongar o estado de depressão dos níveis 1 e 2, passando estes indivíduos a terem uma vida útil de cerca de 20 anos" 
"Boa!" pensou Miguel. Chegado a casa encontrou Bruna já levantada mas muito pálida.
- "Que tens?"
- "Passei a manhã a vomitar. Sabes? Acho que estou grávida!" Miguel ficou radiante. Era a segunda boa notícia do dia. Beijo-a com ternura e afagou-lhe o ventre.

continua

18 novembro, 2016

Os deprimidos (sinopse do conto)


Ando há muito com um conto metido na cabeça e é desta vez que me decido. Começa amanhã e termina (espero que termine) no domingo.

Sinopse:
Tudo se passa em 2090. As personagens, Bruna e Miguel, são um jovem casal. Ela gere um micro-oficio que administra dois deprimidos: Miguel entrega-se à mesma actividade mas a sua dimensão é já de maior responsabilidade pois emprega 26 deprimidos com diferentes escalões. Cumprem um horário generoso de 20 horas semanais o que lhes permite usufruir todos os benefícios de uma sociedade avançada, onde avanços tecnológicos inimagináveis reduziram ao mínimo o esforço humano e também a necessidade de trabalho. Este é assegurado por uma imensa prol de deprimidos, agrupados por diversos níveis de depressão. O primeiro nível é de elevada aptidão e competência, o nível 5 corresponde ao deprimido inútil que é segregado dada a falta de préstimo. O conto inicia-se com os primeiros sintomas de Bruna e o anúncio de uma quase certa gravidez.
É um conto que escrevo não como divertimento mas como um aviso. Muitos dirão que pinto o futuro de muito negro e que tal é impossível. Mas... o impossível é tão só e apenas aquilo que ainda não aconteceu. Por outro lado, haverá a tranquilidade de pensar que ainda faltam muitos anos para 2090 chegar.

Imagem publicada aqui

17 novembro, 2016

Dia nacional do não leitor de jornal*, por que não jornais em branco?


Isto hoje precisa de ser bem explicado e eu explico. E é assim: em tempos, por analogia, comparava os avisos dramáticos referidos nos maços de cigarros à necessidade de avisos correspondentes na imprensa dita de referência e sugeria 
«Todos os jornais deviam em cabeçalho (ou rodapé) anunciar em caixa alta: "Ler esta porcaria mata a cidadania" ou então "Não procure o omitido, publicá-lo pode produzir outro resultado"... »
Nunca mais regressei ao tema e bem o podia ter feito sugerindo, na dita imprensa de referência, que se apusesse, em local destacado "Ler esta merda, queima-lhe os cornos" e por baixo era colocada uma "rogériografia" de gajos com os neurónios queimados.

Como a coisa evoluiu, por que não editar jornais em branco?  Porque não?
Fica a sugestão!
_____
*O titulo podia ser "Dia nacional do não fumador"

15 novembro, 2016

Assad merecia que lhe fizesse uma "rogériografia"?

«RTP: Estive aqui pela primeira vez há quatro anos, e voltei agora. Está a vencer a guerra na Síria?

Bashar al-Assad: Só podemos dizer que vencemos a guerra quando restabelecermos a estabilidade na Síria. Não podemos falar em vitória enquanto houver mortes e destruição diariamente. Isso não significa que estejamos a perder a guerra. O exército está a progredir bem, todos os dias, contra os terroristas. É claro que ainda têm o apoio da Turquia, Qatar, Arábia Saudita e alguns países ocidentais como os Estados Unidos. Mas a única opção que temos a esse nível é vencer. Se não vencermos e os terroristas ganharem a Síria deixará de existir.»

Trazia a expectativa desta entrevista e ei-la. Em vez de os ouvir, tirei o som*. Digo-vos porquê. É que mais o que é dito o que conta é a sinceridade colocada no que se está a dizer. Nem sempre recorro às "rogériografias" para penetrar a mente. Senão vejamos:
  • o homem não passa o tempo todo com um sorriso alarve de como  não se passasse nada;
  • não debita como se estivesse vendendo banha-da-cobra;
  • os gestos são escassos e fala mais com as mãos do que com os braços;
  • olha o entrevistador com olhos de quem espera a pergunta.
"rogériografia" para quê? Trata-se de um cérebro normal, ponto-final!
Assad é um ditador? Bom, a isso já se referiu em tempos o Loureiro dos Santos...
____________________
*depois claro que fui ler, podem crer

14 novembro, 2016

PCP, um partido com um discurso em (oitenta e) dois tempos, sendo o último uma página para apontamentos...

Tem o PCP um discurso dúplice? A direcção comunista aceita apoiar o Governo PS no Parlamento, mas demarca-se e critica os socialistas e a sua governação nas Teses ao Congresso. Jorge Cordeiro explica a razão de ser de um partido a duas vozes.
São José Almeida, no Público, hoje
Não me ocorreu, na altura, avivar à criatura a contradição entre "pragmático" e "programático". Não foi por nada, eu era então um novato e aquilo que à distância hoje me parece uma contradição, na altura nem dei por nada. Além do mais São José considerava que o PCP era diferente, numa fase em que se repetia que "os partidos são todos iguais". 

Hoje a coisa pia mais fino pois já não sou o novato que era então. Avivo a São José a contradição entre "dois tempos" e "duas vozes". E se a contradição é evidente, será menos evidente o erro, as teses integram tantos momentos quantas as suas páginas que são exactamente oitenta e duas, sendo o último momento uma página em branco para os delegados anotarem o que lhe determina a voz do colectivo que o elegerá.
Estas serão, à partida, muito mais que duas, asseguro. E espero, no fim, um uníssono! 

Só reconheço a São José uma verdade verdadeira, por si afirmada: 

"O PCP é um Partido diferente!"
___________________
NOTA: Os erros apontados certamente se devem, também, ao facto de São José andar de um para o outro lado, entre "comentarista" e "jornalista" não admirando por isso que confunda o que ouviu como que escreveu nem que sobreponha ao que registou a sua própria opinião. Jorge Cordeiro nunca terá dito o que o Público destaca em título.

13 novembro, 2016

Einstein mais uma vez... porquê? Porque ele indica o caminho, porque ele me explica a crise de uma forma clara... (e é meu camarada)

 
«Cheguei agora ao ponto em que vou indicar sucintamente o que para mim constitui a essência da crise do nosso tempo. Diz respeito à relação do indivíduo com a sociedade. O indivíduo tornou-se mais consciente do que nunca da sua dependência relativamente à sociedade. Mas ele não sente esta dependência como um bem positivo, como um laço orgânico, como uma força protectora, mas mesmo como uma ameaça aos seus direitos naturais, ou ainda à sua existência económica. Além disso, a sua posição na sociedade é tal que os impulsos egotistas da sua composição estão constantemente a ser acentuados, enquanto os seus impulsos sociais, que são por natureza mais fracos, se deterioram progressivamente.»

12 novembro, 2016

Disse Passos: “Nunca embarquei na ideia de que Trump é tão mau..." / Disse Einstein: "Esse gajo é mesmo passado! Já viram a sua rogériografia?"

 https://okumatonon.files.wordpress.com/2015/08/einstein.png

Diz Passos o que lhe ouvimos dizer. Mas há quem refira as minhas rogériografias do cérebro que afiançam que ele é o pior, dentro do género.
Mais,  ele é pior do que a imprensa e as redes sociais o têm mostrado...
Prova?
O vídeo abaixo tem no you tube só 13 mil  visualizações

11 novembro, 2016

Leonard Cohen morreu? Nem penses, velhos desses apenas adormecem

 
Velho demais

Estou velho demais
Para decorar os nomes
Dos novos assassinos
Este aqui
Parece cansado e atraente
Devotado, profissional
Ele se parece muito comigo
No tempo em que ensinava
Uma forma radical de Budismo
Para os insanos sem salvação
Em nome da velha
Mágica sagrada
Ele ordena
Que famílias sejam queimadas vivas
E crianças mutiladas
Ele provavelmente conhece
Uma ou duas de minhas canções
Todas elas
Todos que banharam suas mãos em sangue

E os mastigadores de vísceras
E escalpeladores
Todos eles dançaram
Ao som dos Beatles
Todos adoraram a Bob Dylan

Prezados amigos
Poucos de nós restaram

Silenciados

Tremendo sem parar

Escondidos no  meio do sangue –
Fanáticos chocados
Enquanto testemunhamos uns aos outros
A velha atrocidade
A velha e obsoleta atrocidade
Que levou para longe
O apetite ardoroso do coração
E acanhou a evolução
E vomitou preces
Leonard Cohen

10 novembro, 2016

Um ano depois, o que digo eu e o que disse Camões (e o que eles disseram)

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Há exactamente um ano, o secretário-geral do PS, António Costa, assinou no parlamento três acordos políticos em separado com as lideranças do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, do PCP, Jerónimo de Sousa, e de “Os Verdes”, Heloísa Apolónia.
 
Sobre tal acontecimento e olhando em frente diria, repetindo-me, o impossível é tão só e apenas aquilo que ainda não aconteceu.
 
Sobre estas coisas, Camões antecipava, sobre a inevitabilidade (dialéctica):
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
 ...e, já agora, oiça o que talvez tenha perdido

09 novembro, 2016

A Web Summit, Mia Couto e o anúncio de Carlos Moedas

 «Pergunta - Para finalizar, uma questão sobre a ideologia tecnológica, que domina os tempos em que vivemos. De que forma a internet, nomeadamente os e-books e os tablets, e a consequente desmaterialização literária, são uma ameaça potencial e o caminho irreversível para o fim dos livros e dos jornais em papel?
Mia Couto - Não me preocupa muito que o livro surja num formato ou noutro. Não é a invasão tecnológica que me inquieta, mas sim a ausência desta presença humana e da história que é contada pela mãe, pelo pai e pela avó. Preocupa-me esta demissão dos laços familiares que entregam para uma escola, ou outra entidade qualquer, o dever de criar. O fascínio pela presença do outro está a perder-se. No fundo, não é o excesso tecnológico que me preocupa, é sim o défice do lado humano.
Pergunta - É frequente ver jovens e menos jovens a sorrir para os telemóveis. É mais um inquietante sinal dos tempos?
Mia Couto - Eles que peçam ao telemóvel que os abrace…»
Entrevista ao escritor, ler aqui 
 

 A Comissão Europeia aproveitou a Web Summit, em Lisboa, para anunciar que vai lançar um fundo de investimento para apoiar um projecto que corresponda ao desafio de Mia Couto... 

08 novembro, 2016

Redacções do Rogérito (33) - "As eleições amaricanas"

Tema da redacção: "As eleições nos EUA"

«Se eu fosse amaricano o que graças à minha costela de alentejano felizmente não sou estaria perante um grande problema pois não saberia o que fazer sabendo bem o que nunca faria sendo que a uma nem a queria para tia nem queria o outro para meu avô.
O arco do poder de lá do sítio é uma treta mas é um sistema que ou acaba ou é o mundo que não se aguenta.
Não percebo porque é que a imprensa da Europa da África da Oceania do Oriente e a daqui do bairro da Medrosa não passam cartão à divisão entre os que não prestam para nada e os que não valem para coisa nenhuma.
Eu que nunca votei nas eleições amaricanas mas se votasse votava em quem nunca ninguém votou e por isso o que eu gostava é que votassem em mim e se ganhasse o que eu faria era mandar os códigos atómicos para o maneta e as chaves de acesso às ogivas e bombas para o forno eléctrico para entrarem em fusão e assim iniciar o processo de desnuclearização. O problema é que os amaricanos não sendo eu candidato vão é ficar em casa que é coisa que eles estão habituados a fazer. 
Vão ver!»
Rogérito

PS: A stora vai gostar desta minha redação 
que está cheia de palavras caras e até gosta que não use o acordo "ortopédico"

06 novembro, 2016

Esquecer Sophia? Eu? Era o que faltava!...

(ora veja aqui)

Começa amanhã a Web Summit, altura para oportuna pergunta: É possível expurgar o empreendedorismo do seio do neoliberalismo?


Na última sessão da  XXV Cimeira Iberoamericana, Lina (da Colômbia) e Alejo (de Cuba) partilham a leitura pública do "Manifiesto - Iberoamérica Emprende Desde La Universidad". Traduzo, a dado passo, a passagem:
«Estamos empenhados num empreendedorismo inclusivo, sustentável e social, numa equipa de empreendedorismo, longe dos modelos individualistas e egocêntricos do passado. O velho estereótipo do empresário solitário contra as adversidades do mundo deixou de ser válido. O Empreendedorismo no século XXI se faz em equipas multidisciplinares, multiculturais e intergeracionais.»
(texto do "Manifiesto", aqui)
Não sei se todos ou apenas alguns dos 50 mil jovens que amanhã irão "invadir" Lisboa, participar no Web Summit e intervir em centenas de conferências, leram o "Manifiesto". Não sei, mas é muito provável que os 22 jovens que subscreveram o documento não estejam isolados e que aquele escrito  traduza um sentir alargado. Não sei.

Eu li. Na parte citada, parece generoso o propósito de reenquadrar o conceito de empreendedorismo, retirando-o da ideologia neoliberal que tenho vindo a denunciar e percebo porque no mesmo documento se refere a necessidade de ir à escola reenquadrar tal ensino na linha defendida pelo "Manifiesto"
(para ouvir, colocar o vídeo a partir de 2h 27min) . 

É que o conceito antigo já por lá anda e é necessário de lá expurgá-lo.

05 novembro, 2016

O orçamento, a mudança e os meus diálogos com Einstein - 2

 

Depois do orçamento aprovado, Einstein voltou a dizer-me o que me tinha em tempos segredado quando se colocou do meu lado, que era ainda "reduzido o número daqueles que vêem com os seus próprios olhos e sentem com o próprio coração. Mas da sua força dependerá que os homens tendam ou não a cair no estado amorfo para onde parece caminhar hoje uma multidão cega."

Respondi-lhe com aquela convicção de eterno esperançado: "Hoje alguns cegos já vão vendo... e quando ao coração, esse, manda a anatomia da vida, que bata sempre do lado esquerdo"

04 novembro, 2016

Hoje é a vez do M (eme) a 13ª letra do alfabeto latino, poeta por destino



POEMA INTRODUTÓRIO
O poema tem o travo
De um raminho de hortelã
Sobre o vermelho do cravo
Dos poetas de amanhã

Ele há portas, muitas portas
Por detrás de cada muro
E os poemas do futuro
Tombam como folhas mortas,
Ou fervilham nas retortas
De um poeta ainda obscuro
Cujo percurso foi duro,
Cujas mãos pendem absortas
Porque se fecham comportas
Onde deve abrir-se um furo...

Há, porém, o travo fresco
De um pé de manjericão
A dominar o grotesco
E a passar de mão em mão

Abram alas, abram alas
Que o poema quer passar;
Cansou-se de se curvar
Pr`a desviar-se das balas
Que vão fuzilando as falas
Dos versos que quer cantar,
Mas que não volta a calar
Porque há-de ressuscitá-las
Assim que todas as salas
Se abram pr`ó futuro entrar...

Tem o gosto das amoras,
Traz o sabor do que é novo,
Troca as voltas às demoras
E vem dar mais voz ao povo!
Maria João de Sousa
in "A CEIA DO POETA"

03 novembro, 2016

Por pena minha... poucos ligaram ao Gonzaguinha

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Gonzaguinha
Foi ontem,
pois hoje eu repito
Não vá dar o não visto
por visto
O não ouvido
por ouvido
E o escutado
por esquecido

Pare, escute, olhe
CPLP?
E isso é o quê?
Vamos à luta?

02 novembro, 2016

CPLP... quando as canções e as imagens valem mais que um milhão de palavras...



Um dia, não há muito, me perguntava porque não fazia a CPLP
 parte de um "Plano B"?
E citava Akira Miwa... o tempo foi passando, passando.
E pergunto, a pergunta de há muito:  E porque não amanhã?








01 novembro, 2016

Depois do dia D, dia de outra letra... L (e que não esqueça)

  imagem: Serge Marshennikov


 
  «Nunca mais servirei senhor que possa morrer.»
Sophia

uma imagem [pre]sentida a percorrer as veias
um pescador de anzóis, um peixe em sobressalto
a pular do azulejo para a água.
a boca seca. um mar de escamas lançado no lavatório
o sabonete a destilar inquietas sugestões.
lá fora, longe, teus braços…
chegarão a tempo teus braços de me salvar?
chuva, dedos frios desenham corpos invisíveis
que desfilam no declive deste universo
de paredes espessas e altas e surdas.

desvias do deserto o pensar
o gato cata cacos nos brilhos quebrados
do jarro que era da avó. o gato escorraçado.
que faz o gato ainda nesse lugar onde o bolor engorda?
quanto a ti
gostava de te ver, confesso,
à hora de um outro relógio noutro céu denso de azul
que, em se pousando os olhos,
outros vértices, outras faces, outras orações.
gostava de te ver, se ver-te fosse saber-te eu.
inverso a este reflexo no espelho, contraditório
em simetrias sucessivas. um pescador de anzóis,
um peixe embrulhado em verdes algas
inundando de alucinações líquidas o rio
(dizem que a vida é um rio), como se fosse a vida
culpada da rigidez da pedra no meio da água,
a pedra que o rio não deixa de violentar. A pedra
que enfrenta a corrente e não, não cede.
fosses pedra e meus braços seriam em ti foz
e seríamos tu e eu sem fim, unos
imóveis, insensíveis…

e insensatos para todo o "nunca mais".