20 novembro, 2016

Os deprimidos - Parte II

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Correspondeu àquele beijo com a mesma intensidade com que se sentia beijada. Há muito que o Miguel não o fazia. Depois sentaram-se na cozinha, evitando a sala espelhada, onde em tempos, para simular estarem acompanhados a semearam de espelhos e se sentiam compensados das ruas vazias, olhando os seus reflexos.
Naquele momento queriam mesmo sentirem-se na intimidade. A gravidez de Bruna, que depois viria a ser confirmada, levava ambos a sentir essa necessidade. Falaram de projectos futuros, de como a vida iria mudar com um novo ser, da necessidade de se programarem de modo diferente, de como teriam de alterar a forma de gerir seus ofícios. "Podemos passar a gerir no modo virtual, os TelOficios estão em saldo e podemos configurar o software de forma a controlarmos o teu e o meu", sugeriu Miguel. 

Bruna reagiu em lamento, comentando a insegurança de ter a actividade do seu Oficio suportada apenas por dois deprimidos com o nível 2 de depressão e à beira do previsto "fim do período de vida útil" pelo que a sua entrada no nível de depressão seguinte requereria mais apoio presencial. Miguel tranquilizou-lhe a ânsia. E lembrou-lhe a notícia do medicamento INFARMED. "Se começarem o tratamento nos dias mais próximos terão a capacidade actual por mais 10 anos e, nessa altura, já a nossa criança terá mais autonomia" argumentou Miguel. Bruna, convencida, aceitou que fizessem a encomenda do aparelho naquele instante.
Ele fê-lo através do TelLog, exclamando "boa, a entrega será imediata!" e de seguida fizeram a encomenda do anunciado tratamento no sítio da farmácia virtual...

Passados 15 minutos, o quadro monitor da demótica do condomínio assinalava uma entrega proveniente do drone 327 e que este aguardava o aviso de recepção.  Miguel, clicou "OK" no TelLog. Bruna foi buscar o aparelho e em gesto apressado libertou-o da embalagem. Olhando o aparelho era, na aparência, igual aos dois outros apenas se diferenciado pela cor. O TelLog era azul, o TelCom amarelo e aquele era vermelho. "Configuramos já?" perguntou Bruna antecipando a resposta ligando o pequeno portátil. 
Entrou no menú geral e clicou em "registe-se"
Inseriu os dados do seu Oficio, identificação fiscal, número de deprimidos no activo, nível de depressão e número do Cartão de Cidadão (neste campo, havia uma nota, "o chip do CC assegura a rastreabilidade dos inputs). Parou. 
- "Miguel, o que significa isto?"
- "Acho que cada função a controlar tem por base a identificação da pessoa a controlar, deve ser isso!"
Bruna continuou para o menú das funcionalidades, passando o aparelho a apresentar uma tela com várias linhas em frente às quais tinha um espaço um apor um pisco:
  1. - relógio de ponto - v
  2. - atraso tolerado - v
  3. - localizações fora do Oficio (integra GPS) - deixou em branco
  4. - localizações dentro do Oficio (integra planta do edifício) - v
  5. - Lista de Tempos por Tarefa (integra Plano de Trabalho) - v
  6. - Tolerância para tempos despendidos fora do Plano - deixou em branco
De seguida clicou "em passar à tela seguinte" e apareceu o alerta "o campo 6 é obrigatório" e Bruna volta a inquirir Miguel:
- "Porquê este campo obrigatório?" 
- "Acho que se não preencheres esse campo deixas de poderes receber alertas sobre os riscos de incumprimento do Plano de Trabalho, deve ser isso!"
Bruna fica a pensar e depois exclama:
-"Ah, pois é!, agora me lembro quando estivemos a configurar no outro micro-portátil as encomendas a lançar nos supermercados, havia algo assim semelhante... até tinha um alerta sobre os riscos de mantermos conversa com os os deprimidos locais para além de um certo tempo... avisava que colocava em risco o completar-se a encomenda... lembras-te?" Dizendo isto, foi ao campo 6 colocar o pisco. 
E continuou a introduzir os dados. Após validar toda a configuração, pediu ao Miguel se podiam passar para a sala de espelhos.
"Sabes?, preciso de ver gente!"
Nesse preciso momento recebia no TelCom, pela função alta voz, a seguinte mensagem:
«Última hora. Feitos hoje  os testes em carga sobre a nova fábrica de montagens de automóveis da Wolkswagen. Com as novas tecnologias de automação, todas as operações foram robotizadas bastando um único deprimido, com a qualificação de 1º nível de depressão, para assegurar o seu funcionamento. A CIP já comunicou ao Governo o Programa de recolocação dos 250 deprimidos que passam ao quadro de excedentários prevendo-se que, desses, 20% possam ser integrados em Ofícios de manutenção.»




13 comentários:

Anónimo disse...

... vão-se redefinindo e adensando, os contornos de pesadelo... haverá lugar para poetas vivos, nesse espaço/tempo?

Abraço!

Maria João

Elvira Carvalho disse...

Cada vez o futuro parece mais negro...

Janita disse...

Com todas essas previsões tão limitadoras e deprimentes, em relação a um futuro que, não está tão longe quanto parece, pois ainda que por cá eu já não ande, nem filhos nem netos- e se calhar- nem bisnetos, andarão tataranetos, certamente.
Só de pensar em tanta depressão, já me está a roubar o prazer de viver o Presente.
Bolas, Rogério, não ande tão à frente...que isso até faz mal à gente!

Um abraço!

Fê blue bird disse...

A situação está a complicar-se, os deprimidos vão sendo suprimidos e os espelhos não estão a resolver a situação, temo pelo rebento.

Aguardo novos capítulos.

beijinho

Agostinho disse...

Deprimidos de trás d'orelha, Rogério! Programados da central de recolocação nem é preciso ir para a fila do serviço de disponíveis já que o chip de trás d'orelha está permanentemente ligado ao servidor central - o cérebro de todo sistema.
Tá bem, tá, os cérebros das start-ups já estão a trabalhar no sistema por encomenda da dupla leporino-schaubleriana. Ou será hitleriana?

Continua que estou a gostar, para meu desgosto.

Abraço.

Rogerio G. V. Pereira disse...

Quando deixar de haver lugar para os poetas
a humanidade acaba
e não é suposto que meu conto não seja de esperança

Rogerio G. V. Pereira disse...

O futuro não parece
o futuro é

a menos que algo aconteça
e no meu conto vai acontecer

vai ver

Rogerio G. V. Pereira disse...

Não ande tão atrás

Quanto a essas previsões, garanto-lhe que só em parte o são... não há um único elemento que entre no meu conto que já não seja realidade... pergunte a uma operadora de caixa no Continente o que acontece se estiver a conversar mais do que permite o sr. Belmiro

Vá, faça isso!

Rogerio G. V. Pereira disse...

Vai já ver o que vai acontecer aos espelhos...

Rogerio G. V. Pereira disse...

Agostinho
quéqué isso?
Meu amigo
o cérebro de todo o sistema só prevalece se lhe aceitamos as regras

Vale mais um humano...

Maria Eu disse...

Tudo programado, detalhado, controlado. Huuuummmmm... Tu não vais deixar de "infectar" a história com uma revolução! :D

Rogerio G. V. Pereira disse...

Um dos meu grandes defeitos, até pelo meu itinerário
é ser previsível, mesmo quando queira parecer o contrário

Agostinho disse...

Pois, mas com pantufas e a sedução, digo antes, assédio a que as pessoas estão sujeitas há dificuldade em ser-se optimista.
A porcaria que é despejada nos media confunde a maioria das pessoas. E Portugal ainda é muito salazarento, um país de conveniências, de favores e até de castas (tenho esperança que as novas gerações não se deixem enredar - mas há engodos, web summits a que é difícil escapar.
A gíria popular ensina o povo no bom sentido... "não deixes para amanhã o que puderes fazer hoje" ou "ninguém faz por ti aquilo que te compete fazer". Assim ele acorde.Quem o acorda?
Abraço