21 novembro, 2016

Os deprimidos - Parte III (fim, ou o começo de tudo)

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Ia fazer no dia seguinte 25 anos.  E na sala, que já tinha sido de espelhos, relembrava o que aquela sala o fazia lembrar. Tinha ideia de ali ter gatinhado, de ali ter aprendido a andar, de ali ter dito a primeira palavra (embora não se recordasse qual, admitia ter sido a palavra "mãe"), de ali ter assistido ao ar feliz do pai dizendo-lhe ainda criança "olha a mãe tem uma depressão benigna, tem assegurada cura". Nessa altura nem conhecia todas as  palavras que seu pai empregara, mas o rosto e o tom com que o dissera, faziam-lhe adivinhar que as noticias sobre a mãe eram boas. E foram, sua mãe Bruna regressara a casa, curada sem riscos de ser qualificada como deprimida. E foi nesse mesmo dia que a sala de espelhos deixou de fazer sentido. Dia após dia, serão a seguir a serão, a sala era onde a família se reunia. Nunca mais foi necessário simular que havia gente, para além da gente que ali havia. Eram só três, mas a sala passou a estar cheia.
Fazendo esse retorno ao passado, ocorreu-lhe que o passado é mais que a memória que cada um guarda. Animado de um propósito subiu a escada. Tinha de descobrir quem seus pais seriam e qual seria o passado dos deprimidos. No sótão estaria a resposta. E procurou-a. Havia lá de tudo o que ficara fora de uso. A um canto, jazia tecnologia antiga, aparelhagem diversa e descontinuada. Tralha. Pegou naquilo que em aspecto mais se aproximava dos Tels em uso. Tentou ligar, mas não acontecia nada. Aturadamente foi tentando até que se ligou. Cedo percebeu que nem por ser coisa antiga lhe seria vedado o acesso. Raciocinou que os sucessivos up grades das actuais redes mantinham a lógica da primitiva que lhe dera origem. Foi insistindo, experimentando hipóteses... E, a dada altura, "Bingo!" exclamou para consigo.

Ao entrar, a primeira imagem era enigmática, tinha o que lhe parecia ser um barco e uma frase "Nada é definitivo num naufrágio, havemos de corrigir o rumo errado!"  Que quereria aquilo dizer? Fez outras tentativas para encontrar a resposta e de cada vez que tentava mais perplexo ficava. Poema? O que seria um poema? Leu e releu, e começou-se a fazer na sua mente alguma luz... e uma pista: aquele nome, igual ao seu. Quem seria ele? Anotou a data, Dezembro de 2012. Foi há 100 anos. Ia a progredir na pesquisa, quando sua mãe o chamou: 
- "Rogério, tens o jantar na mesa, daqui a nada está tudo frio, filho!"
E desceu a correr.

No outro dia, e no outro, e no outro, muitos a fio, não descolou do propósito. Passado meses quase tinha a certeza de quem era (seria neto de um dos netos deles) mas não tinha qualquer dúvida de que a classe dos deprimidos era originária dos precários do século passado. A luta dos precários de então tinha-se gorado e a sociedade tinha mudado. Meteu-se-lhe então na cabeça um desafio: "Porque não regressar à luta? Porque não fazer renascer a esperança?" E voltou a ler o poema. Nunca tinha lido um poema assim, na verdade, nunca tinha lido nenhum poema na vida.

Passaram meses sobre a descoberta e a decisão de iniciar uma investigação. Para a investigação que tinha enveredado, faltava-lhe encontrar o algoritmo que conseguisse desligar cada chip de cada deprimido de forma a que este não fosse controlado sem que o sistema de controlo e os planos de trabalho fossem dar o alarme aos ofícios onde o deprimido estava alocado.  Resolvido e testado o algoritmo iniciaria o plano. 

Passaram meses sobre o teste do algoritmo, sobre o sucesso do teste e sobre o inicio do plano. Na sala, que antes tinha sido de espelhos, 397 rostos aguardavam poder contribuir para o que se fosse seguir: como desactivar todos os sistemas: da logística à domótica, dos tempos de controlo aos chips dos controlados, do accionamento dos drones à recepção de encomendas, dos braços robotizados a todos os "OKs" programados.  Consensualizado o plano, cada um foi para o seu lado, munido de uma tarefa, clara, precisa.
A data combinada? 25 de Abril! 
A senha? "Conversa Avinagrada"! 

FIM