07 janeiro, 2018

Depois dos Reis, o lixo natalício e outros lixos


Hoje, desmontado o presépio e a árvore e devidamente guardadas as luzes, figuras, estrelas, bolas e rosas, restou tudo aquilo que só poderá ter por destino o lixo. Ao lixo natalício juntámos o outro de onde avultavam embalagens e jornais. Num deles, caiu-me o olhar sobre a última página, numa coluna encimada por um redator/comentador de olhar pisco, dei por um artigo que ainda não tinha lido... Dizia o escrito:
«O ano que vem será do primeiro aniversário depois do centenário da Revolução Russa: 2018, quando ela faz exatos 101 anos. O importante não será evocar, de 1917, Lenine e os sovietes a tomarem o Palácio de Inverno. Isso, contas feitas, foram só maus exemplos. Aliás, como repararam, o 1917 russo ficou marcado por um quase esquecimento. A revolução tradicionalmente evocada é a de outono (outubro ou novembro, por causa da ambiguidade do calendário russo) e essa já ganhou na nossa memória o estatuto de fiasco. Já sabemos que Lenine e os seus foram meros - mas muito eficazes - golpistas que se aproveitaram de um profundo movimento social para fugir para a frente e tomarem o Estado. Tão para a frente que não tinham soluções e geraram uma sociedade árida que, demasiadas décadas depois, morreria de si própria e com crimes gigantescos. A falta de entusiasmo no centenário de 2017 deveria ser aproveitada para, em 2018, descobrirmos o que foi importante há 101 anos: a Revolução Russa. Não a de Lenine mas a de fevereiro de 1917, quando a história e as suas leis inesperadas acabaram com o feudalismo na Rússia e a autocracia dos czares.»
E Ferreira Fernandes (esse mesmo), ufano do elevado cargo de mercenário do novo poder* progride na prosa fazendo o balanço sobre o silenciamento da História e faz o que sabe fazer melhor: apaga-a e distorce-a.
Ocorreu-me então e a propósito um outro texto que lhe dá resposta, repondo os factos:
«A 25 de outubro de 1917, se seguirmos o calendário juliano então em vigor na Rússia, a 7 de novembro de 1917, se seguirmos o calendário gregoriano, em vigor a ocidente e que foi adotado pela Rússia Soviética em 1918, o chamado Partido Bolchevique, posteriormente Partido Comunista, lidera a tomada do poder em Petrogrado (nome de São Petersburgo desde 1914), capital de um vasto país farto da barbárie imperialista da Primeira Guerra Mundial. O governo provisório, desde o derrube do Czarismo, em fevereiro/março de 1917, insistia em prosseguir a guerra. O início da experiência comunista é incompreensível sem a dupla rejeição da guerra imperialista entre as grandes potências e do socialmente injusto e predador capitalismo, que, segundo Lenine, era a sua base material. Um dos primeiros decretos do novo poder dos sovietes, o da paz, apela, em simultâneo, ao fim das hostilidades, à autodeterminação dos povos e à revolução social.

O historiador Eric Hobsbawm argumentou certeiramente que o século XX é incompreensível sem os efeitos internacionais desta experiência revolucionária: “Até porque ela se revelou a salvadora do capitalismo liberal, tanto ao possibilitar ao Ocidente ganhar a Segunda Guerra Mundial contra a Alemanha de Hitler como ao fornecer o incentivo para o capitalismo se reformar”. O medo do comunismo foi de facto um “incentivo” para que as elites se conformassem temporariamente com o mal menor da reforma social-democrata do capitalismo, em particular na Europa Ocidental, sobretudo quando o expediente autoritário do nazi-fascismo, que muitas apoiaram, foi derrotado. Num certo sentido, o keynesianismo é filho do medo do colapso, tanto económico quanto político, do capitalismo.

Mas para lá disto, é preciso sublinhar que muito do anti-imperialismo, em geral, e do anticolonialismo e antirracismo, em particular, mais consequentes no século XX, a sul e a oriente, são incompreensíveis sem o apoio do movimento comunista e da URSS, bem como de outros Estados socialistas. Não esqueçamos que as potências ditas liberais, da França à Grã-Bretanha, eram abertamente imperialistas e colonialistas antes e depois das duas Guerras. E que os EUA do incensado, mas segregacionista e racista, Presidente Woodrow Wilson aceitaram que o princípio da autodeterminação dos povos ficasse logo a seguir à Primeira Guerra Mundial basicamente circunscrito aos novos Estados europeus. Nesse, como noutros aspetos, o vilipendiado Lenine, por exemplo, era bem mais progressista.

Do Encontro dos Povos do Oriente, em 1920, promovido pela Internacional Comunista em Baku, e de onde sai um apelo à rebelião anticolonial, dirigido em particular contra a Grã-Bretanha, à Primeira Declaração de Havana, em 1960, onde a jovem revolução cubana, liderada por Fidel Castro, lança um apelo anti-imperialista aos “povos da nossa América”, vitimas da ingerência dos EUA, passando pela Conferência de Bandung, em 1955, onde participa já a China comunista, a revolução social no Terceiro Mundo foi também uma luta pela soberania e independência nacionais.

Apesar da violência muitas vezes criminosa, a experiência soviética de industrialização acelerada constituiu durante muito tempo um exemplo de como, através da planificação, era possível industrializar rapidamente sociedades agrárias e dependentes. Não por acaso, o comunismo foi sobretudo popular, para o bem e para o mal, em sociedades semiperiféricas e periféricas.

Inspirados pelo célebre episódio de A Vida de Brian dos Monty Python, é caso de perguntar já não o que é que os romanos fizeram por nós, mas agora: o que é que a Revolução de Outubro e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, criada em 1922 e extinta em 1991, fizeram por nós? Para lá de terem metido medo aos ricos, obrigando-os a integrar os de baixo nas sociedades capitalistas ocidentais, assim menos limitadamente democráticas, para lá de terem dado o contributo decisivo para a derrota do nazi-fascismo ou para lá de terem ajudado a inscrever o anti-imperialismo e o anticolonialismo nas dinâmicas de um sistema internacional eventualmente menos hierarquizado?

E os seus fracassos, crimes e derrotas, não impedem outra pergunta: será que o mundo ficou melhor depois de 1991?»
Este texto não foi tirado nem do Avante
nem do "O Militante" mas sim daqui
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* O novo poder a que me refiro emerge de um outro, em declínio. A imprensa escrita e os media em geral eram rotulados como 4º poder e a este correspondia o exercício de criar uma opinião pública esclarecida e interventiva. Isso foi chão que deu uvas. O que hoje se passa nas redações pode passar a ser rotulado como um novo poder. Voltarei ao tema, acho que valerá a pena. 

3 comentários:

Elvira Carvalho disse...

Em Outubro passado tive uma aula aberta sobre a revolução russa, muito interessante.
Ainda convalescente mas graças a Deus bem melhor, estou de volta.
Abraço e boa semana

samnio disse...

Será que o mundo ficou melhor depois de 1991? tento responder eu. Será que o mundo alguma vez esteve melhor ou pior? O mundo é feito de Homens. Homens que no seu intimo, embora por caminhos diferentes, todos querem o domínio do poder. Mudam os tempos mudam as épocas, mas o homem continua o mesmo. Um Abraço amigo.

Maria João Brito de Sousa disse...

Iambém me parece que vale a pena voltares ao tema.

Abraço.