11 fevereiro, 2018

Um conto ao Domingo - II ("as memórias de um marujo")

A imagem terá quase tantos anos quanto aqueles que eu somo. É esbatida a imagem, mas não a memória que guardo daquele velho. E só não lhes conto detalhes dele enquanto novo, pois não seria natural a um neto lembrá-lo enquanto tal. 

Joaquim Bento Guerreiro, era só conhecido por Ti Joaquim Bento, por ele mal usar o último apelido, quase sempre omitido por razões que nunca referia e que nem os que lhe eram próximos inquiriam pois tinham a ver com uma infância sofrida. O Ti, diminutivo muito em uso por ali, lhe era acrescentado pela vizinhança e não deixava de traduzir um respeitoso e carinhoso trato, como se o tivessem adotado como membro da pouco numerosa prole que habitava aquele lugar, entre a Moita do Ribatejo e o Chão Duro.

Homem de francas e calorosas falas não as usava nem na taberna nem em um outro lugar, dos poucos que por ali havia, para dar dois dedos de conversa, pois o tempo era por ele contado para cuidar daquilo que ele julgava ser onde o tempo devia ser gasto. Já assim não era com a sua mulher, a Mariana, que por vezes para ir comprar um litro de sal distraia-se em cavaqueira chegando a perder a manhã inteira, incapaz que era de dar justificação ou desculpa para romper uma qualquer conversa, desde que não fosse coscuvilheira.

Joaquim Bento levantava-se muito cedo, primeiro para tratar da lareira. Fazia-o com cuidado esmero, não lhe faltando a lenha pois que a poda nem sempre a fazia bem feita e sempre lhe sobrava madeira. E era podas de videira, romãzeira, figueira e de outras árvores de fruto à mistura com as podas do olival, abrangendo  todas as árvores da quinta, num bem estudado mix para obter o odor desejado, em equilíbrio com o ponto de ignição, para que todos os toros ardessem por igual. 

Fogo pegado, ajeitava a cafeteira e na água fervente juntava-lhe duas ou três colheres de café, e depois de levantada a fervura, depositava uma pequena brasa para que a borra depressa decantasse. 

Joaquim Bento e Mariana
O aroma da lenha somado ao do café funcionava como um despertador para Mariana e ambos, após o pequeno matinal repasto, saiam para as lides da quinta, ela para tratar da criação, ele para os afazeres agrícolas com exceção da vaca que ele tinha por sua conta, na missão de levar-lhe a palha. "Vai lá tu, Joaquim, ela gosta mais de ti" disse-lhe Mariana, um dia, apontando o estábulo improvisado e já a caminho da pequena pocilga para tratar da porca, e depois dos gansos, e depois das galinhas, e depois aos pombos e só no fim os coelhos, quando ele trouxesse a erva que chegasse.

Todos os animais da quinta tinham nome, mas só me lembro do dado ao cão, o "Naice" (assim escrito, conforme dito) e receio trocar os dos outros todos. Coisa imperdoável seria trocar o nome dado à porca por aquele que fora dado à vaca...  

Aquela quinta** dava tudo pois Joaquim Bento e Mariana assim o garantiam. Desde cereais a frutos, toda a espécie de hortícolas e tubérculos, vinho e até azeite. Tudo trabalhado a braço e a estrume, pois os animais além de boa carne, com exceção de um ou outro caso*, também garantiam o adubo orgânico que bastasse...

Esta rotina, só era alterada nas férias, quando a quinta era invadida pela alargada família e Ti Joaquim Bento e Mariana, se por um lado tinham redobrada ajuda, por outro eram chamados a outras tarefas. Ele era solicitado a contar histórias***, ela a embalar sorrisos.

Numa dessas férias, o meu tio Maurício, impressionado pelo que vira deixou a promessa de aligeirar o esforço de meu avô no levantar a pulso dezenas de baldes do poço, na tarefa empenhada na rega do pomar.  "Não pode ser, num homem daquela idade".

Promessa feita, promessa cumprida. E sem que já ninguém se lembrasse que a tinha feito, meses depois, meu tio trouxe uma bomba de água, provida de um pequeno moto-compressor e em segredo montou-o no poço. Chamou-o para lhe dar a surpresa e ele foi. 

Olhou a aparelhagem, muito sério. Meu tio, julgando que o seu ar seria porque se intimidara em lidar com a tecnologia, avançou com um "não custa nada!" e explicou tim-tim-por-tim como se fazia:
"Aqui, liga o motor. Depois ferra a bomba, assim. E de seguida puxa este botão para cima". E repetiu  tudo o que dissera, pondo a bomba a bombear. E bem  depressa se enchia o tanque de rega.
- "Está a ver?"
- "Estou, mas não posso usar isso!"
Surpreendido, questionou com um desiludido por quê. A resposta surgiu pronta.
- "Sabes que levo meia-manhã a fazer tudo isso que esse zingarelho faz em minutos? Que faria nesse entretempo? E depois enquanto o faço, a braço-a-braço, recordo quando era grumete e baldeava o convés, com um balde que é tão parecido com este. Quando o elevo agora parece que volto a sentir a brisa do mar a desalinhar-me os cabelos. Este esforço que faço agora ajuda-me a fazer perdurar tal memória. Se isso se for, vou eu atrás!" 

Meu tio e todos nós mal tínhamos presente que Joaquim Bento fora marujo e nem nos passava pela mente que era com memórias de mar que ele tão bem cultivava a terra.
_______________________
* "Este Natal não há peru"
** "Escolas da minha vida: a quintinha dos meus avós"
*** "A Flauta (aquela que agora me faz tanta falta)"


 

 

8 comentários:

Elvira Carvalho disse...

Adorei ler, amigo. Um grande homem o seu avô. Meu pai era assim. Só confiava na força dos seus braços e vivia muito de recordações. Penso que hoje já não há gente assim. Estamos na era da facilitação.
Abraço

Lídia Borges disse...

Quem assim conta é digno de ser ouvido.

Quanto ao resto, é assim! Aparecem p'raí uns "zingarelhos" que nos dão cabo dos sonhos.

Lídia

Rogerio G. V. Pereira disse...

Enganas-te Elvira
Cada um da minha família é um pouco
de Ti Joaquim Bento

Todos, todos, todos
Embora tens razão nesse ponto
a facilitação

Rogerio G. V. Pereira disse...

Geringonças, sim
Zingarelhos, não

E obrigado
por me ter escutado

Graça Sampaio disse...

Muito bom! Gostei de ler!
Homens de outros tempos, de outra têmpera....

Rogerio G. V. Pereira disse...

Graça, esse Homem de outros tempos deu-me como herança a sua têmpera...
...e é por isso que o trago à memória

Janita disse...

Peço desculpa ao contador de histórias dominicais,
que as conta tão bem como outras não li iguais.

Só hoje me apercebi da falha e vim remediar a falta da minha presença atempada.
Compreendi as razões do Ti Joaquim Bento na recusa da bomba para extracção da água do poço, mas fiquei com pena. Já viu que se todos nos negássemos a aceitar as mudanças, alegando facilitismo, hoje o neto Rogério não estaria aqui e agora, a contar a gente que vive tão longe dele aquelas coisas que lhe encheram a alma e aconteceram outrora?
Tive pena, mas adorei ler e saber um pouco mais da sua história.
Aguardo o próximo conto de Domingo.
Prometo que virei a tempo e horas.

Um abraço.

Rogerio G. V. Pereira disse...

Janita
Rica rima

Quanto ao atraso, tarde vem
quem nunca chega

Meu avô, que tudo me ensinou
(o que aprendi depois foram meros refinamentos de seus ensinamentos),
era um homem virado para a frente... Só que entre o progresso e a sua memória, foi esta que prevaleceu... decisões aos 80 anos são todas respeitáveis...