18 fevereiro, 2018

Um conto ao Domingo - III ("receitas para treinar os músculos da paciência")

Dizia de si para si, com uma frequência usada para seu auto convencimento, que mudar o Mundo não custava muito* e o contava era o tempo que isso levava. Os acontecimentos dos últimos anos e a sua rápida sucessão mexeram com ele a ponto de duvidar se teria disposição em dar tempo ao tempo para que a mudança do Mundo ocorresse. 
Sempre ouvira dizer que a impaciência é reacionária e, assim, tomou a decisão, ir aO Bairro, procurar O Senhor Calvino e seguir-lhe a lição. Não levou demora a encontrá-lo, folheou o livro até encontrar a página, que releu atentamente.  
«Para treinar os músculos da paciência o senhor Calvino colocava uma colher de café, pequenina, ao lado de uma pá gigante, pá utilizada habitualmente em obras de engenharia. A seguir, impunha a si próprio um objetivo inegociável: um monte de terra (cinquenta quilos de mundo) para ser transportado do ponto A para o ponto B - pontos colocados a quinze metros de distância um do outro.

A enorme pá ficava sempre no chão, parada, mas visível. E Calvino utilizava a minúscula colher de café para executar a tarefa de transportar o monte de terra de um ponto para outro, segurando-a com todos os músculos disponíveis. Com a colher pequenina cada bocado mínimo de terra era como que acariciado pela curiosidade atenta do senhor Calvino.
Paciente, cumprindo a tarefa, sem desistir ou utilizar a pá, Calvino sentia estar a aprender várias coisas grandes com uma pequenina colher.»
Fechou livro e sentiu-se revigorado de paciência a ponto de estar disposto a regar uma pequena planta, gota a gota, para o resto da vida toda.

*Ver no Google  

8 comentários:

Janita disse...

Já Arquimedes dizia que se tivesse um ponto de apoio, moveria o mundo munido de uma simples alavanca. A mudança que aqui se deseja é diferente, mas requer tempo e paciência.
Que a paciência não falte ao projectista desta façanha de tão grande envergadura. É ir treinando e aprendendo com o Senhor Calvino, com o Senhor Palomar, tudo e com todos e lá chegará. Força e perseverança.

Um abraço. :)

Elvira Carvalho disse...

Treinar a paciência é um bom ponto de partida pa que o desanimo não o vença.
Abraço e boa semana

Maria João Brito de Sousa disse...

Pressupondo que a pá corresponda ao ordenado médio deste nosso país e a colher de café ao RSI, não tenho eu feito outra coisa senão aquilo que o senhor Calvino faz... só não o faço por opção própria e sim porque não tenho alternativa.

Abraço grande

Rogerio G. V. Pereira disse...

Boa dica, Janita
No próximo conto
o Senhor Palomar estará connosco

Rogerio G. V. Pereira disse...

A ideia deste conto, Elvira
era (é) sugerir que todos fossemos aos treinos

Rogerio G. V. Pereira disse...

Deste a volta ao texto

Se o Gonçalo M. Tavares nos lesse haveria de te saudar...

Maria João Brito de Sousa disse...

Se ele nos lesse, também eu o saudaria a ele :)

Fica outro abraço para ti e para todos os que te/nos lêem.

maceta disse...

dava-me jeito um pedaço de terra, podia ser um quintal...