13 novembro, 2011

Homilias Dominicais (citando Saramago) - 57

Mais que um franzir de testa às ideologias da direita, 
as palavras de quem sabia analisar e prever...

A homilia de hoje não está de costas voltadas para a rua, onde a luta continua. Os muitos que ontem, sábado, desfilaram, segurando panos, empunhando bandeiras, dísticos e punhos erguidos, têm cada vez mais, e em simultâneo com a expressão da rejeição das medidas que só podem conduzir o país à miséria, a consciência que esta não é a Europa que ansiaram, se é que algum dia chegaram a ter tal ânsia. A homilia de hoje está virada de frente, cara a cara, com todos aqueles que ignoraram avisos e se transformaram nos parceiros ilegítimos de um sonho parvo, ignóbil, servil, injusto e que contraria toda a história do nosso povo. Agora não restam dúvidas, quanto aos desígnios do chamado "Projecto Europeu", mas há 20 anos atrás já havia alertas lúcidos para as certezas de hoje (que alguns ainda teimam, ou fingem, não compreender). Propostas? Também as houve, (à maneira dele) logo que Portugal aderiu a esta coisa chamada Comunidade
HOMILIA DE HOJE 
"(...)A Comunidade é o Conselho de Administração de uma grande empresa chamada Europa, que tem produtores que são consumidores, consumidores que são produtores, e tudo isso planificado. A distribuição das tarefas, incumbências e obrigações é determinada por esse Conselho. A Comunidade decidiu, por exemplo, que 75% da superfície florestal de meu país será destinada à plantação de eucaliptos. Nós não decidimos. Decidiu uma potência supernacional. E decidiu sobre algo que até agora teria a ver com o que chamamos de soberania nacional. O mais interessante, porém, é o seguinte: o que antes parecia ligar-se apenas à economia, está se transformando em solução política para a Europa. Isto é, uma vez que a aplicação da política económica não pode ser decidida pelos governos nacionais, então é indiferente que os governos sejam conservadores, nacionalistas, capitalistas, socialistas, social-democratas ou liberais. Apagam-se as fronteiras do que chamávamos ideologias, porque isso não tem mais importância.
O mais importante – e eu diria, o mais trágico – é que se tira dos povos o direito de decidirem sobre o seu destino. Claro que nada no mundo é definitivo, e os povos sempre encontram as soluções melhores para os seus problemas. Mas o problema da hegemonia, que parecia resolvido com a Comunidade, não está. O que está ocorrendo agora é o surgimento da potência europeia do futuro, que será outra vez a Alemanha. A Europa será o que Alemanha decidir."
José Saramago - in "Quem é o patrão da Europa?"
(Publicado em Jornal do Brasil - 15 de Maio de 1992