19 maio, 2013

Geração sentada, conversando na esplanada - 32 (Gonçalo M. Tavares saberia da sondagem?)

(Ler conversa anterior)
Apenas o hipopótamo e o seu dono escaparam ao naufrágio, saltando para cima de um pequeno bote. O hipopótamo era o ganha-pão do homem e por isso quando o pequeno bote começou a inclinar-se para o lado onde estava o animal, o homem ficou preocupado com a possibilidade de este se afogar. Para evitar que a pequena embarcação se desequilibrasse completamente, o homem cortou um pedaço do hipopótamo e comeu-o, o que também era oportuno, pois começava a estar com fome. O pequeno pedaço tirado ao hipopótamo permitiu que o bote recuperasse o equilíbrio entre os dois lados, como uma balança. Mas por pouco tempo. Novamente o bote começava a ir ao fundo do lado do hipopótamo. Este, apesar do bocado que lhe fora retirado, ainda era mais pesado. O homem decidiu então comer mais um pedaço do hipopótamo. Depois de o fazer, olhou para o barco e viu que ainda não era suficiente: tirou mais um bom bocado do animal e comeu-o. O barco recuperou o equilíbrio. A viagem durou ainda algumas semanas e o homem, de seis em seis horas, via-se obrigado a cortar mais um bocado do animal. Talvez não fosse a solução perfeita, mas não poderia correr o risco de perder o hipopótamo. 
(histórias do livro O Senhor Brecht ) 
A imagem que se tem hoje nos países que estão violentamente em crise é a de que se está a comer as sementes, em vez de lhes dar tempo de crescerem. Comer as sementes significa destruir o que se tem hoje e destruir ainda a hipótese de vir a ter-se algo no futuro. E há dois tipos de pobreza - a pobreza de hoje e a pobreza de hoje que sente não poder vir a sair desse estado. A pobreza desesperada é, de longe, a mais violenta. Pobreza sem dia seguinte. Perder o tempo: nada há de mais desumano. 
Gonçalo M. Tavares, hoje, aqui

Gaby, viciada na tecnologia, nem ligava ao que se dizia...

Na esplanada, a mesa das professoras estava animada. Não apareceram nem o engenheiro nem o seu cão rafeiro, e, assim, eu refugiava-me na leitura do jornal até que um oh de admiração baralhou-me a concentração. Foi a Gaby que o dera e acenava o iPad com uma euforia que eu lhe desconhecia.
- Querem ouvir isto?
Ninguém lhe respondeu. Ia a dizer "Eu!", mas ela antecipou-se:
- Quer ler isto?, e sem que esperasse a resposta colocou-me o iPad à minha frente.
- Oh!, exclamei eu depois de ler, sem me poder conter.