09 dezembro, 2017

O Natal, a língua e a gastronomia ou a crónica de uma inocente ofensa

Quem tem a candeia acesa
Quem tem a candeia acesa
Rabanadas pão e vinho novo
Matava a fome à pobreza
Natal dos Simples - José Afonso

Na proximidade do Natal, calha que fale dele pela parte que dele mais gosto. Podia dizer a boca, mas na verdade o que eu quero dizer é mesa, pois é à volta dela que a família se junta. E os doces são pretexto para adocicar os afetos, para entreter a expetativa das crianças no que lhes tocará no sapatinho ou apenas para matar a fome, nas casas de gente simples. 

Na doçaria tradicional do Natal, as rabanadas tem um lugar especial. São saborosas, gulosas e, como toda a gastronomia que resulta dos parcos recursos, não há mesa onde não apareça. Não há pobre que as não prove. 

No entanto, manda a boa e rica língua portuguesa que tais fatias surjam em cada lugar com nomes diferentes. Dei-me conta disso nas circunstâncias mais desconfortáveis... Eu conto:

Estava no restaurante Casa Aleixo, em Campanhã. Boa comida, um "verde tinto" de estalo, bom atendimento e preço confortável. Terminada a boa janta, a atarefada empregada sobraçava a lista das sobremesas e despejo-a na mesa, com um sorriso, enquanto levantava, lesta, travessas, pratos e copos. Ia a pedir só um café, mas passei os olhos pela oferta. Vinham lá, com fotos e tudo. A imagem, o seu aspeto suculento traiu-me  o intento de só me ficar pelo simbalino. À chegada da empregada, pedi-lhe uma "fatia parida". Ela olhou-me. Corou intensamente, não sei se de raiva se de cólera e disse com voz firme: 

"Não sei o que o senhor quer, mas podia ter mais respeito, passe pelo balcão terá lá a sua conta"

Só então percebi duas coisas: primeira, no norte ou se tratam as rabanadas por rabanadas (ou fatias douradas) ou não há nada para ninguém; segunda, a ofendida estava grávida.
Rabanadas ao Vapor na Bimby
(A Odete não disse que não dava trabalho)

Ingredientes para as rabanadas
1000 gr. de leite
150 gr. de açúcar
1 casca de limão
I pau de canela
12 fatias de pão de branco de véspera (espessura 2 cm)
2/3 ovos
75 gr. de água
I c. de sopa de açúcar
3 c. de sopa de canela
Manteiga derretida para untar
Ingredientes para a calda
100 gr. de açúcar
50 gr. de água
1 a 2 cascas de limão
1 pau de canela

Preparação
Coloque o leite, o açúcar, a casca de limão, o pau de canela e programe 12 Min/90'
colher de pau.
Retire o leite para um recipiente e deixe arrefecer. Coloque as fatias de pão de modo a ficaram embebidas em leite.
Coloque os ovos no copo e misture 10 Seg/VeL 5 e reserve.
(Eu, quando tirei as fatias de pão do leite, coloquei-as durante algum tempo, em cima de um pano de cozinha para escorrerem bem),
Passe cada fatia por ovo batido, coloque em quadrados individuais de película aderente, já untado com manteiga.
No copo coloque a água, a Varoma com as fatias de pão embrulhadas na película e programe 25 Min. / Varoma/ VeI. 1.
Pré-aqueça o forno a 250.
Misture o açúcar com a canela e reserve.
Retire a Varoma abra os embrulhos e envolva as fatias na mistura do açúcar com a canela.
Coloque as fatias num tabuleiro forrado com papel vegetal. Leve ao forno bem quente durante 3 Min.
Com o copo limpo coloque os ingredientes para a calda e programe 5 Min. / 100'. / Vel.
E depois....... ou rega as rabanadas com a calda ou reserve e vai regando uma a uma conforme for saboreando.
(A Odete nunca faz a calda e deseja-nos bom proveito)

8 comentários:

Lídia Borges disse...

Também nunca tinha ouvido chamar "parida", à fatia dourada. Olhe que quando peço um pingo, aí em Lisboa, também ficam a olhar para mim como se eu falasse grego.

Qual Bimby, qual quê? Aqui são feitas "à mão" e levam calda de pinhões. Deliciosas!

Feliz Natal!

Lídia

Elvira Carvalho disse...

Quando eu era menina, minha avó ensinou-me isto. Note que eu não sei se psto inicialmente era assim e o povo começou a igualar tudo, se era cosume da terra dela ou simplesmente invenção sua.
Ela disse-me que as rabanadas eram sempre feitas com vinho, as fatias douradas com leite. e as fatias paridas eram as das pessoas muito pobres que as demolhavam apenas com água, e que foi uma invenção a que recorreram no tempo da guerra.
Também me falou do "cozido à raisque parta" uma espécie de cozido à portuguesa com os legumes, mas nas carnes apenas chispe, ou orelha de porco um chouriço de carne.
Um abraço e bom domingo.

Janita disse...

Caramba, Rogério...uma fatia parida dessas comia eu já!
Nem esperava pela noite da Consoada, nem nada.

Por acaso isso que conta é bem verdade. Fatias paridas, chamam-se sim, mas no Alentejo e fatias douradas na Beira.
Cá para o Norte são rabanadas.
Vou anotar a receita, mesmo sem ter Bimby, pode ser que a ganhe de presente neste Natal. :)

Abraço.

Anónimo disse...

Tenho a grande vantagem de ter ancestrais próximos desde o Norte mais nortenho até ao Alentejo e, para mim, tanto faz que lhes chamem rabanadas, fatias douradas ou fatias paridas... mas olha que ainda há pobres que as nem cheiram e embora eu já tivesse ouvido falar do "cozido à rais que parta", não tinha ideia de que as fatias "paridas" tivessem essa história de carência ligada a elas. Na casa do Dafundo eram embebidas em leite e continuavam a ser chamadas de "fatias paridas"...


Abraço grande!

Maria João

Gil António disse...

Bom dia. Delicias de Natal. Quem não gosta de doces? Tem um aspecto maravilhoso. Imagino o sabor.
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Tema de hoje
Margens de sedução de branca espuma
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Deixando um abraço humilde e poético.
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Catarina disse...

Recordo-me de no Algarve chamarem fatias paridas. Suponho que o termo terá caído em desuso.Fatias douradas é um "nome" mais suave. Como a maior parte dos imigrantes é do norte, o termo mais usado aqui é rabanadas.

Eu prefiro as French toast... menos calóricas. :)

Graça Sampaio disse...

Uma gafe sem querer e sem mal nenhum! Por mim, só me resta dizer que ADORO RABANADAS!!! (Só dão algum trabalho a fazer...)

Beijinhos e rabanadas...

Mary Brown disse...

Paridas, fatias douradas ou rabanadas, uma delícia imprescindível na mesa no Natal. Conheço-as pelos 3 nomes.