22 dezembro, 2017

CONTOS DE NATAL - III ("...este ano não há perú")

Com este terceiro conto retomo uma série publicada em 2013. 
Faço-o por várias razões, designadamente porque quanto mais os raleio mais gosto deles.  

A história é breve, embora entre um e outro acontecimento medeie a esperança de vida de um galo. Eu conto, pois apesar de bem miúdo ainda me lembro de (quase) tudo.

A minha avó Mariana chamou-me depois de ter espreitado - "Estão a nascer, anda cá. Vem ver", e levou-me com ela por aquele grande terreiro baptizado de galinheiro, mas onde, além de galinhas, haviam coelhos, patos e pombos, todos partilhando o espaço mas com retiro adequado a sossego de cada um. Fui ver os pintainhos a nascer. Dois já tinham picado e destes, um deles, tinha a cabecita quase toda de fora do ovo. Adiantou-se o ver, ao conhecimento do facto, pois nunca tinha ouvido falar que era assim. Levaram dois dias para saltarem todos para a vida, mas o primeiro saltou cedo, pouco mais de uma boa hora depois de ter espreitado. Minha avó, experiente, disse "Esse é frango e é aleijado". E era as duas coisa. Quanto ao diagnóstico da deficiência, o pintainho não se detinha de pé. Dava duas passaditas e mergulhava de bico, na poeira. O resto das férias passei-as na brincadeira e a assistir à persistência paciente de minha avó Mariana, mergulhando as patas do pequenito galináceo em vinho tinto, depois de levemente aquecido.

Meses depois o pinto já era um frango emproado. Reconhecia minha avó Mariana como sua mãe e atrás dela corria para onde quer que ela ia. Se ela parava, o frango empoleira-se num qualquer beiral ou saliência e ficava ali, estupidificado, esperando que ela acabasse e fosse para qualquer outro lado. Vivia fora do galinheiro, em cuidados continuados.

Passaram anos. Uns poucos, pois os galos possuem larga longevidade e este usava-a com maldade. Desde que habitou o galinheiro, nunca mais houve a paz que antes por lá havia: os pombos deixaram de poder partilhar o milho das galinhas, os coelhos perderam a liberdade e não mais saíram da coelheira e a Reca, uma pata engraçada, que reagia a todo e qualquer chamamento, perdeu o seu lugar lá dentro. O galo, além de mau, não galava. Mas o safado imperava como se todas as galinhas fossem seu harém. Perseguia as coitadas e algumas que, esperavam ser montadas, recebiam brutais agressões. Muitas perderam a crista, outras a vista algumas, sortudas, apenas algumas penas.

De madrugada, o galo enganava com o orgulho posto no seu cantar. Cantava alto, trinado e repetido. Cantava, cantava, cantava e só parava quando pensava que tinha acordado toda a gente, parava quando toda a gente tinha acordado. Entretanto, o malvado galo era gabado por todas as quintas à volta, e toda a gente comentava "Dona Mariana, o seu galo canta que é um regalo", e a minha avó escondia-lhe o comportamento agressivo como se protegesse actos desavindos de um mau filho.

Num Natal, um dos muitos passados na quintinha dos meus avós, já eu tinha condições de retirar a moral de qualquer história, a minha avó anunciou a sua resolução: esse ano não haveria peru. E assim foi. Na noite da Natal o galo saiu à mesa. O aspecto do assado era com a mesma imponência do bicho enquanto vivo, apesar do tostado. Mas o pior aconteceu, de tão rijo, ninguém o comeu. Souberam bem os miúdos de cabidela, a merecerem  lágrimas de minha avó, a correrem pelos olhos dela...


5 comentários:

Anónimo disse...

O mesmo me acontece; quanto mais releio os teus contos, mais gosto deles :)

Na casa do Dafundo, também havia um quintal, nas traseiras. Bicho que lá fosse nado e criado, morria de velho. Claro está queos ovos eram aproveitados; belas açordas, gemadas, omoletas, sopas de tomate com ovo, ovos "à la coque", filhós, trouxas de ovos...muito ovo fresquinho se comia naquela casa! Mas os laços criados com aquelas criaturinhas eram muito fortes...

Abraço!


Maria João

© Piedade Araújo Sol disse...

Rogério
que estória deliciosa, e suponho eu que é mesmo real.
gostei muito.
Agradeço reconhecida todas as visitas e comentários que efectuou durante este ano.
Desejo-lhe um bom Natal e um ano novo repleto de motivos de esperança e muito amor.
Beijinhos
:)

Catarina disse...

Adoro ler e contar contos!!
Feliz Natal, Rogeiro!
: )

Maria Eu disse...

Esse galo era um gabirú! :)

Feliz Natal, Rogério!

Beijinhos :)

Janita disse...

Este bonito conto também o conheço
de o ter já lido aqui no seu espaço.
Descrever a história do apego da avó
a um galináceo emproado, enternece-me hoje
como já me enterneceu no passado.

Pena que Avó Mariana
não tivesse deixado oTenório
(homónimo do galo de Torga)
ter ficado para semente
em vez de ter partido
ingloriamente

Uma vez que ninguém conseguiu
meter-lhe o dente.

Um abraço e FELIZ NATAL,
Amigo de todas as Festas.

:)