25 setembro, 2011

Homilias dominicais (citando Saramago) - 50

Ontem fui parco em palavras mas contava já com este espaço para equilibrar o que então me faltou falar e que não pode ser diluído no alinhamento irónico-poético da canção de Sérgio Godinho: "A vida é feita de pequenos nadas.".  Dois assuntos incontornáveis, mas ligados: O Alberto João e o "enriquecimento ilícito". Sobre o primeiro, "um pequeno nada" a outros igual só que excessivamente bronco e boçal. Filho da degeneração de Abril, faz percurso sustentado por perdões de dívida, reacções intempestivas bem apoiadas por interesses  (offshore da Madeira) que os sucessivos governos  não  afrontam, antes protegem. O homem até ficou (acho que terá ficado) admirado com eloquentes (e inesperados)elogios partidos da segunda figura do Estado. E porque as mesmas causas geram os mesmos efeitos, será eleito.
Sobre o segundo, foi preciso esperar (pelo menos) quatro anos para ver ser aprovada uma lei indispensável no combate à corrupção. Estranhamente pertence ao único partido que votou contra essa lei quem afirmou que Jardim já tinha acabado se o enriquecimento ilícito tivesse sido aprovado. O que é que a homilia de hoje tem a ver com estes pequenos nadas de que a vida é feita? Um "nada", certamente:
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HOMILIA DE HOJE
"Mas a realidade é esta: não temos um projecto de país. Vivemos ao deus-dará, conforme o lado de que o vento sopra. As pessoas já não pensam só no dia-a-dia, pensam no minuto a minuto. Estamos endividados até às orelhas e fazemos uma falsa vida de prosperidade. Aparência, aparência, aparência - e nada por trás. Onde estão as ideias? Onde está uma ideia de futuro para Portugal? Como vamos viver quando se acabarem os dinheiros da Europa? Os governos todos navegam à vista da costa e parece que ninguém quer pensar nisto, ninguém ousa ir mais além."
"(...) A tineta vem de longe. Quando informaram o rei D. João V do preço do carrilhão que iria ser instalado em Mafra, ele não se conteve e, com a sua ridícula prosápia de nouveau-riche, disse: “Acho barato. Comprem dois”. E, não há muitos anos, quando Portugal foi encarregado de organizar o campeonato europeu de futebol, que logo desgraçadamente não ganhou, alguém terá dito que precisaríamos de construir uns quantos estádios porque estávamos muito em baixo de instalações desportivas. Imagino o diálogo: “Quantos?”, perguntou o manda-chuva da modalidade, “Aí uns três ou quatro devem bastar”, respondeu o técnico, “Quais três? Quais quatro?” indignou-se o figurão, “Dez, doze é que hão-de ser, seríamos uns bons idiotas se não aproveitássemos os fundos europeus até lhe vermos o fundo ao saco”. Também neste caso alguém se enganou nas contas ou com elas nos enganou.
Onde as contas parece que batem certo é no número de pobres em Portugal. São dois milhões, segundo as últimas informações. Quer dizer, uma expressão mais da nossa histórica mania das grandezas…"
Mania das Grandezas In "Outros Cadernos de Saramago" - Abril de 2009